Montevidéu tem 25 quilômetros de orla, oito praias de água doce, sim, doce! Trata-se do estuário gelado do Rio da Prata. E quando digo gelado, falo de um gelado que não muitas vezes conhecemos aqui no Brasil quando vamos à praia. Durante toda a viagem ouvi muito sobre como são bonitos os prédios na orla, como ela é bem-cuidada, como é seguro estar lá etc. etc. etc.. Contudo, as recordações que guardo da praia em Montevidéu são bastante particulares.
Fazia um dia, ou melhor, uma tarde bonita quando chegamos, um pouco depois do almoço, aquele friozinho com sol que eu havia aprendido a conhecer no Uruguai. Terminei de descer a escada e pisei a areia, fofa! Sempre gostei de brincar na areia fofa da praia; comecei instantaneamente a recordar minha infância, de tantas idas à praia com a família, principalmente com os meus avós. Meu avô me punha numa área livre da praia e dizia: “Corre”! E eu corria, ia, voltava... Sabia que a partir do momento em que ele me dizia isso, nada iria me atrapalhar; todo o cuidado já havia sido tomado. Era uma sensação incrível de liberdade, de poder estar sozinha e andar sozinha, algo que na cidade eu raramente experimento.
Quando pisei a praia de areia fofa em Montevidéu, essa recordação imediatamente me veio à cabeça. O vento no rosto era semelhante, embora um pouco mais frio, espanando não com tanta gentileza os meus cabelos em todas as direções sem que eu me preocupasse, tudo como antes. Essas coisas todas eu pensei, mas não disse. Claro que também não corri, mas não resisti a dar umas belas patinadas na areia!...
Uma amiga me dizia enquanto andávamos: “Olha, uma duna! Duas! Três”! E eu ali, toda encapotada, de botas, pensando: “Que coisa mais chata a gente estar tão coberta da cabeça aos pés na praia"... Mas não havia outro jeito. Eu pensava nisso, já sabendo de antemão que não resistiria à vontade de pôr pelo menos a mão na água, que certamente estaria fria e na qual não havia ninguém, mas que eu não deixaria de experimentar.
Andamos em frente, pela areia fina, fofa, branca e luminosa, pensando que, se não havia sal, como ela podia brilhar tão intensamente daquele jeito?... Comecei a ouvir o barulho da água se aproximando e tive a certeza de que eu não me comportaria tão bem por muito mais tempo. O salto da bota tocou a areia que começava a ficar molhada e consistente e continuamos alguns poucos passos. Me abaixei, toquei o chão que a água apenas roçava e mal se fazia sentir mesclada à areia e percebi que aquilo, para mim, não seria suficiente. Deixei uma sacola com alguns objetos, dizendo à minha amiga que já voltava. Fingindo que não ouvia a censura nas palavras dela, caminhei sozinha mais alguns passos para dentro do Rio-Mar da Prata, não muitos.
Ali já havia um pouco mais de água. Me contentei, resignada, e abaixei, segurando com uma mão a bolsinha com alguns pertences pessoais e tocando a água com a outra. Uma onda veio e revolveu a areia, afundando os meus saltos e me desestabilizando um pouco. Ergui firme a bolsinha e pensei: “Bom, o máximo que pode acontecer é eu levar um tombo de frente nessa água gelada e voltar molhada pro hotel; ta valendo”! No entanto, nada aconteceu. A onda voltou ao mar e devolveu a areia ao lugar onde estava antes, libertando os meus pés. Me abaixei com mais interesse e segurança, tocando irremediavelmente a água e tive uma grata surpresa: uma conchinha.
Nossa, sempre me surpreendi com as conchas; agora eu tinha na mão uma conchinha de Montevidéu... Que máximo! Comecei a esperar que as ondas escuras, calmas e geladas trouxessem outras conchas e a lavar aquelas que recolhia, todas brancas ou quase brancas e todas pequenas, do mesmo tamanho.... Sempre a vastidão do mar me trouxe um sentimento de interrogação. Eu tocava a água que sentia densa e gelada, recolhia e lavava as conchinhas e percebia de novo aquele velho sentimento crescer, ouvindo o barulho manso das ondas.
Mas infelizmente era preciso ir. Me levantei, girei nos passos e comecei a fazer o caminho de volta, recolhendo, no entanto, conchinhas da areia, que batíamos e se limpavam facilmente, iguaizinhas às que vieram do mar. Creio que devo ter passado naquela praia cerca de meia hora. Porém, nunca pensei que em metade de uma hora coubessem tantas sensações, tantos sentimentos, enfim, tantas coisas. Mas quando sabemos que estamos em um lugar ao qual possivelmente só iremos uma única vez, tudo se potencializa e intensifica.
Subi as escadas para sair e foi como se o tempo, esquecido de passar, voltasse a correr. Os carros e pedestres, o som do espanhol tranquilo que ia e vinha como o mar me lembraram que a vida continuava lá fora. Então segui sem me voltar, me preparando para o novo, que certamente viria depois...
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
sábado, 6 de setembro de 2014
Recuerdos Del Paisito: Montevideo
A primeira impressão que tive quando comecei a percorrer Montevidéu a pé, tocando a parede antiga e rústica que restou daquela que antes fora uma cidade amuralhada, foi de que eu havia sido transportada magicamente aos tempos coloniais. Forte militar e porto natural, San Felipe y Santiago de Montevideo foi edificada por Bruno Mauricio de Zabala, em dezembro de 1726, para deter o avanço dos portugueses, que já haviam fundado à margem esquerda do Rio da Prata, ainda no século anterior, a cidade de Colônia do Santíssimo Sacramento e prosperavam, com pretensões de expandir seus domínios em terras do rei da Espanha e, assim, minerar e traficar por intermédio ddeste rio.
Sendo este monte o sexto que se poderia ver navegando a costa do Rio da Prata de Leste a Oeste, segundo relatos da época da fundação da cidade, academicamente sustenta-se que a origem do nome Montevideo – Monte-VI-D-E-O – seria: Monte VI de Leste a Oeste. No entanto, há também outras explicações mais controvertidas, sejam elas espontâneas, religiosas ou documentais. Contudo, nenhuma dessas explicações conta com provas realmente contundentes que possam sustentá-la em detrimento das demais.
Esta se propõe a ser uma visão mais geral da capital uruguaia, ficando suas particularidades mais marcantes para as próximas crônicas. Creio que o olhar desta cronista sobre a cidade parecerá distinto à maioria dos leitores, visto que irá descrevê-la do ponto de vista de alguém que não vê, levando, assim, em conta, detalhes que normalmente não são percebidos por aqueles que olham.
Montevidéu é uma cidade plana. Não é perfeita em termos de acessibilidade arquitetônica, como de resto poucas cidades são, mas suas dificuldades de acessibilidade, fisicamente falando, são menores frente a todas as cidades brasileiras que conheço. São pouco numerosas as irregularidades no pavimento, se bem que existam, claro, e as rampas para cadeirantes, pelas quais fiz questão de passar para verificar empiricamente, me pareceram todas bem construídas e com inclinação adequada.
No que toca às atitudes, uma muito grata surpresa: as pessoas, de modo geral, lidaram comigo, não só em Montevidéu mas nas outras cidades uruguaias onde estive, com naturalidade e espontaneidade, deixando-me tocar o que era necessário e mostrando-me concretamente, sem reservas, com o uso de seus corpos ou mãos, de objetos ou de demonstrações por meio de meu próprio corpo, o que havia para ser concretizado. Quando me lembro de tantas vezes nas quais já fui impedida de tocar objetos e lugares aqui no Brasil, seja em lojas, seja em museus, seja onde for, inclusive com as pessoas me dizendo que se eu tocasse determinado monumento a segurança me repreenderia ou prejudicaria o monitor, penso que, em se tratando de como lidar com pessoas com deficiência, em Montevidéu estive no melhor dos mundos. Porque é engraçado: tudo indica que aqui no Brasil, por exemplo, os cegos não consomem, não precisam ter acesso à cultura. Muitos olhares tortos, fiscalizadores e penalizados que tive aqui desde que me conheço por gente, e que percebo mesmo que se pense o contrário, lá, não tive em momento algum.
