“Entre agua y aire brilla/el puente curvo/entre verde y azul las curvaturas/de cemento, dos senos y dos simas/con la unidad desnuda/ de una mujer o una fortaleza/sostenida por letras de hormigón/que escribe en las páginas del río”. (Pablo Neruda – 1904-1973). “Entre água e ar brilha/a ponte curva/entre verde e azul as curvaturas/de cimento, dois seios e dois abismos/com a unidade nua/de uma mulher ou uma fortaleza/sustentada por letras de concreto/que escreve nas páginas do rio”. (tradução livre, 11/10/2014).
A cidade uruguaia de Punta del Este, em sua origem, foi uma antiga vila de pescadores chamada Ituzaingó, vocábulo guarani que significa “cascata abundante”. Tratava-se de um porto pesqueiro, sendo também comum a caça aos leões marinhos.
Em momentos anteriores foi possível relatar alguma animosidade envolvendo uruguaios e argentinos, como, de certo modo, é natural entre países vizinhos que protagonizaram disputas historicamente. No entanto, em algumas oportunidades, no que diz respeito a impulsionar a economia por meio do turismo, a participação Argentina foi e é importante no Uruguai, como, por exemplo, no início do século XX, quando se fundou Piriápolis, conforme já narrado. No caso de Punta del Este não foi diferente. Nos anos 40 do século passado, também a presença dos argentinos teve um papel relevante na consolidação desta cidade como importante polo turístico uruguaio.
Atualmente Punta del Este, o balneário mais famoso do Uruguai, que figura entre os dez mais luxuosos do mundo e tem praias tanto fluviais - graças ao Rio da Prata - como oceânicas - já que é ali na Punta de Salinas que começa o Oceano Atlântico -, recebe cerca de dois milhões de turistas por ano, sendo este o seguimento econômico mais forte no local, o que faz dela uma cidade cara, onde se pode chegar a gastar, por exemplo, três vezes mais para comer do que normalmente no restante do país, inclusive na capital, Montevidéu. Na maioria das vezes, certamente, os turistas estão preparados para suportar esses gastos e o atendimento os compensa louvavelmente; contudo, trata-se de um aspecto que não pode deixar de ser destacado. A alta temporada na cidade, claro, acontece no verão, mas sempre há alguém curioso para conhecer a Praia Mansa e a Praia Brava. Passeando, além dos altos edifícios na parte central, se podem observar as casas de veraneio, limpas e bem cuidadas por caseiros e outras pessoas responsáveis pelos trabalhos domésticos, o que ajuda a garantir emprego aos moradores locais durante o restante do ano. Essas casas e mansões de veraneio do tamanho de quarteirões têm nomes e a maior parte delas não possui muros ou cercas. Curiosamente, a mais cara pertence a um empresário brasileiro e é hermeticamente fechada, o que não deixa de refletir a preocupação com a segurança, que tanto nos atormenta aqui no Brasil. A construção civil, assim, é também um setor econômico em alta em Punta, além do turismo; um setor que alavanca não apenas essa cidade, mas também suas cidades-satélites, onde os trabalhadores que executam as construções vêm residir.
Um projeto arquitetônico que acabou por tornar-se um frequentado ponto turístico do lugar são as pontes de La Barra, criadas pelo engenheiro civil uruguaio Lionel Viera (1913-1975) e inauguradas em 1965. Seu acentuado formato ondular, descrito no poema que inicia este texto, produz nos passageiros dos veículos uma sensação semelhante à que se tem em um desses brinquedos de parque de diversões. Por uma das pontes ondulares se vai, pela outra, ainda mais ondulada, se volta, com igual sensação, na direção contrária. Me lembrei de meu irmão, Thiago. Quando éramos pequenos e viajávamos de carro com os nossos avós, sempre pedíamos para o vô passar rápido pelas lombadas, pra gente sentir aquele friozinho na barriga... Foi assim, mas um pouco mais intenso, nas pontes de La Barra, em que alguns passageiros do ônibus emitiram gritinhos prazerosos, enquanto outros soltaram exclamações mais assustadas; lembrança doce.
O monumento símbolo de Punta del Este, além, certamente, do farol, que já caiu três vezes mas agora vai bem, obrigada, é uma escultura localizada na Praia Brava e conhecida como “Los Dedos”. Foi uma obra esculpida em apenas seis dias, pelo artista chileno Mario Irarrázabal (1940), que concorria a um concurso e o venceu com essa escultura. Alguns dizem que aquela mão simboliza o homem emergindo para a vida; outros garantem que o monumento retoma a prudência que se deve ter diante do mar. O que é possível afirmar realmente é que não se pode pensar em Punta del Este sem recordar a imagem daquela grande mão esculpida brotando da areia. É uma pena que, infelizmente, como aqui, também haja pichadores no Uruguai, e esses “artistas às avessas” se tenham encarregado de pichar até mesmo a mão que simboliza a cidade... Dizer o quê? Nada; mudar de assunto é melhor.