Para aqueles que me leem com olhos de ver registro, na paisagem da cidade, primeiro, seus grandes plátanos, e depois seus eucaliptos. Ainda posso mencionar suas muitas praças, parques e áreas verdes; capital com matizes de cidade do interior. Em seus 25 quilômetros de orla murada e bem pavimentada, os montevideanos praticam esportes, passeiam com os cachorros – muitos! Mas dificilmente estão sozinhos – brincam com as crianças ou simplesmente descansam.
No que tange à conservação, há, sim, claro, imóveis históricos, por exemplo, que necessitariam ser restaurados, como aqui. No entanto, o cuidado com o patrimônio me parece maior, outra lição que poderíamos ao menos começar a aprender.
Mais um ponto positivo a destacar parece ser a maior prudência no trânsito. Se os semáforos estão vermelhos para quem anda a pé, o pedestre aciona um botão. Eles ficam verdes, os carros param tão logo avistam a mudança e se pode atravessar as ruas com tranquilidade. Poucas foram as motos que vi, ou seja, nada de motoqueiros costurando o caminho entre os carros e amedrontando até mesmo os pedestres mais alerta. Algo curioso ao se transitar pelas calçadas: é como se houvesse uma linha imaginária vertical que dividisse a calçada em duas partes, uma para os pedestres que vão e outra para aqueles que vêm. Acredite-se ou não: essa linha traçada no imaginário coletivo dos montevideanos é impreterivelmente respeitada.
Os táxis, fechados na parte de trás, em que se vê o motorista através de vidros, me pareceram meio claustrofóbicos; na verdade me senti meio enjaulada neles – agora uma lembrança divertida -, mas compreendo que essa seja uma precaução que até poderia ajudar os taxistas brasileiros no que se relaciona aos assaltos a táxis, que têm se tornado cada vez mais frequentes aqui. Uma prática que creio seja comum aqui e lá são os atravessadores. No shopping Punta Carretas, por exemplo, que por sinal fica longe do centro, se você desejar pegar um táxi para voltar ao hotel, antes de pagar ao motorista, que está fazendo seu trabalho como deve, prepare-se para molhar com alguns pesos a mão do atravessador, que no meu caso foi um rapaz bem aparentado, com os cinco sentidos perfeitos e inegavelmente apto para fazer parte da população economicamente ativa do Uruguai... Mas vai ver que a exploração do turismo seja bastante mais rentável que o trabalho mensal, não é? Vá se saber... Por outro lado, não convem esquecer que todos os lugares, assim como tudo na vida, têm seus pontos positivos e negativos. Este é o ponto negativo que tenho para destacar na cidade.
O que me fica da capital uruguaia, para dizer em linhas bem gerais, é uma mescla entre o tradicional e o moderno; um olhar para a frente sem esquecer as origens de tudo. Gosto disso, faz a gente se repensar e se reencontrar no mundo...
Sendo este monte o sexto que se poderia ver navegando a costa do Rio da Prata de Leste a Oeste, segundo relatos da época da fundação da cidade, academicamente sustenta-se que a origem do nome Montevideo – Monte-VI-D-E-O – seria: Monte VI de Leste a Oeste. No entanto, há também outras explicações mais controvertidas, sejam elas espontâneas, religiosas ou documentais. Contudo, nenhuma dessas explicações conta com provas realmente contundentes que possam sustentá-la em detrimento das demais.
Esta se propõe a ser uma visão mais geral da capital uruguaia, ficando suas particularidades mais marcantes para as próximas crônicas. Creio que o olhar desta cronista sobre a cidade parecerá distinto à maioria dos leitores, visto que irá descrevê-la do ponto de vista de alguém que não vê, levando, assim, em conta, detalhes que normalmente não são percebidos por aqueles que olham.
Montevidéu é uma cidade plana. Não é perfeita em termos de acessibilidade arquitetônica, como de resto poucas cidades são, mas suas dificuldades de acessibilidade, fisicamente falando, são menores frente a todas as cidades brasileiras que conheço. São pouco numerosas as irregularidades no pavimento, se bem que existam, claro, e as rampas para cadeirantes, pelas quais fiz questão de passar para verificar empiricamente, me pareceram todas bem construídas e com inclinação adequada.
No que toca às atitudes, uma muito grata surpresa: as pessoas, de modo geral, lidaram comigo, não só em Montevidéu mas nas outras cidades uruguaias onde estive, com naturalidade e espontaneidade, deixando-me tocar o que era necessário e mostrando-me concretamente, sem reservas, com o uso de seus corpos ou mãos, de objetos ou de demonstrações por meio de meu próprio corpo, o que havia para ser concretizado. Quando me lembro de tantas vezes nas quais já fui impedida de tocar objetos e lugares aqui no Brasil, seja em lojas, seja em museus, seja onde for, inclusive com as pessoas me dizendo que se eu tocasse determinado monumento a segurança me repreenderia ou prejudicaria o monitor, penso que, em se tratando de como lidar com pessoas com deficiência, em Montevidéu estive no melhor dos mundos. Porque é engraçado: tudo indica que aqui no Brasil, por exemplo, os cegos não consomem, não precisam ter acesso à cultura. Muitos olhares tortos, fiscalizadores e penalizados que tive aqui desde que me conheço por gente, e que percebo mesmo que se pense o contrário, lá, não tive em momento algum.
Para aqueles que me leem com olhos de ver registro, na paisagem da cidade, primeiro, seus grandes plátanos, e depois seus eucaliptos. Ainda posso mencionar suas muitas praças, parques e áreas verdes; capital com matizes de cidade do interior. Em seus 25 quilômetros de orla murada e bem pavimentada, os montevideanos praticam esportes, passeiam com os cachorros – muitos! Mas dificilmente estão sozinhos – brincam com as crianças ou simplesmente descansam.
No que tange à conservação, há, sim, claro, imóveis históricos, por exemplo, que necessitariam ser restaurados, como aqui. No entanto, o cuidado com o patrimônio me parece maior, outra lição que poderíamos ao menos começar a aprender.
Mais um ponto positivo a destacar parece ser a maior prudência no trânsito. Se os semáforos estão vermelhos para quem anda a pé, o pedestre aciona um botão. Eles ficam verdes, os carros param tão logo avistam a mudança e se pode atravessar as ruas com tranquilidade. Poucas foram as motos que vi, ou seja, nada de motoqueiros costurando o caminho entre os carros e amedrontando até mesmo os pedestres mais alerta. Algo curioso ao se transitar pelas calçadas: é como se houvesse uma linha imaginária vertical que dividisse a calçada em duas partes, uma para os pedestres que vão e outra para aqueles que vêm. Acredite-se ou não: essa linha traçada no imaginário coletivo dos montevideanos é impreterivelmente respeitada.
Os táxis, fechados na parte de trás, em que se vê o motorista através de vidros, me pareceram meio claustrofóbicos; na verdade me senti meio enjaulada neles – agora uma lembrança divertida -, mas compreendo que essa seja uma precaução que até poderia ajudar os taxistas brasileiros no que se relaciona aos assaltos a táxis, que têm se tornado cada vez mais frequentes aqui. Uma prática que creio seja comum aqui e lá são os atravessadores. No shopping Punta Carretas, por exemplo, que por sinal fica longe do centro, se você desejar pegar um táxi para voltar ao hotel, antes de pagar ao motorista, que está fazendo seu trabalho como deve, prepare-se para molhar com alguns pesos a mão do atravessador, que no meu caso foi um rapaz bem aparentado, com os cinco sentidos perfeitos e inegavelmente apto para fazer parte da população economicamente ativa do Uruguai... Mas vai ver que a exploração do turismo seja bastante mais rentável que o trabalho mensal, não é? Vá se saber... Por outro lado, não convem esquecer que todos os lugares, assim como tudo na vida, têm seus pontos positivos e negativos. Este é o ponto negativo que tenho para destacar na cidade.
O que me fica da capital uruguaia, para dizer em linhas bem gerais, é uma mescla entre o tradicional e o moderno; um olhar para a frente sem esquecer as origens de tudo. Gosto disso, faz a gente se repensar e se reencontrar no mundo...
quinta-feira, 31 de julho de 2014
Gratidão, Honra, Dignidade
“Se podes olhar, vê; se podes ver, repara”. (José Saramago)
(Dedico estes escritos a todos os filhos que, por uma razão ou por outra, se tenham tornado, em algum momento da vida, pais de seus próprios pais.)