A maior parte dos turistas ficou maravilhada pela visão do requintado cassino Conrad. Eu, por meu turno, prefiro a emoção de passar pelas pontes ou a mão brotando da areia, que faz a gente se sentir tão pequeno ali, em pé, diante dela, sentindo a dureza firme do concreto, ouvindo o vento e a vastidão do mar. A arte sempre me faz pensar em quanta singularidade cabe nesse nosso “Mundo mundo vasto mundo”, que Drummond há tempos assinalou. Essa é a lembrança mais suave, e ao mesmo tempo forte e imediata, que trago e vou sempre levar de Punta. Toda a opulência restante, deixo para que a admirem aqueles que têm olhos de ver, assim como deixo também um conselho que tem muito a ver com o “carpe diem” dos antigos romanos: “Se podes olhar, vê; se podes ver, repara”. (José Saramago - 1922-2010).
domingo, 12 de outubro de 2014
domingo, 5 de outubro de 2014
Recuerdos Del Paisito: Casa Pueblo
"O Sol é meu amigo mais antigo”. Assim se expressou o pintor, ceramista, muralista, escultor, compositor, escritor, arquiteto, produtor de cinema e empresário uruguaio Carlos Páez Vilaró (1923-2014). Difícil é apresentar tanta versatilidade em pouco espaço. Ir à península de Punta Ballena é, obrigatoriamente, mergulhar na obra do genial Vilaró. Punta Ballena é o berço da Casa Pueblo, um complexo que inclui um museu e uma galeria de arte com as obras do artista, um hotel, um restaurante e um café. E o que mais impressiona é saber que Vilaró construiu Casa Pueblo com as próprias mãos e a ajuda de pescadores e demais moradores dos arredores.
Conforme nos aproximávamos de ônibus, me lembro que minha avó e Carol olhavam pela janela, observando incrédulas materializar-se diante de seus olhos a concretude da península, essa porção de terra cercada de água por três dos lados que elas tanto tinham desenhado para os alunos no quadro-negro por mais de trinta anos, mas que nunca antes haviam visto fora dos livros. Foi emocionante vê-las fazendo essa descoberta ali, diante de mim.
Quando chegamos à Casa Pueblo fazia aquele típico friozinho uruguaio, mas o sol, símbolo do lugar, marcava presença. Casa Pueblo é conhecida mundialmente como uma “escultura habitável”, assim denominada por seu criador e construtor. Segundo o próprio Vilaró: "construi-a como se tratasse de uma escultura habitável, sem planejar antecipadamente, seguindo principalmente o meu entusiasmo. Quando o governo municipal me pediu, há pouco tempo, a planta do projeto - que eu não tinha - um amigo arquiteto teve que passar um mês estudando a maneira de decifrá-la”. O casarão branco de arredondados traços mediterrâneos abriga e expõe as obras do artista por todos os cantos e levou 35 anos para ser construído – o início data de 1958. Quando Casa Pueblo começou a tornar-se labiríntica, Vilaró decidiu espalhar por ela placas com os nomes dos amigos, como se de ruas se tratasse. Um desses amigos foi o nosso poetinha, Vinicius de Moraes (1913-1980). Foi inspirado em Casa Pueblo e para as filhas de Vilaró que Vinicius compôs os célebres versos: “Era uma casa muito engraçada”... Alguns outros desses amigos famosos eram simplesmente Jorge Amado (1912-2001), Pablo Picasso (1881-1973) e Salvador Dali (1904-1989).
Não se pode deixar de destacar, infelizmente, que o acesso de pessoas com deficiências, principalmente motoras, não é fácil, bem como o dos idosos, dada a proliferação de degraus e escadas dispostos de forma não regular e a inexistência de corrimãos propriamente ditos, exceto em alguns trechos de caminho. No entanto, se houver oportunidade e meios, trata-se de um passeio imperdível.
Na obra de Vilaró como um todo ressalta-se fortemente o cotidiano, primeiro, dos afro-uruguaios, com destaque para o candombe, manifestação musical uruguaia já tratada em uma crônica anterior. O artista aprofundou posteriormente seus estudos sobre a cultura africana no Brasil e em outros países latino-americanos com forte presença afro-descendente, tais como o Haiti, bem como em países da própria África subsaariana. Outras temáticas recorrentes em sua obra são o sol – claro -, a lua, as mulheres.
É certo que todo artista produz rodeado e influenciado por aquilo que vivencia. No caso de Vilaró, essa ligação vida-arte é bastante estreita e notória. Se o sol simboliza Casa Pueblo e é seu amigo mais antigo, a lua recorda e retoma outro episódio marcante de sua vida pessoal. Em 1972 um de seus filhos, Carlos Miguel, integrava um time uruguaio de rugby, os Old Christians. O avião da Força Aérea Uruguaia que transportava o time chocou-se contra uma montanha entre o Chile e a Argentina, na Cordilheira dos Andes. Dos 45 passageiros, 16 sobreviveram, numa inacreditável e, por que não, milagrosa luta pela vida. Um desses sobreviventes era o filho de Vilaró, que o artista nunca desistiu de procurar, mesmo com as autoridades colocando em xeque a existência de sobreviventes depois de mais de dois meses nos inóspitos Andes. Essa procura incansável foi transformada por Vilaró em Livro: Entre Meu Filho E Eu, A Lua. A tocante foto do reencontro dos dois, que ilustra a capa, já é um forte indício de tudo quanto o livro encerra.
Todos os dias ao entardecer os turistas são presenteados com um poema em prosa escrito por Vilaró e declamado por sua voz calma e comovida, com a beleza e suavidade tranquila de seu sotaque uruguaio, que reverbera pelos auto-falantes enquanto o sol se põe em Casa Pueblo. ( http://www.youtube.com/watch?v=HDdKf4a9zcg ) A essa cerimônia não assisti, mas a leitura reveladora do poema dá uma breve ideia do espetáculo que dia após dia se desenrolou diante dos sensíveis olhos do artista e que continua a oferecer-se voluntariamente aos frequentadores vespertinos da Casa Pueblo. Despeço-me de vocês hoje deixando, além da declamação do poema pelo próprio Vilaró no link acima, logo abaixo, o poema original em espanhol e, imediatamente após, uma tradução livre que fiz, para ver se conseguia administrar o impacto de ter sido apresentada ao sol pela agudeza terna e singela de Carlos Páez Vilaró. Divirtam-se, deleitem-se, meditem.:
"CEREMONIA DEL SOL
Hola Sol …! Otra vez sin anunciarte llegas a visitarnos. Otra vez en tu larga caminata desde el comienzo de la vida. Hola Sol…! Con tu panza cargada de oro hirviendo para repartirlo generoso por villas y caseríos, capillas campesinas, valles, bosques, ríos o pueblitos olvidados. Hola Sol…! Nadie ignora que perteneces a todos, pero que prefieres dar tu calor a los más necesitados, los que precisan de tu luz para iluminar sus casitas de chapa, los que reciben de tí la energía para afrontar el trabajo, los que piden a Dios que nunca les faltes, para enriquecer sus plantíos, y lograr sus cosechas. Es que vos, Sol, sos el pan dorado de la mesa de los pobres. Desde mis terrazas te veo llegar cada tarde como un aro de fuego rodando a través de los años, puntual, infaltable, animando mi filosofía desde el día que soñé con levantar Casapueblo y puse entre las rocas mi primer ladrillo. Recuerdo que era un día inflamado de tormenta, el mar había sustituido el azul por un color grisáceo empavonado, en el horizonte un velero escorado afinaba el rumbo para saltear la tempestad, el cielo se llenaba de graznidos de cuervos en huida, la sierra se peinaba con la ventolera alborotando a la comadreja y al conejo. Pero de golpe como un anuncio sobrenatural el cielo se perforó y apareciste vos. Eras un sol nítido y redondo, perfecto y delineado, puesto sobre el escenario de mi iniciación con la fuerza sagrada de un vitreaux de iglesia. Desde ese instante sentí que Dios habitaba en ti, que en tu fragua derretía la fe y que por medio de tus rayos la transmitía por todos los sitios donde transitabas. Los mismos brazos de oro que al desperezarte iluminan el cielo, al estirarse a los costados entibian las sierras, o apuntando hacia abajo laminan el mar. Hola Sol…! Cómo me gustaría haber compartido tu largo trayecto regalando luz, porque a tu paso acariciaste la vida de mil pueblos, compartiste sus alegrías y tristezas, conociste la guerra y la paz, impulsaste la oración y el trabajo, acompañaste la libertad e hiciste menos dura la oscuridad de los presidios. A tu paso sol, se adormecen los lagartos, despiertan los girasoles y los gallos cacarean. Se relamen los gatos vagabundos, los perros guitarrean, y el topo se encandila al salir de la cueva. A tu paso sol, hay sudor en la frente del obrero y en los cuerpos de las mujeres cobrizas que alcanzan el cántaro de la favela. Con tus latidos conmueves el mar, das música a la siembra, la usina y el mercado. A tu paso corrieron en estampida búfalos y antílopes, desperezó el león, se asombró la jirafa, se deslizó la serpiente y voló la mariposa. A tu paso cantó la calandria, despegó el aguilucho, despertó el murciélago y emigró el albatros. Hola Sol…! Gracias por volver a animar mi vida de artista. Porque hiciste menos sola mi soledad. Es que me he acostumbrado a tu compañía y si no te tengo, te busco por donde quiera que estés. Por eso te reencontré en la Polinesia, cuando te coronaron rey de los archipiélagos de nácar y los arrecifes dentellados de coral, o también en Africa, cuando dabas impulso a sus revoluciones libertarias y te reflejabas en el espejo de sus escudos tribales para inyectarles coraje. Te estoy mirando y veo que no has cambiado, que sos el mismo sol que reverenciaron los aztecas, el mismo de mi peregrinaje pintando por América, el que envolvió la Amazonia misteriosa y secreta, el que me alumbró los caminos al Machupichu sagrado del Perú, el de los valles patagónicos o los territorios del Sioux o del comanche. El mismo sol que me llevó a Borneo, Sumatra, Bali, las islas musicales o los quemantes arenales del Sahara. A diferencia del relámpago que apenas proyecta en la noche latigazos de luz, desde tu reinado planetario, tus destellos continúan activos, permanentes. Alguna vez la travesura de las nubes oculta tu esplendor, pero cuando ello ocurre, sabemos que estás ahí, jugando a las escondidas. Otras veces, en cambio, te vemos sonreír cuando las golondrinas o las gaviotas te usan de papel para escribir las frases de su vuelo. Gracias Sol, por invadir la intimidad de mi atardecer y zambullirte en mis aguas. Ahora serás la luz de los peces y su secreto universo submarino. También de los fantasmas que habitan en el vientre de los barcos hundidos en trágicos naufragios. Gracias Sol…! Por regalarnos esta ceremonia amarilla. Gracias por dejar mis paredes blancas impregnadas de tu fosforescencia. Entre ventoleras y borrascas, cruzando ciclones y tempestades, lluvias o tornados, pudiste llegar hasta aquí para irte silenciosamente frente a nuestros ojos. Porque tu misión es partir a iluminar otros sitios. Labradores, estibadores, pescadores te esperan en otras regiones donde la noche desaparecerá con tu llegada. Y como respondiendo a un timbre mágico despertarás las ciudades, irás junto a los niños a la escuela, pondrás en vuelo la felicidad de los pájaros, llamarás a misa. A tu llegada, se animará el andamio con sus obreros, cantarán los pregoneros en las ferias, la orilla del río se llenará de lavanderas y entrará la alegría por la banderola de los hospitales. Chau Sol…! Cuando en un instante te vayas del todo, morirá la tarde. La nostalgia se apoderará de mí y la oscuridad entrará en Casapueblo. La oscuridad, con su apetito insaciable penetrando por debajo de mis puertas, a través de las ventanas o por cuanta rendija encuentre para filtrarse en mi atelier, abriéndole cancha a las mariposas nocturnas. Chau Sol…! Te quiero mucho! Cuando era niño quería alcanzarte con mi barrilete. Ahora que soy viejo, sólo me resigno a saludarte mientras la tarde bosteza por tu boca de mimbre. Chau Sol…! Gracias por provocarnos una lágrima, al pensar que iluminaste también la vida de nuestros abuelos, de nuestros padres y la de todos los seres queridos que ya no están junto a nosotros, pero que te siguen disfrutando desde otra altura. Adiós Sol…! Mañana te espero otra vez. Casapueblo es tu casa, por eso todos la llaman la casa del sol. El sol de mi vida de artista. El sol de mi soledad. Es que me siento millonario en soles, que guardo en la alcancía del horizonte”.