A tarde era de alegria, sarau! Soprava esse friozinho chato, tempo nem geladíssimo nem quente demais, que finda os outonos no Brasil. O piano de cauda, ocre-caramelado, majestoso e recém-chegado, aguardava os pianistas e os ouvintes.
De repente Ela chegou. Alheia ao mundo que a rodeava, deixou-se ser posta no sofá da maneira como fosse e lá ficou, porque não mais importavam o lugar nem o como. A única coisa que lhe importava, ainda e de alguma forma, era estar presente.
Seu rosto denotava desconforto, talvez algum cansaço. Sua fiel companheira e acompanhante já há tantos anos, que conversava comigo por um momento, me segredou, com respeito reverente e desvelo na voz alegre:
- Olha, eu vou levar a doutora ali pra deitar um pouquinho e já volto.
Acenei afirmativamente, pensando na suavidade digna, solícita e cheia de reconhecimento com que aquele “doutora” saía dos lábios dela, recordando que são apenas uma a que foi e a que é, frisando que os vários eus de uma pessoa jamais se excluem; muito ao contrário, acumulam-se e complementam-se.
Quando já almoçávamos - churrasco, pagode, caipirinha, cerveja - Ela ressurgiu, inteira em sua baixa estatura, bem-disposta, até algo sorridente. Cumprimentou todos os presentes e, agora sim, estava firme, pronta para ser parte da festa, da forma como fosse, da maneira como pudesse ser.
Passada a euforia etílica do almoço, nos preparamos todos para ir conhecer com mais profundidade o motivo daquela festa toda, o piano, que enchia a sala com sua presença a um só tempo maciça e delicada. Eu o ouvia, meio atenta, meio distraída, quando Aquela Senhora, que desde o início me chamara a atenção, veio sentar se ao meu lado no sofá, tão outra, tão renovada.
- Ela foi a médica da sua mãe... - minha cabeça reproduzia o que minha avó sempre dizia e ainda diz. Então aquela era a figura cujo nome desde a infância eu já conhecia, de uma maneira quase mítica e que pensei que não veria pessoalmente, porque nem a mais astuta das pessoas é jamais capaz de prever as voltas que a vida dá. Cadddda frase era um assunto, e assim íamos navegando, eu pensando se me sairia bem na tarefa de agradá-la e entretê-la, já que Ela me havia escolhido para fazer-lhe companhia.
Conversávamos enquanto sempre havia alguém para soar o piano. De vez em quando, Ela cantarolava melodias e as modulações de sua voz me deixavam perceber que emoções insondáveis, talvez distintas e inúmeras, lhe povoavam a mente e a maneira que encontrava de exprimi-las era dialogando musicalmente com Chopin, Tchaikovsky, Nazareth, Waldir Azevedo, Gardel...
Quando chegou a vez daquele tango de compositor uruguaio que a Argentina adotou como o tango dos tangos, Ela se levantou e arriscou uns passos surpreendentemente ágeis e compassados para quem a havia visto mais cedo na chegada, observados com cuidado e graça benfazeja pelos que a olhavam mais de perto. Ao retornar ao sofá sentando-se novamente ao meu lado, ou seja, escolhendo-me pela segunda vez, perguntei, para entabular uma nova conversa:
- Então a senhora tocava piano?...
- Tocava! - respondeu, como que tomada de novo ânimo, fôlego e força, e continuou:
- Tocava e isso é uma das coisas que me deixa mais frustrada por não ter voltado a fazer.
- E por que não? - perguntei, notando que a lucidez definitivamente a tomava de assalto e que eu havia encontrado um assunto do qual Ela parecia ter gosto em falar.
- Sabe o que aconteceu? - Ela recomeçou me olhando com mais vivacidade no rosto e na voz - Meu pai faleceu, minha mãe faleceu e eu nunca mais consegui me reabilitar como pessoa, e agora isso fica marcado na vida de todos os meus filhos...
Tão repentinamente quanto começou Ela parou de falar, parecendo novamente absorta pela música e esquecendo a confissão de toda uma vida que acabava de fazer a mim, uma quase desconhecida, para mergulhar de novo no aparente torpor costumeiro das emoções fugazes e indecifráveis.
A luz alegre e refletida do fim da tarde se coava pelas portas e paredes envidraçadas da grande sala e eu pensava:
- Meu Deus, então, de alguma forma inconsciente que a medicina a que se dedicou a vida inteira não explica, Ela sabe que habita hoje um mundo só seu, porque um dia sofreu demais...
Ajeitei de leve o cobertor macio que a confortava no friozinho desenxavido da tarde, pensando em quanta força interior ainda se escondia por detrás daquela aparente fragilidade externa, emocionada e grata a Deus por ter me concedido viver um momento como este, e pouco voltamos a falar depois disso, até que Ela partiu, acompanhada por familiares, entre eles filhos, que agora a cuidam como o fazem pais.
Escolhida espiritualmente para ser portadora dessa revelação tão importante que Aquela Senhora queria fazer conhecer e manter viva, hoje escrevo esta história, universal e que já se deve ter repetido tantas vezes desde o início da humanidade sem que ninguém o percebesse...
- Pronto, Doutora, como a chama sábia e delicadamente o seu anjo da guarda aqui da Terra. A partir de hoje está bem guardada e preservada a sua mensagem! E quando, se um dia chegar novamente a hora, sou toda ouvidos.
Limeira, 25 de junho de 2014
(Dedico estes escritos a todos os filhos que, por uma razão ou por outra, se tenham tornado, em algum momento da vida, pais de seus próprios pais.)
A tarde era de alegria, sarau! Soprava esse friozinho chato, tempo nem geladíssimo nem quente demais, que finda os outonos no Brasil. O piano de cauda, ocre-caramelado, majestoso e recém-chegado, aguardava os pianistas e os ouvintes.
De repente Ela chegou. Alheia ao mundo que a rodeava, deixou-se ser posta no sofá da maneira como fosse e lá ficou, porque não mais importavam o lugar nem o como. A única coisa que lhe importava, ainda e de alguma forma, era estar presente.
Seu rosto denotava desconforto, talvez algum cansaço. Sua fiel companheira e acompanhante já há tantos anos, que conversava comigo por um momento, me segredou, com respeito reverente e desvelo na voz alegre:
- Olha, eu vou levar a doutora ali pra deitar um pouquinho e já volto.
Acenei afirmativamente, pensando na suavidade digna, solícita e cheia de reconhecimento com que aquele “doutora” saía dos lábios dela, recordando que são apenas uma a que foi e a que é, frisando que os vários eus de uma pessoa jamais se excluem; muito ao contrário, acumulam-se e complementam-se.
Quando já almoçávamos - churrasco, pagode, caipirinha, cerveja - Ela ressurgiu, inteira em sua baixa estatura, bem-disposta, até algo sorridente. Cumprimentou todos os presentes e, agora sim, estava firme, pronta para ser parte da festa, da forma como fosse, da maneira como pudesse ser.
Passada a euforia etílica do almoço, nos preparamos todos para ir conhecer com mais profundidade o motivo daquela festa toda, o piano, que enchia a sala com sua presença a um só tempo maciça e delicada. Eu o ouvia, meio atenta, meio distraída, quando Aquela Senhora, que desde o início me chamara a atenção, veio sentar se ao meu lado no sofá, tão outra, tão renovada.
- Ela foi a médica da sua mãe... - minha cabeça reproduzia o que minha avó sempre dizia e ainda diz. Então aquela era a figura cujo nome desde a infância eu já conhecia, de uma maneira quase mítica e que pensei que não veria pessoalmente, porque nem a mais astuta das pessoas é jamais capaz de prever as voltas que a vida dá. Cadddda frase era um assunto, e assim íamos navegando, eu pensando se me sairia bem na tarefa de agradá-la e entretê-la, já que Ela me havia escolhido para fazer-lhe companhia.
Conversávamos enquanto sempre havia alguém para soar o piano. De vez em quando, Ela cantarolava melodias e as modulações de sua voz me deixavam perceber que emoções insondáveis, talvez distintas e inúmeras, lhe povoavam a mente e a maneira que encontrava de exprimi-las era dialogando musicalmente com Chopin, Tchaikovsky, Nazareth, Waldir Azevedo, Gardel...