(Carlos Páez Vilaró, Uruguai, 1923-2014)
“Cerimônia do Sol
Olá Sol! Outra vez sem anunciar-te chegas a visitar-nos. Outra vez em teu grande passeio desde o começo da vida. Olá Sol! Com teu ventre carregado de ouro fervente para reparti-lo generoso por vilas e casarios, capelas campesinas, vales, bosques, rios ou cidadezinhas esquecidas. Olá Sol! Ninguém ignora que pertences a todos, mas que preferes dar teu calor aos mais necessitados, os que precisam de tua luz para iluminar suas casinhas de lata, os que recebem de ti a energia para enfrentar o trabalho, os que pedem a Deus que nunca lhes faltes, para enriquecer seus plantios e propiciar suas colheitas. Porque tu, Sol, és o pão dourado da mesa dos pobres. De meus terraços te vejo chegar a cada tarde como um aro de fogo rodando através dos anos, pontual, infalível, animando minha filosofia desde o dia em que sonhei levantar Casa Pueblo e pus entre as rochas meu primeiro tijolo. Lembro-me que era um dia inflamado de tormenta, o mar havia substituído o azul por uma cor acinzentada apavorante, no horizonte um veleiro ancorado preparava-se para saltar a tempestade, o céu se enchia de grasnidos de corvos em fuga, a cerra se penteava com o vendaval alvoroçando a doninha e o coelho. Mas de golpe como um anúncio sobrenatural o céu se perfurou e tu apareceste. Eras um sol nítido e redondo, perfeito e delineado, posto sobre o cenário de minha iniciação com a força sagrada de um vitral de igreja. Desde esse instante senti que Deus habitava em ti, que em tua forja derretia a fé e que por meio de teus raios a transmitia por todos os lugares por onde transitavas. Os mesmos braços de ouro que ao espreguiçar-te iluminam o céu, ao estirar-se às costas entibiam as cerras, ou apontando para baixo laminam o mar. Olá Sol! Como eu gostaria de haver comnpartilhado teu grande trajeto presenteando luz, porque por onde passaste acariciaste a vida de mil povos, compartilhaste suas alegrias e tristezas, conheceste a guerra e a paz, impulsionaste a oração e o trabalho, acompanhaste a liberdade e fizeste menos dura a obscuridade dos presídios; por onde passas Sol, adormecem os lagartos, despertam os girassóis e os galos cacarejam; se lambem os gatos vagabundos, os cachorros latem e a toupeira se deslumbra ao sair da toca. Por onde passas Sol, há suor na testa do operário e nos corpos das mulheres acobreadas que agarram o cântaro da favela. Com teu pulsar comoves o mar, dás vida à semeadura, à usina e ao mercado. Por onde passaste correram precipitadamente búfalos e antílopes, espreguiçou-se o leão, assombrou-se a girafa, deslizou a serpente e voou a mariposa. Por onde passaste cantou a cotovia, decolou a aguiazinha, despertou o morcego e emigrou o albatroz. Olá Sol! Obrigado por voltar a animar minha vida de artista. Porque fizeste menos solitária minha solidão. É que me acostumei à tua companhia e se não te tenho, te busco por onde quer que estejas. Por isso te reencontrei na Polinésia, quando te coroaram rei dos arquipélagos de nácar e dos arrecifes denteados de coral, ou na África, quando davas impulso a suas revoluções libertárias e te refletias no espelho de seus escudos tribais para injetar-lhes coragem. Te estou olhando e vejo que não mudaste, que és o mesmo sol que reverenciaram os astecas, o mesmo de minha peregrinação pintando pela América, o que envolveu a Amazônia misteriosa e secreta, o que me iluminou os caminhos ao Machupichu sagrado do Peru, aos vales patagônicos ou os territórios do Sioux ou do Comanche. O mesmo sol que me levou a Bornéu, Sumatra, Bali, às ilhas musicais ou aos areais queimantes do Saara. Diferente do relâmpago que apenas projeta na noite chicotadas de luz, de teu reinado planetário, teu resplendor continua ativo, permanente. Às vezes alguma travessura das nuvens oculta teu esplendor, mas quando isso ocorre, sabemos que estás aí, brincando às escondidas. Outras vezes, no entanto, te vemos sorrir quando as andorinhas ou as gaivotas te usam de papel para escrever as frases de seu voo. Obrigado, Sol, por invadir a intimidade de meu entardecer e mergulhar-te em minhas águas. Agora serás a luz dos peixes e de seu secreto universo submarino. Também dos fantasmas que habitam o ventre dos barcos afundados em trágicos naufrágios. Obrigado Sol! Por presentearnos com esta cerimônia amarela. Por deixar minhas paredes brancas impregnadas de tua fosforescência. Entre vendavais e borrascas, cruzando ciclones e tempestades, chuvas ou tornados, pudeste chegar até aqui para ir-te silenciosamente diante de nossos olhos. Porque tua missão é partir a iluminar outros lugares. Lavradores, estivadores, pescadores te esperam em outras regiões onde a noite desaparecerá com tua chegada. E como respondendo a um timbre mágico despertarás as cidades, irás junto aos meninos à escola, porás em voo a felicidade dos pássaros, chamarás para