Quando chegou a vez daquele tango de compositor uruguaio que a Argentina adotou como o tango dos tangos, Ela se levantou e arriscou uns passos surpreendentemente ágeis e compassados para quem a havia visto mais cedo na chegada, observados com cuidado e graça benfazeja pelos que a olhavam mais de perto. Ao retornar ao sofá sentando-se novamente ao meu lado, ou seja, escolhendo-me pela segunda vez, perguntei, para entabular uma nova conversa:
- Então a senhora tocava piano?...
- Tocava! - respondeu, como que tomada de novo ânimo, fôlego e força, e continuou:
- Tocava e isso é uma das coisas que me deixa mais frustrada por não ter voltado a fazer.
- E por que não? - perguntei, notando que a lucidez definitivamente a tomava de assalto e que eu havia encontrado um assunto do qual Ela parecia ter gosto em falar.
- Sabe o que aconteceu? - Ela recomeçou me olhando com mais vivacidade no rosto e na voz - Meu pai faleceu, minha mãe faleceu e eu nunca mais consegui me reabilitar como pessoa, e agora isso fica marcado na vida de todos os meus filhos...
Tão repentinamente quanto começou Ela parou de falar, parecendo novamente absorta pela música e esquecendo a confissão de toda uma vida que acabava de fazer a mim, uma quase desconhecida, para mergulhar de novo no aparente torpor costumeiro das emoções fugazes e indecifráveis.
A luz alegre e refletida do fim da tarde se coava pelas portas e paredes envidraçadas da grande sala e eu pensava:
- Meu Deus, então, de alguma forma inconsciente que a medicina a que se dedicou a vida inteira não explica, Ela sabe que habita hoje um mundo só seu, porque um dia sofreu demais...
Ajeitei de leve o cobertor macio que a confortava no friozinho desenxavido da tarde, pensando em quanta força interior ainda se escondia por detrás daquela aparente fragilidade externa, emocionada e grata a Deus por ter me concedido viver um momento como este, e pouco voltamos a falar depois disso, até que Ela partiu, acompanhada por familiares, entre eles filhos, que agora a cuidam como o fazem pais.
Escolhida espiritualmente para ser portadora dessa revelação tão importante que Aquela Senhora queria fazer conhecer e manter viva, hoje escrevo esta história, universal e que já se deve ter repetido tantas vezes desde o início da humanidade sem que ninguém o percebesse...
- Pronto, Doutora, como a chama sábia e delicadamente o seu anjo da guarda aqui da Terra. A partir de hoje está bem guardada e preservada a sua mensagem! E quando, se um dia chegar novamente a hora, sou toda ouvidos.
Limeira, 25 de junho de 2014
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Amandlha Aweto!
No último dia 05 de dezembro, o mundo ficou muito, mas muito mais pobre. E não falo dessa pobreza material, aparente, que assola a tantos. Infelizmente, disso todo mundo já sabia; que muitos viventes são pobres. Falo de outra pobreza, ainda pior, porque irremediável. Nosso mundo ficou muito mais pobre de referências, porque Nelson Mandela passou. Não morreu, porque mitos como ele jamais morrem, mas passou. Mito sim, porque, negro, ousou erguer a voz em um país comandado por uma numericamente insignificante minoria branca, que oprimia mais de 80% da população negra pelo regime segregacionista institucionalizado do apartheid, negando aos negros o direito ao voto, instalando-os em bairros e escolas separadas, proibindo os casamentos ditos inter-raciais ou mistos e sugando-os dia a dia, para que proporcionassem aos poucos brancos uma vida confortável, quase europeia, no Sul do continente africano. Por desejar esse ideal, de um país com democracia igualitária, Mandela, condenado à prisão perpétua pelo regime do apartheid como preso político, pagou com 27 anos de sua vida. Contudo, ainda assim, revelou-se um grande líder, carismático ao extremo e engenhoso negociador, pois só aceitou deixar a cadeia quando a igualdade dos negros aos brancos estava também institucionalmente garantida, com a certeza de eleições livres e multirraciais para logo. Deixou a prisão em 1990, com pressões internacionais crescentes por sua libertação. Em 1993, dividiu com o então presidente da África do Sul – Frederik W. de Klerk – o Prêmio Nobel da Paz, pelos esforços conjuntos para pôr fim ao regime segregacionista do apartheid. Unificada a África do Sul, Mandela fez confraternizar seu país por meio do rugby, esporte originalmente branco e pelo pai da nova África do Sul tornado multirracial, como pode ser acompanhado assistindo-se ao filme Invictus, dirigido por Clint Eastwood. Hoje, os problemas políticos, de corrupção e má distribuição de renda que a África do Sul tem são em muito semelhantes àqueles que temos aqui no Brasil. Mas a institucionalização da segregação racial está banida, e este é o grande legado de Mandela, ou Madiba, como é conhecido. Em sua etnia, este é o nome dado aos sábios que se fazem respeitar não pelo autoritarismo, mas pelo longo conhecimento que possuem. Infelizmente, e como não poderia deixar de ser, a atuação política, social e pessoal de Madiba renovou a autoestima dos africanos do Sul como um todo, mas não tornou este país no melhor dos mundos. As tensões sociais legadas por mais de 300 anos de implacável domínio branco sobre outros grupos étnicos, prioritariamente negros, deixaram suas profundas cicatrizes, como pode ser percebido na leitura de Desonra, livro do prêmio Nobel de Literatura sul-africano J. M. Coetzee. Na trama, é constante a presença do “aturar-se” entre negros e brancos, na cobrança de dívidas seculares e na exposição de chagas sociais profundas ainda abertas, mesmo no regime pós-Mandela. Ainda faltou um pouco para que se aprendesse o significado da saudação que Madiba dirigia ao povo depois de deixar a cadeia, e que entitula esta crônica. “Amandlha aweto”, sendo a primeira palavra evocação de Mandela a seu povo e a outra resposta do povo a seu novo líder, ambas em auto e bom som, significa “Poder ao povo”. Aprender a administrar esta máxima sem as tensões sociais que perturbam a nova África do Sul de todos os grupos é tarefa para os sul-africanos do futuro. E por que eu, Yara, Branca, brasileira, nascida pouco antes de Madiba ser libertado, estou escrevendo tudo isso? Porque Madiba, que deixou o poder ao fim de seu primeiro mandato como primeiro presidente negro da África do Sul, escolhendo permanecer nas mentes e corações de seu povo como um símbolo, é a pessoa, em todo o mundo, que melhor simboliza a vida que escolhi para viver. Explico: Além de todas as minhas características que acabo de citar acima, sou, também, cega, como alguns dos possíveis leitores desta crônica sabem. Assim, para nós, cegos, é absolutamente inconcebível que uma pessoa primordialmente boa, reta, íntegra como Mandela, tenha pago com 27 anos de sua vida pelo sonho de um país em que as pessoas não sejam classificadas pela cor de sua pele. Para nós, cegos, a cor da pele de alguém, claro, não importa, mas, como se diz por aí, nosso buraco é ainda mais embaixo. Não só a cor da pele não nos importa, como, para nós, ela, real e virtualmente, NÃO EXISTE! Para nós, pele é pele, e pronto! O resto é conversa-mole, perda-de-tempo. Para nós a cor da pele de outra pessoa é uma ridícula convenção visual, vazia, absurda e sem nenhum sentido. Não só não admitimos que uma pessoa seja classificada pela cor de sua pele, como, primordialmente, não entendemos isso. E como não entendemos, também nem sequer aceitamos a existência dessa possibilidade; e pronto! Tenho dito. Que ninguém perca tempo tentando nos convencer de uma idiotice como essas; não importa quais sejam os argumentos; essa pessoa de raciocínio limitado, que vier nos falar de ideias tais, vai passar a vida toda dando murros em pontas de faca, porque para esse tipo de classificação imbecil, nossos ouvidos, alardeados como muito finos, são prazerosamente surdos. E antes que me esqueça: se eu um dia vier a enxergar e passar a me importar com esse tipo de ridicularismo, prefiro que a visão me seja novamente tirada ou que eu nunca venha a tê-la, porque isso seria prova imensa de falta de merecimento. A própria Bíblia diz: “Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti/Pois te é melhor que se perca um dos teus membros/Do que seja todo o teu corpo lançado no inferno”. (Mateus, 5-29). Tivessem as pessoas consciência do mal que seus julgamentos tolos, aparentes e levianos fazem, muito do sofrimento de Mandela poderia ter sido evitado. E digo tudo isso aqui, no Brasil, para que ninguém se engane. As mesmas tensões sociais retratadas por Coetzee também nos assolam no Brasil, ainda que de maneira velada. Vamos acabar de uma vez por todas com isso, vergonha das vergonhas! Muitos não admitem, mas, infelizmente, precisaríamos também, aqui, de um Nelson Mandela. Madiba, enterrado em 15 de dezembro, foi uma dessas pessoas iluminadas que o céu manda ao mundo de quando em quando; como o Dalai Lama, Mahatma Gandhi – que inspirou o próprio Mandela-, a princesa Diana de Gales, Madre Teresa de Calcutá, os Papas João Paulo II e Francisco, Chico Xavier... Para mim, o legado de Mandela que fica, além da não importância da cor da pele, é a grande importância do perdão que ele concedeu aos que o aprisionaram, abandonando rancor e vingança ao sair da cadeia e pregando igualdade social, e a fé firme em um mundo melhor. É engraçado, mas sinto um vazio por não tê-lo conhecido e por saber, agora, que isso jamais será possível neste mundo. Mas alegra-me saber que existiu, um dia, uma pessoa que entendeu a Fraternidade Universal da mesma forma como eu a concebo e sinto; e essa pessoa foi Nelson Mandela! O que vou dizer é muito pouco, mas também é tudo o que palavras humanas podem expressar: “Obrigada, Madiba! Que o senhor encontre a luz, o descanso e a paz! E que eu possa conhecê-lo na eternidade um dia, com sua estatura alta e seu sorriso sempre largo; essa mesma eternidade em que todos são irmãos, se dão as mãos e confraternizam! Até um dia, Madiba”! “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”. (Nelson Mandela – 1918-2013).
domingo, 15 de dezembro de 2013
Amandlha Aweto!
No último dia 05 de dezembro, o mundo ficou muito, mas muito mais pobre. E não falo dessa pobreza material, aparente, que assola a tantos. Infelizmente, disso todo mundo já sabia; que muitos viventes são pobres. Falo de outra pobreza, ainda pior, porque irremediável. Nosso mundo ficou muito mais pobre de referências, porque Nelson Mandela passou. Não morreu, porque mitos como ele jamais morrem, mas passou.
Mito sim, porque, negro, ousou erguer a voz em um país comandado por uma numericamente insignificante minoria branca, que oprimia mais de 80% da população negra pelo regime segregacionista institucionalizado do apartheid, negando aos negros o direito ao voto, instalando-os em bairros e escolas separadas, proibindo os casamentos ditos interraciais ou mistos e sugando-os dia a dia, para que proporcionassem aos poucos brancos uma vida confortável, quase europeia, no Sul do continente africano.
Por desejar esse ideal, de um país com democracia igualitária, Mandela, condenado à prisão perpétua pelo regime do apartheid como preso político, pagou com 27 anos de sua vida. Contudo, ainda assim, revelou-se um grande líder, carismático ao extremo e engenhoso negociador, pois só aceitou deixar a cadeia quando a igualdade dos negros aos brancos estava também institucionalmente garantida, com a certeza de eleições livres e multirraciais para logo.
Unificada a África do Sul, Mandela fez confraternizar seu país por meio do Rugby, esporte originalmente branco e pelo pai da nova África do Sul tornado multirracial, como pode ser acompanhado assistindo-se ao filme Invictus, dirigido por Clint Eastwood. Hoje, os problemas políticos, de corrupção e má distribuição de renda que a África do Sul tem são em muito semelhantes àqueles que temos aqui no Brasil. Mas a institucionalização da segregação racial está banida, e este é o grande legado de Mandela, ou Madiba, como é conhecido. Em sua etnia, este é o nome dado aos sábios que se fazem respeitar não pelo autoritarismo, mas pelo longo conhecimento que possuem.
Infelizmente, e como não poderia deixar de ser, a atuação política, social e pessoal de Madiba renovou a autoestima dos africanos do Sul como um todo, mas não tornou este país no melhor dos mundos. As tensões sociais legadas por mais de 300 anos de implacável domínio branco sobre outros grupos étnicos, prioritariamente negros, deixaram suas profundas cicatrizes, como pode ser percebido na leitura de Desonra, livro do prêmio Nobel de Literatura sul-africano J. M. Coetzee. Na trama, é constante a presença do “aturar-se” entre negros e brancos, na cobrança de dívidas seculares e na exposição de chagas sociais profundas ainda abertas, mesmo no regime pós-Mandela. Ainda faltou um pouco para que se aprendesse o significado da saudação que Madiba dirigia ao povo depois de deixar a cadeia, e que entitula esta crônica. “Amandlha aweto”, sendo a primeira palavra evocação de Mandela a seu povo e a outra resposta do povo a seu novo líder, ambas em auto e bom som, significa “Poder ao povo”. Aprender a administrar esta máxima sem as tensões sociais que perturbam a nova África do Sul de todos os grupos é tarefa para os sul-africanos do futuro.
E por que eu, Yara, Branca, brasileira, nascida pouco antes de Madiba ser libertado, estou escrevendo tudo isso? Porque Madiba, que deixou o poder ao fim de seu primeiro mandato como primeiro presidente negro da África do Sul, escolhendo permanecer nas mentes e corações de seu povo como um símbolo, é a pessoa, em todo o mundo, que melhor simboliza a vida que escolhi para viver. Explico:
Além de todas as minhas características que acabo de citar acima, sou, também, cega, como alguns dos possíveis leitores desta crônica sabem. Assim, para nós, cegos, é absolutamente inconcebível que uma pessoa primordialmente boa, reta, íntegra como Mandela, tenha pago com 27 anos de sua vida pelo sonho de um país em que as pessoas não sejam classificadas pela cor de sua pele. Para nós, cegos, a cor da pele de alguém, claro, não importa, mas, como se diz por aí, nosso buraco é ainda mais embaixo. Não só a cor da pele não nos importa, como, para nós, ela, real e virtualmente, NÃO EXISTE! Para nós, pele é pele, e pronto! O resto é conversa-mole, perda-de-tempo. Para nós a cor da pele de outra pessoa é uma ridícula convenção visual, vazia, absurda e sem nenhum sentido. Não só não admitimos que uma pessoa seja classificada pela cor de sua pele, como, primordialmente, não entendemos isso. E como não entendemos, também nem sequer aceitamos a existência dessa possibilidade; e pronto! Tenho dito. Que ninguém perca tempo tentando nos convencer de uma idiotice como essas; não importa quais sejam os argumentos; essa pessoa de raciocínio limitado, que vier nos falar de ideias tais, vai passar a vida toda dando murros em pontas de faca, porque para esse tipo de classificação imbecil, nossos ouvidos são prazerosamente surdos.
E digo tudo isso aqui, no Brasil, para que ninguém se engane. As mesmas tensões sociais retratadas por Coetzee também nos assolam no Brasil, ainda que de maneira velada. Vamos acabar de uma vez por todas com isso, vergonha das vergonhas! Muitos não admitem, mas, infelizmente, precisaríamos também, aqui, de um Nelson Mandela.
Madiba, enterrado hoje (15 de dezembro), foi uma dessas pessoas iluminadas que o céu manda ao mundo de quando em quando; como o Dalai Lama, Mahatma Gandhi – que inspirou o próprio Mandela-, a princesa Diana de Gales, Madre Teresa de Calcutá, o Papa Francisco... Para mim, o legado de Mandela que fica, além da não importância da cor da pele, é a grande importância do perdão que ele concedeu aos que o aprisionaram, abandonando rancor e vingança ao sair da cadeia e pregando igualdade social, e a fé firme em um mundo melhor. É engraçado, mas sinto um vazio por não tê-lo conhecido e por saber, agora, que isso jamais será possível neste mundo. Mas alegra-me saber que existiu, um dia, uma pessoa que entendeu a Fraternidade Universal da mesma forma como eu a concebo e sinto; e essa pessoa foi Nelson Mandela! O que vou dizer é muito pouco, mas também é tudo o que palavras humanas podem expressar: “Obrigada, Madiba! Que o senhor encontre a luz, o descanso e a paz! E que eu possa conhecê-lo na eternidade um dia, com sua estatura alta e seu sorriso sempre largo; essa mesma eternidade em que todos são irmãos, se dão as mãos e confraternizam! Até um dia, Madiba”!
sábado, 30 de novembro de 2013
03 de Dezembro - Dia Internacional de Luta das Pessoas com Deficiência
No dia 03 de dezembro recorda-se o Dia Internacional de Luta das Pessoas com Deficiência. Pensando nisso, separei dicas de vários sites e lugares, relativas aos mais variados tipos de deficiências e divido-as com vocês hoje, neste espaço, agradecendo muito aos amigos que as cederam. O post é longo, mas penso que vale muito a pena!