a missa. À tua chegada se animará o andaime com seus operários, cantarão os pregoeiros nas feiras, a margem do rio se encherá de lavadeiras e entrará a alegria pela bandeirola dos hospitais. Tchau Sol! Quando em um instante te fores de todo, morrerá a tarde. A nostalgia se apoderará de mim e a obscuridade entrará na Casa Pueblo. A obscuridade, com seu apetite insaciável penetrando por debaixo de minhas portas, através das janelas ou por quantas aberturas encontre para filtrar-se em meu atelier, dando passagem às mariposas noturnas. Tchau Sol! Te amo muito! Quando eu era menino, queria alcançar-te com o meu barrilete. Agora que sou velho, só resigno-me a saudar-te, enquanto a tarde boceja por tua boca de vime. Tchau Sol! Obrigado por provocar-nos uma lágrima, ao pensar que iluminaste também a vida de nossos avós, de nossos pais e a de todos os seres queridos que já não estão junto a nós, mas que te seguem desfrutando de outra altura. Adeus Sol! Amanhã te espero outra vez. Casa Pueblo é a tua casa, por isso todos a chamam casa do sol. O sol de minha vida de artista. O sol de minha solidão. É que me sinto milionário de sóis, que guardo no cofre do horizonte”.
(tradução livre, 02/10/2014)
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
Recuerdos Del Paisito: Piriápolis
"a Piria se lo puede hallar en todo cuanto su férrea voluntad creó. Fue un hombre que tuvo un sueño, lo hizo real y vive en él". (Loreley Lazo, poetisa uruguaia)
E finalmente hoje vamos a um lugar diferente. Do ambiente urbano, embora tranquilo e convidativo da capital Montevidéu, passaremos às estradas asfaltadas, planas, bem demarcadas e sinalizadas do Leste do país, com seus pinheirais e eucaliptos, coqueiros e palmeiras, até chegar a outro departamento, o de Maldonado. Ali o relevo não é mais plano e a região continua a ser cortada pelo Rio da Prata, até que se chega à Punta de Salinas, onde começa o Oceano Atlântico.
Aqui e ali, pela estrada, insinuam-se em meio à mata pequenas vilas sem asfalto, algumas casinhas, em sua maioria brancas, para de novo a paisagem ser tomada pelo verde. Esse jogo de revela-esconde das poucas casinhas brancas em meio à paisagem permaneceu por todo o caminho até Piriápolis, que já foi o balneário mais famoso do Uruguai.
É claro que o objetivo principal dos turistas, enquanto viajávamos, era Punta del Este, sempre aguardada. Fomos comunicados, no entanto, de que, no meio do caminho, passaríamos por Piriápolis para apreciar a vista. Aí fiquei pensando: o que eu poderia contar sobre Piriápolis, onde estive por uns vinte minutos e aonde os turistas que me acompanharam foram para apreciar a vista?... Cabia a mim descobrir o que era importante lá além da bela vista.
Então, algo que não pode deixar de ser contado é a história de seu fundador, Francisco Piria, que, afinal de contas, dá nome à cidade – Piriápolis, cidade de Piria. Só pensar “Quem foi esse uruguaio que fundou a própria cidade”? Já é algo que inspira a escrever. Assim, vamos a ele.
Filho de imigrantes genoveses, Francisco Piria nasceu em Montevidéu em 1847. Em idade escolar foi levado à Itália por um tio monge, que o colocaria em contato com os conhecimentos filosóficos sobre a alquimia, que teriam grande influência em sua vida e cuja simbólica pode ser vista e constatada em tudo quanto criou e desenvolveu. Além de ter fundado a cidade balneária de Piriápolis, chamada sugestivamente de “cidade do porvir”, é responsável pela existência de várias dezenas de bairros na capital uruguaia. A atual sede da Suprema Corte do país foi sua residência em Montevidéu, mandada construir por ele, cravada em pleno centro histórico da cidade, pertinho de onde eu me havia hospedado.
Tudo isso se deve à destacada atuação de Piria como empresário: desde logo tornou-se um homem de negócios, de tino extraordinário. Comprava terras, para depois dividi-las e vendê-las. “Convidava” amigos a se hospedarem na cidade, em grande parte argentinos, e depois fazia as propostas de venda, que se acabavam concretizando. E Piriápolis, cujo desenvolvimento foi baseado desde sempre no turismo, acabou por consolidar-se.
Contudo, eram apenas duas as pessoas de confiança de Piria que poderiam tocar esse projeto adiante depois de sua morte, que se deu em 1933: um de seus filhos, Pancho, e um amigo, Carlos Bonavita. Bonavita ceifaria a vida a Pancho após um desentendimento, e a si próprio logo depois, não muito tempo após o falecimento de Piria. Na ausência de seu fundador e de seus dois continuadores naturais, o Estado se apropriou da cidade, que perdeu seu status de balneário mais famoso do Uruguai para a vizinha Punta del Este. Entretanto, Piriápolis prossegue, ainda bastante famosa, com o ápice de sua temporada no verão.O turismo interno é bastante importante, embora latino-americanos em geral e mais recentemente europeus a estejam descobrindo.