No Brasil há, aproximadamente, 24 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência.
Há seis tipos de barreiras que excluem esse grande contingente de brasileiros da vida normal em sociedade em nosso país:
Barreira Arquitetônica não permite a acessibilidade das pessoas com deficiência, em razão de lhes oferecer dificuldades de locomoção. (ex: escada).
Barreira Comunicacional: a linguagem verbal ou visual utilizada não alcança todas as pessoas com deficiência.
Barreira Atitudinal: ocorre quando há atitudes preconceituosas por parte da sociedade dita “normal” em relação às pessoas com deficiência.
Barreira Metodológica: são métodos de ensino, trabalho e lazer que não respeitam as necessidades individuais das pessoas com deficiência.
Barreira Instrumental: se dá quando os instrumentos utilizados para trabalhar ou brincar não observam as condições mínimas exigidas, de acordo com as limitações das pessoas com deficiência.
Barreira Programática: são leis, portarias, regulamentos e políticas que perpetuam a exclusão social das pessoas com deficiência.
Enquanto a sociedade não remover essas barreiras, as pessoas com deficiência continuarão excluídas.
Dicas Gerais de convivência com pessoas com deficiência:
1. é Errado: Evitar falar com as pessoas com deficiência sobre coisas que uma pessoa normal pode fazer e elas não.
2. É Certo: Conversar normalmente com as pessoas com deficiência, falando sobre todos os assuntos, pois é bom para elas saberem mesmo das coisas que não podem ouvir, ver ou participar por causa da limitação sensorial ou de movimentos.
3. É Errado: Elogiar ou depreciar uma pessoa com deficiência, somente por ela ter limitações.
4. É Certo: Tratar a pessoa com deficiência como alguém com limitações específicas da deficiência, porém com as mesmas qualidades e defeitos de qualquer ser humano.
5. é Errado: Superproteger a pessoa com deficiência, fazendo coisas por ela que não precisam nem devem ser feitas, se ela tiver condições de fazê-la sozinha. é
Certo: Permitir que a pessoa com deficiência desenvolva ao máximo suas potencialidades, ajudando-a apenas quando for realmente necessário.
6. É Certo: Chamar a pessoa com deficiência pelo nome, como se faz com qualquer outra pessoa.
7. é Errado: Referir-se à deficiência da pessoa como uma desgraça, como algo que mereça piedade e vá ser compensado no céu. É Certo: Falar da deficiência como um problema, entre outros, que apenas limita a vida em certos aspectos específicos.
8. É Errado: Demonstrar pena da pessoa com deficiência ou dar-lhe esmolas. Lembre-se que, hoje em dia, muitas pessoas com deficiência trabalham, consomem, vivem exatamente como você e estão tão aptas para isso quanto você, e o objetivo é que seja assim com todas as pessoas com deficiência. É Certo: Tratar a pessoa com deficiência como alguém capaz de participar da vida em todos os sentidos, pois é assim que essas coisas se dão.
9. É Errado: Usar adjetivos como "maravilhoso", "fantástico" etc., cada vez que se vê uma pessoa com deficiência fazendo algo que aparentemente não conseguiria (por exemplo, ver o cego discar o telefone ou ver as horas, ver um surdo falar e/ou compreender o que lhe falam). É Certo: Conscientizar-se de que a pessoa com deficiência desenvolve estratégias diárias para superar normalmente os obstáculos, não mostrando espanto diante de um fato que é comum para ela.
10. É Errado: Referir-se às habilidades de uma pessoa com deficiência como "sexto sentido" (no caso do cego e surdo, por exemplo) ou como uma "compensação da natureza". É Certo: Encarar como decorrência normal da deficiência o desenvolvimento de habilidades que possam parecer extraordinárias para uma pessoa comum.
11. É Errado: Evitar usar as palavras ver, ouvir, andar, etc., diante de pessoas que sejam cegas, surdas ou privadas de movimentos. É Certo: Conversar normalmente com as pessoas com deficiência, para que não se sintam diferenciadas por perceptível constrangimento no falar do interlocutor.
12. É Errado: Deixar de oferecer ajuda a uma pessoa com deficiência em qualquer situação (por exemplo, cego atravessando a rua, pessoa de muleta subindo no ónibus etc.), mesmo que às vezes uma pessoa com deficiência interprete isto como gesto de piedade. A maioria das pessoas com deficiência necessita de ajuda em diversas situações. É Certo: Ajudar a pessoa com deficiência sempre que for realmente necessário, sem generalizar quaisquer experiências desagradáveis, atribuindo-as somente a pessoas com deficiência, pois podem acontecer também com as pessoas normais.
13. É Errado: Supervalorizar a pessoa com deficiência, achando que ela pode resolver qualquer problema sozinha (por exemplo, o cego alcançar qualquer porta apenas contando os passos, sem que alguém indique a direção). É Certo: Conscientizar-se de que as limitações de uma pessoa com deficiência são reais, e muitas vezes ela precisa de auxílio, como qualquer outra pessoa.
14. É Errado: Recusar a ajuda oferecida por uma pessoa com deficiência, em qualquer situação ou tarefa, por acreditar que ela não seja capaz de realizá-la. É Certo: Confiar na pessoa com deficiência, acreditando que ela só lhe oferecerá ajuda se estiver segura de poder fazer aquilo a que se propõe. A pessoa com deficiência conhece melhor do que ninguém suas limitações e capacidades.
15. É Errado: Segurar a pessoa com deficiência, na tentativa de ajudá-la, quando já houver uma pessoa orientando-a, principalmente no caso do cego. É Certo: Quando houver necessidade de ajuda ou orientação, apenas uma pessoa deve tocar a pessoa com deficiência, a não ser em situações muito específicas, que peçam mais ajuda (por exemplo, carregar uma cadeira de rodas para subir uma escada).
16. É Errado: Carregar a pessoa com deficiência, principalmente o cego, ajudá-lo a atravessar a rua, tomar condução, subir ou descer escadas sem que haja necessidade. É Certo: Auxiliar a pessoa com deficiência nestas situações apenas até o ponto em que realmente seja necessário, para evitar atrapalhá-la mais.
17. É Errado: Tratar a pessoa com deficiência com constrangimento, evitando falar sobre sua deficiência. É Certo: Conversar naturalmente com a pessoa com deficiência sobre sua deficiência, evitando porém perguntas em excesso. Na maioria dos casos, ela preferirá falar normalmente sobre aquilo que é apenas parte de sua vida, e não uma coisa anormal ou extraordinária, como possa parecer ao interlocutor.
18. É Errado: Avançar subitamente sobre a pessoa com deficiência por achar que ela não vai conseguir realizar uma tarefa (por exemplo, quando o cego está levando o garfo à boca), se a pessoa com deficiência não solicitar ajuda. É Certo: Permitir que a pessoa com deficiência realize sozinha suas tarefas, mesmo quando lhe pareça impossível. Só se deve socorrê-la em caso de perigo.
Deficiência Visual – Como Lidar:
– Cadeira no lugar: Quando você se levantar de uma cadeira, coloque-a no mesmo lugar em que ela estava, afinal, apesar de elas possuírem pernas, não andam sozinhas e não vão sair da frente se um cego estiver indo ao seu encontro. Será acidente na certa e o tombo valerá alguns hematomas e futuras gargalhadas.
– Luz acesa ou apagada?: Para um cego total pouco importa se a luz está acesa ou apagada, então não se preocupe em sair correndo à sua frente somente para acender a luz quando ele estiver se dirigindo a um outro espaço da casa. Esta sua corrida pode gerar um tombo e a pessoa com deficiência visual não vai entender nada do que aconteceu, ficando com cara de “UÉ”, isto tinha a ver comigo? No entanto, não estranhe se um cego lhe perguntar pelo interruptor; ele pode querer acender a luz para as outras pessoas.