Chegamos ao alto do Morro do Inglês, mais conhecido como Cerro San Antonio, por causa da capelinha depositária de uma imagem imponente do santo casamenteiro que está em seu cume. Enquanto meus companheiros de viagem apreciavam a vista, depois de tiradas algumas fotos, claaaaro, aproveitei para rezar; não pelas coisas do coração, que essas vão ser como tiverem que ser, mas pelos que estavam lá e pelos que ficaram aqui.
Por um capricho da natureza, a vista da Baía de Piriápolis lá de cima do Cerro San Antonio lembra um coração. Digo o óbvio, mas isso acabou por cativar os turistas todos. As fotos que fiz, guardo todas. Ilusões não tenho muitas. A ciência progride rápido, mas o tempo também está passando rápido e estou perdendo progressivamente a coragem e a vontade de me arriscar ante as investidas destemidas da medicina, a não ser que tenha mais garantias do que suposições. Contudo, as fotos me esperarão sempre. Quem sabe eu também não termino cativada pela Baía de Piriápolis um dia desses... Hoje não vivo mais para poder ver um dia, mas essa também não é uma possibilidade que eu descarto por completo; que seja o que tiver que ser.
E finalmente hoje vamos a um lugar diferente. Do ambiente urbano, embora tranquilo e convidativo da capital Montevidéu, passaremos às estradas asfaltadas, planas, bem demarcadas e sinalizadas do Leste do país, com seus pinheirais e eucaliptos, coqueiros e palmeiras, até chegar a outro departamento, o de Maldonado. Ali o relevo não é mais plano e a região continua a ser cortada pelo Rio da Prata, até que se chega à Punta de Salinas, onde começa o Oceano Atlântico.
Aqui e ali, pela estrada, insinuam-se em meio à mata pequenas vilas sem asfalto, algumas casinhas, em sua maioria brancas, para de novo a paisagem ser tomada pelo verde. Esse jogo de revela-esconde das poucas casinhas brancas em meio à paisagem permaneceu por todo o caminho até Piriápolis, que já foi o balneário mais famoso do Uruguai.
É claro que o objetivo principal dos turistas, enquanto viajávamos, era Punta del Este, sempre aguardada. Fomos comunicados, no entanto, de que, no meio do caminho, passaríamos por Piriápolis para apreciar a vista. Aí fiquei pensando: o que eu poderia contar sobre Piriápolis, onde estive por uns vinte minutos e aonde os turistas que me acompanharam foram para apreciar a vista?... Cabia a mim descobrir o que era importante lá além da bela vista.
Então, algo que não pode deixar de ser contado é a história de seu fundador, Francisco Piria, que, afinal de contas, dá nome à cidade – Piriápolis, cidade de Piria. Só pensar “Quem foi esse uruguaio que fundou a própria cidade”? Já é algo que inspira a escrever. Assim, vamos a ele.
Filho de imigrantes genoveses, Francisco Piria nasceu em Montevidéu em 1847. Em idade escolar foi levado à Itália por um tio monge, que o colocaria em contato com os conhecimentos filosóficos sobre a alquimia, que teriam grande influência em sua vida e cuja simbólica pode ser vista e constatada em tudo quanto criou e desenvolveu. Além de ter fundado a cidade balneária de Piriápolis, chamada sugestivamente de “cidade do porvir”, é responsável pela existência de várias dezenas de bairros na capital uruguaia. A atual sede da Suprema Corte do país foi sua residência em Montevidéu, mandada construir por ele, cravada em pleno centro histórico da cidade, pertinho de onde eu me havia hospedado.
Tudo isso se deve à destacada atuação de Piria como empresário: desde logo tornou-se um homem de negócios, de tino extraordinário. Comprava terras, para depois dividi-las e vendê-las. “Convidava” amigos a se hospedarem na cidade, em grande parte argentinos, e depois fazia as propostas de venda, que se acabavam concretizando. E Piriápolis, cujo desenvolvimento foi baseado desde sempre no turismo, acabou por consolidar-se.
Contudo, eram apenas duas as pessoas de confiança de Piria que poderiam tocar esse projeto adiante depois de sua morte, que se deu em 1933: um de seus filhos, Pancho, e um amigo, Carlos Bonavita. Bonavita ceifaria a vida a Pancho após um desentendimento, e a si próprio logo depois, não muito tempo após o falecimento de Piria. Na ausência de seu fundador e de seus dois continuadores naturais, o Estado se apropriou da cidade, que perdeu seu status de balneário mais famoso do Uruguai para a vizinha Punta del Este. Entretanto, Piriápolis prossegue, ainda bastante famosa, com o ápice de sua temporada no verão.O turismo interno é bastante importante, embora latino-americanos em geral e mais recentemente europeus a estejam descobrindo.
Chegamos ao alto do Morro do Inglês, mais conhecido como Cerro San Antonio, por causa da capelinha depositária de uma imagem imponente do santo casamenteiro que está em seu cume. Enquanto meus companheiros de viagem apreciavam a vista, depois de tiradas algumas fotos, claaaaro, aproveitei para rezar; não pelas coisas do coração, que essas vão ser como tiverem que ser, mas pelos que estavam lá e pelos que ficaram aqui.
Por um capricho da natureza, a vista da Baía de Piriápolis lá de cima do Cerro San Antonio lembra um coração. Digo o óbvio, mas isso acabou por cativar os turistas todos. As fotos que fiz, guardo todas. Ilusões não tenho muitas. A ciência progride rápido, mas o tempo também está passando rápido e estou perdendo progressivamente a coragem e a vontade de me arriscar ante as investidas destemidas da medicina, a não ser que tenha mais garantias do que suposições. Contudo, as fotos me esperarão sempre. Quem sabe eu também não termino cativada pela Baía de Piriápolis um dia desses... Hoje não vivo mais para poder ver um dia, mas essa também não é uma possibilidade que eu descarto por completo; que seja o que tiver que ser.
domingo, 21 de setembro de 2014
Recuerdos Del Paisito: Museo La Casa Del Gobierno
20 de setembro, no Brasil, é o Dia do Gaúcho, por ser, primeiramente, o aniversário da Revolução Farroupilha (1835-1845), o mais longo conflito civil de nossa história, permeada que foi por tantos conflitos civis.
Ultimamente, tenho escrito bastante sobre o Uruguai. Uma das crônicas que planejei escrever a respeito daquele país tem como tema um museu que fui conhecer em Montevidéu, que dá destaque aos presidentes uruguaios, o primeiro deles que teve, por certo período de tempo, uma ligação estreita com o líder da nossa Revolução Farroupilha – Bento Gonçalves da Silva (1788-1847). Já que passamos, então, recentemente pelo Dia do Gaúcho, e já que também os uruguaios são gaúchos, assim como os argentinos, vamos a esta crônica um pouquinho antes do previsto.
Sempre que viajo, procuro privilegiar neste tempo o aspecto cultural. Assim, houve um dia em que decidimos sair para procurar em Montevidéu um programa cultural para fazer. A viagem quase chegava ao fim e ainda não havíamos conhecido a chuvinha gelada e o vento forte, tão típicos da cidade e tão propalados. Pois bem, justamente no dia em que decidimos sair a pé e sem capa nem sombrinha eles chegaram. A chuvinha gelada e um pouco apertada, tomei com prazer, recordando os tempos de infância, de férias em Pirassununga, em que eu reencontrava meu irmão e podíamos brincar juntos, na chuva, na casa da vó... Putz, como era bom brincar na chuva!!!
E foi debaixo daquela chuva trigelada que descobrimos o museu. Procurávamos pelo Teatro Solis, que ficava na mesma quadra. Dentro de uma loja havia uma uruguaia de olhos atentos, que nos viu e veio ao nosso encontro, tomando chuva também. Ela indicou o Teatro Solis e mostrou o prédio do museu, ali, diante de nós, sugerindo que fôssemos visitá-lo; fomos. Olharíamos o teatro de perto depois.
O Museo La Casa Del Gobierno era dedicado a todos os presidentes uruguaios. Nos foi possível ver retratos dos presidentes, quadros, medalhas, armas, coches, mobília, relógios, imagens reais e/ou fictícias do cotidiano dos uruguaios ao longo do tempo... Alguns presidentes tinham suas salas próprias; outros, talvez sobre os quais o museu tivesse menos itens, compartilhavam salas. Há um circuito que se pode fazer, começando pela sala do primeiro presidente, Fructuoso Rivera, e terminando pelos dias atuais. Um breve giro pela história do Uruguai em aproximadamente duas horas, com folga, olhando tudo sem pressa.
Dois dos presidentes que têm mais destaque no museu, que possuem suas salas próprias, são José Fructuoso Rivera (1784-1854) e Manuel Oribe (1792-1857), respectivamente primeiro e segundo presidentes da República Oriental do Uruguai. (Imaginem só, toquei, parte por parte, o coche oficial do presidente Rivera... Ah, a visita prometia...) Esta crônica pretende apresentá-los melhor, levando em conta a importância histórica que têm, de certa forma até os nossos dias, para a política do país. Explico-me.
A região onde fica o Uruguai foi alvo de disputas constantes. Antes da independência do país, portugueses e espanhóis a disputaram inúmeras vezes. Acontece que chegou um tempo em que a maior parte das próprias colônias portuguesas e espanholas se tornou independente. Depois da independência do Uruguai, declarada em 1830, essa região continuou a ser disputada, mas pela Confederação Argentina e o Império do Brasil, também já independentes, estando ora sob a influência de um desses países, ora sob a influência do outro.
Em 1836 a jovem República Oriental do Uruguai viu dois de seus governantes constitucionais se enfrentarem na batalha de Carpintería. Parte dos combatentes era liderada por seu primeiro presidente, Fructuoso Rivera, e usava braçadeiras vermelhas; a outra parte dos contendores era liderada por seu então presidente, Manuel Oribe (que havia sido ministro da guerra de Fructuoso Rivera), e usava braçadeiras brancas. Terminada a batalha com a vitória dos blancos, estabeleceram-se os partidos que, liderados respectivamente por Rivera e Oribe – seus fundadores -, bipolarizariam a política do país a partir de então: o Partido Colorado (liberal) e o Partido Blanco (conservador). Esse bipartidarismo só seria rompido depois da ditadura militar uruguaia, já no século XXI, com a eleição de Tabaré Vasquez, da coalisão denominada Frente Ampla, autorizada a existir legalmente com a redemocratização do país. Por isso Rivera e Oribe me parecem ter importância até os dias atuais na história política do Uruguai, visto que os partidos que fundaram ainda existem, com determinadas modificações.
Bom, e os gaúchos? O presidente Rivera (pró-Brasil), no poder novamente no Uruguai enquanto se desenrolava a Revolução Farroupilha, opta por auxiliar Bento Gonçalves, presidente da República Rio-Grandense e seu antigo inimigo político. Esse auxílio dura até 1843, Quando a chamada Guerra Grande, já em curso há quatro anos, é definitivamente transferida a Montevidéu, sitiando-se a cidade e acirrando-se de vez os enfrentamentos entre blancos e colorados, que só terminariam em 1851, com a vitória dos colorados e a ruína econômica completa do país.