– Copos de vidro: Procure utilizar copos de vidro e, de preferência, pesados, porque um cego procura um copo passando a mão, “de leve”, sobre a mesa para encontrá-lo, e se o recipiente for de plástico ou de vidro leve, quando sua mão bater no copo, certamente este virará. Novo acidente à vista e desta vez com consequências indiretas para a toalha de mesa ou o tapete da sala de jantar, que nada tinham a ver com a situação.
– Feche as gavetas: Fechar gavetas e portas de armários não quebra a mão de ninguém, porém acidentes podem acontecer se um cego estiver andando e bater a perna nelas. Outro acidente iminente à vista...
Então procure jamais esquecer de fechá-las, pois, dessa maneira, os seus antepassados nunca serão lembrados pela pessoa com deficiência visual em movimento.
Outras dicas importantes:
Se você andar com uma pessoa cega ou for ajudá-la a tomar uma condução ou atravessar a rua, pergunte-lhe antes se ela quer ajuda. Em caso afirmativo, deixe apenas que ela segure seu braço e conduza-a sempre em linha reta; não a empurre ou puxe, nem segure a ponta de sua bengala para orientá-la. O movimento do corpo do guia lhe dirá o que fazer. Dê as direções do modo mais claro possível; nunca se esqueça de que a sua esquerda é sempre a direita dela e vice-versa, a não ser que estejam ambos do mesmo lado. Use termos como "cima", "baixo", "à frente", "atrás" etc., para que ela possa se localizar melhor. Ao orientar a pessoa cega, nunca use termos como "ali", "lá", "isso", "aquilo" etc., tanto para dar direções, uanto em contextos escolares, de trabalho e outros, pois ela não está vendo os gestos de mãos e olhos que você está fazendo. Em passagens estreitas, apenas tome a frente e deixe-a segui-lo, colocando o braço que ela deve segurar para trás. Dessa forma, ela pisará somente onde você pisar, caminhando com segurança. Não bata a porta do automóvel onde haja uma pessoa cega sem ter a certeza de que você não vai prender os dedos dela; do contrário, você pode causar à pessoa cega um grande dano, já que os olhos do cego estão em suas mãos, mais precisamente nas pontas dos dedos.
Se estiver com ela durante a refeição, pergunte-lhe se quer auxílio para cortar os alimentos ou servir-se, e explique-lhe a posição dos alimentos no prato, a localização do copo, guardanapos, talheres etc. nunca encha até a boca os copos ou xícaras que serão dados à pessoa cega, pois ela terá dificuldade em mantê-los equilibrados sem entornar o líquido.
Identifique-se sempre ao aproximar-se de uma pessoa cega. Nunca utilize brincadeiras como o tão comum "--Adivinha quem é?". É muito constrangedor para o cego quando ele não sabe ou não pode dar a resposta desejada, ou quando erra essa resposta tentando acertar. Quando afastar-se, avise-o, para que ele não fique falando sozinho, pois essa é uma situação desagradável para qualquer pessoa.
Se você for orientar uma pessoa cega a sentar-se, apenas coloque a mão dela sobre o braço ou o encosto da cadeira, e ela será perfeitamente capaz de fazer o resto.
Se for orientá-la a subir ou descer uma escada, somente coloque a mão dela sobre o corrimão, e ela também será capaz de subir ou descer com facilidade. Jamais acaricie um cão-guia, afinal, ele não é um mero cão de companhia. Está trabalhando e não deve, sob nenhuma hipótese, ser distraído de seu dever. Todos sabemos que ninguém gosta de ser desconcentrado de suas atividades quando está trabalhando.
Se você observar aspectos inadequados quanto à aparência ou vestuário de uma pessoa cega, não exite em avisá-la discretamente sobre meias trocadas, roupas pelo avesso, zíper aberto, movimentos ou posturas socialmente inadequadas.
Nunca deixe portas e janelas entreabertas; prefira-as sempre totalmente abertas ou completamente fechadas, caso contrário a pessoa cega poderá se machucar ao colidir com elas. Se a mobília ou objetos forem mudados de lugar, a pessoa cega deverá ser sempre avisada, também a fim de evitar futuras colisões e não fazê-la procurar coisas inutilmente, sem poder encontrar.
Se você for a um lugar desconhecido para a pessoa cega, diga-lhe discretamente como as coisas estão distribuídas no ambiente e quais as pessoas presentes. Se estiverem numa festa, certifique-se de que ela encontrou pessoas para conversar, de modo que se divirta tanto quanto você. Se você for apresentá-la a alguém, faça com que ela fique de frente para a pessoa apresentada,impedindo-a de estender a mão para o lado contrário ao qual essa pessoa se encontra.
Nunca deixe de apertar a mão de uma pessoa cega ao encontrá-la ou despedir-se dela, pois, para ela, o aperto de mão substitui o sorriso; no entanto, tenha sempre o cuidado de ser você o primeiro a oferecer a mão ou o rosto para os cumprimentos. Não a deixe procurando por uma mão ou um rosto que ela não sabe exatamente onde encontrar. Isso é muito embaraçoso!
Se você conversar com a pessoa cega, fale sempre diretamente com ela, e não com seu acompanhante, e nunca grite! Ela pode compreendê-lo perfeitamente bem e ouvir tão bem ou melhor do que você. Não evite palavras como "ver", "olhar", "cego" etc., pois a pessoa cega também as usa normalmente.
As pessoas cegas são iguais a você:estão sempre interessadas no que você gosta de ver, ler, ouvir, falar, jogar etc.. Trate-as como você trataria normalmente qualquer pessoa; não as superproteja, impedindo-as de fazer o que sabem, podem e devem fazer sozinhas. Esse comportamento só irá limitá-las mais do que a própria cegueira o faz.
Não se refira à cegueira como uma desgraça, pois, se o cego aceitar sua condição, ele certamente poderá superá-la e torná-la parte integrante de sua vida, como o são a família, o trabalho, os amigos etc.. Nunca diga que tem pena da pessoa cega; essas são palavras que ninguém precisa, nem gosta de ouvir. Tudo o que o cego deseja é ser tratado exatamente da mesma forma como são habitualmente tratadas todas as pessoas.
Não tenha constrangimento em receber ajuda, admitir colaboração, ou aceitar gentilezas por parte de uma pessoa cega. Ela se sentirá muito bem em poder inverter os papéis e auxiliá-lo quando você precisar!
Você Sabia?!
-Uma moça cega pode se maquiar sozinha (maquiagem básica).
-um cego pode andar de bicicleta em lugares sem trânsito.
-um cego pode trocar o pneu de um carro.
-uma pessoa cega pode fazer crochê e outros trabalhos artesanais com perfeição.
-um cego pode fazer uma instalação elétrica simples.
-um cego pode usar o computador.
-um cego pode dar aula.
-um cego pode enfiar uma linha numa agulha.
-um cego pode jogar futebol.
-um cego pode ler com a ponta dos dedos.
Deficiência Auditiva – Como Lidar:
Não gritar;
Posicionar-se em frente à pessoa;
Fazer com que a boca esteja bem visível. Gesticular ou segurar algo em frente à boca torna impossível a leitura labial. Usar bigode também atrapalha.
Evitar ficar contra a luz (de uma janela, por exemplo), pois isso dificulta a visão do rosto do interlocutor.
Eliminar ruídos de fundo;
Usar vocabulário simples e frases claras.
Para chamar sua atenção, abane as mãos no campo visual do surdo e/ou toque a pessoa gentilmente;
Feito o contato visual, olhos nos olhos, fale calmamente, em tom de voz normal, articulando bem as palavras, sem exagerar;
Não gritar para chamar a atenção de uma pessoa surda que esteja em perigo. Procure chegar até ela o mais rapidamente possível, tentando ajudá-la. Lembre-se que uma pessoa que atravessa a rua pode ser surda, estando, por isso, impossibilitada de ouvir a buzina de seu carro.
Utilize a comunicação visual. Se você sabe poucos sinais, use-os! Não se envergonhe de apontar, desenhar, escrever ou dramatizar.
Seja expressivo ao falar.
Quando o surdo estiver acompanhado de um intérprete, dirija-se ao próprio surdo, não ao intérprete.
Não chame a atenção para o aparelho de surdez. Estimule o uso do aparelho, encarando-o com a mesma naturalidade com que são vistos os óculos.
Em nenhuma hipótese interfira no trabalho do intérprete, por mais que você se considere capaz em Língua de Sinais;
A Libras (Língua Brasileira de Sinais) é uma língua reconhecida pela Lei nº 10.436, de 24/04/2002, regulamentada pelo Decreto 5.626, de 22/12/2005;
Nem todo surdo fala Libras;
Não utilize o termo surdo-mudo, pois ser surdo não significa, necessariamente, não saber falar. O acompanhamento constante do intérprete de Libras nas aulas é essencial para o aluno surdo sinalizado. A implementação de legendas em vídeos e em tempo real em palestras e seminários e a distribuição de apostilas da matéria com texto explicativo equivalente ás dicas do professor passadas em aulas seriam de grande ajuda para os alunos surdos oralizados, que dependem em demasia da leitura orofacial e da língua portuguesa escrita. Os surdos oralizados também poderiam ter acompanhamento de intérpretes oralistas ou copistas, ou até de profissionais estenotipistas, mas são raros de encontrar e, precisamente no Brasil, tais profissionais não são regulares, porque não estão previstos especificamente na Lei, como o intérprete de Libras.
Deficiência física – Como Lidar:
o Para uma pessoa sentada em cadeira de rodas, é desconfortável ficar olhando para cima por muito tempo. Portanto, se a conversa for demorar mais do que alguns minutos e se for possível, sente-se, para que você e ela fiquem com os olhos no mesmo nível;
o
o A cadeira de rodas (assim como a bengala e a muleta) é considerada parte do espaço corporal da pessoa, quase uma extensão do seu corpo. Agarrar ou apoiar-se na cadeira de rodas é como agarrar ou apoiar-se na própria pessoa. Isso, muitas vezes, é simpático, “se você, por exemplo,”, for bem amigo, mas não deve ser feito se vocês não se conhecem tão bem; agarrar uma cadeira de rodas ou aparelho ortopédico é uma atitude tão agressiva quanto agarrar sem aviso o braço de uma pessoa com todos os sentidos em ação. Evite pendurar bolsas, casacos ou sacolas sem a permissão do cadeirante.
o
o Não movimente a cadeira de rodas sem antes pedir orientação para a pessoa;
o
o Empurrar uma pessoa em cadeira de rodas não é como empurrar um carrinho de supermercado. Quando estiver empurrando uma pessoa sentada numa cadeira de rodas e parar para conversar com alguém, lembre-se de virar a cadeira de frente, para que a pessoa sentada também possa participar da conversa;
o
o Ao empurrar uma pessoa em cadeira de rodas, faça-o com cuidado. Preste atenção para não bater nas pessoas que caminham à frente ou esbarrar no móvel ou parede.
o
o Para subir degraus, incline a cadeira para trás, levante as rodinhas da frente e apóie sobre o degrau.
o
o Para descer um degrau, é mais seguro fazê-lo de marcha à ré, sempre apoiando para que a descida seja sem solavancos.
o
o Para subir ou descer mais de um degrau em seqüência, será melhor pedir a ajuda de mais uma pessoa;
o
o Se você estiver acompanhando uma pessoa com deficiência que anda devagar, com auxílio ou não de aparelhos ou bengalas, procure acompanhar o ritmo de seus passos e tome cuidado para não esbarrar em seus equipamentos.
o
o Mantenha as muletas, andador ou bengala, sempre próximos à pessoa com deficiência;
o
o Se achar que ela está em dificuldades, ofereça ajuda. Caso seja aceita, pergunte como deve fazê-lo. Às vezes, uma tentativa de ajuda inadequada pode até mesmo atrapalhar. Outras vezes, a ajuda é essencial. Pergunte e saberá como agir. Não se ofenda se a ajuda for recusada;
o
o Se você presenciar um tombo de uma pessoa com deficiência, ofereça ajuda imediatamente. Mas nunca ajude sem perguntar como deve fazer;
o
o Esteja atento para a existência de barreiras arquitetônicas quando for escolher uma casa, restaurante, teatro ou qualquer outro local que queira visitar com uma pessoa com deficiência física;
o
o A pessoa com paralisia cerebral pode ter dificuldades para andar, pode fazer movimentos involuntários com pernas e braços e pode apresentar expressões estranhas no rosto. Não se intimide com isso. São pessoas comuns como você. Geralmente, têm inteligência normal ou, às vezes, até acima da média;
o
o Se a pessoa tiver dificuldade na fala e você não compreender imediatamente o que ela está dizendo, peça para que repita. Pessoas com dificuldades desse tipo não se incomodam de repetir quantas vezes sejam necessárias para que se façam entender;
o
o Não se acanhe em usar palavras como "andar" e "correr". As pessoas com deficiência física empregam naturalmente essas mesmas palavras;
o
o Relacione-se com a pessoa com deficiência física com amor, consideração e respeito, acreditando em seu potencial.
Deficiência Intelectual – Como Lidar:
A Deficiência Intelectual não é uma doença, mas uma limitação. A pessoa com Deficiência Intelectual deve receber acompanhamento médico e estímulos, através de trabalhos terapêuticos com psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais.
De forma geral, a pessoa com Deficiência Intelectual tem, como qualquer outra, dificuldades e potencialidades. Seu acompanhamento consiste em reforçar e favorecer o desenvolvimento destas potencialidades e proporcionar o apoio necessário às suas dificuldades, garantindo seu bem-estar e inclusão na sociedade.
A inclusão é um instrumento extremamente importante na determinação da qualidade de vida dessa pessoa, pois permite o acesso a todos os recursos da comunidade, que favorecerão o seu desenvolvimento global, reforçarão a sua autonomia e ajudarão a construir a sua cidadania.
Como qualquer um de nós, a pessoa com Deficiência Intelectual percebe tudo o que se passa ao seu redor.
Pessoas com deficiência intelectual ou cognitiva costumam apresentar dificuldades para resolver problemas, compreender ideias abstratas, estabelecer relações sociais, compreender e obedecer a regras, e realizar atividades cotidianas - como, por exemplo, as ações de
autocuidado.
As causas são variadas e complexas, sendo a genética a mais comum, assim como as complicações perinatais, a má-formação fetal ou problemas durante a gravidez. A desnutrição severa e o envenenamento por metais pesados durante a infância também podem acarretar problemas graves para o desenvolvimento intelectual, apresentando algumas das seguintes situações:
Síndrome de Down;
Síndrome do X-Frágil;
Síndrome do Cri du chat (miado do gato);
Síndrome de Prader-Willi;
Síndrome de Angelman;
Erros Inatos de Metabolismo (Fenilcetonúria, Hipotireoidismo congênito, etc.).
Deficiência Múltipla – Como Lidar:
A deficiência múltipla é a associação de duas ou mais deficiências: física, visual, auditiva ou intelectual.
Respeite as limitações da pessoa com deficiência múltipla, valorize suas potencialidades, seja natural e evite superproteção.
sábado, 21 de setembro de 2013
Isso? Cego pode!
Cego pode:
Pular de pára-quedas;
Voar de asa delta;
Fotografar sozinho;
Dominar o computador e outras tecnologias por dentro e por fora;
Fazer faculdade e alcançar outras titulações;
Ser jornalista, professor, advogado e tudo mais que lhe der na telha;
Morar sozinho;
Cuidar da casa e dos filhos;
Ler muito;
Escrever beeem pra caramba;
Surfar;
Mergulhar;
Praticar um sem-número de esportes que você nem imagina;
Falar outros idiomas;
Andar sozinho a pé, de ônibus, de avião, de navio...;
Tocar piano, flauta, violão, bateria, cantar em coral... e sozinho também;
Dançar;
Participar de grupo de teatro;
Tudo isso como se enxergasse!
É só ter alguém com disposição de ensinar que ele aprende facinho facinho.
Mas se disserem que ele não pode, a persistência é tanta pra provar que pode que o resultado também chega.
Você sabia?
Não acredita?
Diz que ele não pode e você vai ver o resultado.
Oxalá chegue o dia em que não seja preciso provar nada a ninguém além de si mesmo!
E tenho dito.
P.S.: sei que faltaram muitas outras coisas que os cegos podem fazer. Se mais algum cego ou pessoa que convive cotidianamente quiser completar a lista nos comentários, esteja à vontade. Fui!
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