O presidente Oribe (pró-Argentina)se rende às tropas brasileiras em 1851, com o fim da Guerra Grande – transformada em conflito internacional e só encerrada após muitas intervenções externas -, abandonando a vida política no ano seguinte, depois de tantos intensos combates com os colorados. Informações oficiosas me deram conta de que Manuel Oribe era bonitão e se parecia bastante com o nosso imperador Dom Pedro I, embora não tivesse o mesmo “olhar 43” do brasileiro. Hahahhaa Divertido...
Após visitar todos os outros presidentes uruguaios, deixamos o museu com a cabeça fervilhando de tanta história em um período tão curto de tempo. E quando estávamos na calçada fronteira ao Teatro Solis, o vento gelado de Montevidéu veio nos receber no auge de sua força. Lendo assim parece um exagero, mas a câmera fotográfica em punho, que mirava o teatro, teve de esperar. A força do vento exigia concentração e cuidado, para podermos permanecer nos mesmos lugares onde estávamos. A chuva caía ainda e o vento fustigava com ímpeto. Me preocupei, claro, mas ao mesmo tempo pensei que, presente de última hora, eu não deixaria Montevidéu sem conhecer a chuva e o vento tão afamados. Meu cabelo solto e comprido de brasileira desprevenida me espanava com força o rosto, voando descontrolado em todas as direções. Pensei: “Ah, depois eu enxugo, desembaraço, faço o que tiver de fazer; a cada momento o seu momento”.
Ultimamente, tenho escrito bastante sobre o Uruguai. Uma das crônicas que planejei escrever a respeito daquele país tem como tema um museu que fui conhecer em Montevidéu, que dá destaque aos presidentes uruguaios, o primeiro deles que teve, por certo período de tempo, uma ligação estreita com o líder da nossa Revolução Farroupilha – Bento Gonçalves da Silva (1788-1847). Já que passamos, então, recentemente pelo Dia do Gaúcho, e já que também os uruguaios são gaúchos, assim como os argentinos, vamos a esta crônica um pouquinho antes do previsto.
Sempre que viajo, procuro privilegiar neste tempo o aspecto cultural. Assim, houve um dia em que decidimos sair para procurar em Montevidéu um programa cultural para fazer. A viagem quase chegava ao fim e ainda não havíamos conhecido a chuvinha gelada e o vento forte, tão típicos da cidade e tão propalados. Pois bem, justamente no dia em que decidimos sair a pé e sem capa nem sombrinha eles chegaram. A chuvinha gelada e um pouco apertada, tomei com prazer, recordando os tempos de infância, de férias em Pirassununga, em que eu reencontrava meu irmão e podíamos brincar juntos, na chuva, na casa da vó... Putz, como era bom brincar na chuva!!!
E foi debaixo daquela chuva trigelada que descobrimos o museu. Procurávamos pelo Teatro Solis, que ficava na mesma quadra. Dentro de uma loja havia uma uruguaia de olhos atentos, que nos viu e veio ao nosso encontro, tomando chuva também. Ela indicou o Teatro Solis e mostrou o prédio do museu, ali, diante de nós, sugerindo que fôssemos visitá-lo; fomos. Olharíamos o teatro de perto depois.
O Museo La Casa Del Gobierno era dedicado a todos os presidentes uruguaios. Nos foi possível ver retratos dos presidentes, quadros, medalhas, armas, coches, mobília, relógios, imagens reais e/ou fictícias do cotidiano dos uruguaios ao longo do tempo... Alguns presidentes tinham suas salas próprias; outros, talvez sobre os quais o museu tivesse menos itens, compartilhavam salas. Há um circuito que se pode fazer, começando pela sala do primeiro presidente, Fructuoso Rivera, e terminando pelos dias atuais. Um breve giro pela história do Uruguai em aproximadamente duas horas, com folga, olhando tudo sem pressa.
Dois dos presidentes que têm mais destaque no museu, que possuem suas salas próprias, são José Fructuoso Rivera (1784-1854) e Manuel Oribe (1792-1857), respectivamente primeiro e segundo presidentes da República Oriental do Uruguai. (Imaginem só, toquei, parte por parte, o coche oficial do presidente Rivera... Ah, a visita prometia...) Esta crônica pretende apresentá-los melhor, levando em conta a importância histórica que têm, de certa forma até os nossos dias, para a política do país. Explico-me.
A região onde fica o Uruguai foi alvo de disputas constantes. Antes da independência do país, portugueses e espanhóis a disputaram inúmeras vezes. Acontece que chegou um tempo em que a maior parte das próprias colônias portuguesas e espanholas se tornou independente. Depois da independência do Uruguai, declarada em 1830, essa região continuou a ser disputada, mas pela Confederação Argentina e o Império do Brasil, também já independentes, estando ora sob a influência de um desses países, ora sob a influência do outro.
Em 1836 a jovem República Oriental do Uruguai viu dois de seus governantes constitucionais se enfrentarem na batalha de Carpintería. Parte dos combatentes era liderada por seu primeiro presidente, Fructuoso Rivera, e usava braçadeiras vermelhas; a outra parte dos contendores era liderada por seu então presidente, Manuel Oribe (que havia sido ministro da guerra de Fructuoso Rivera), e usava braçadeiras brancas. Terminada a batalha com a vitória dos blancos, estabeleceram-se os partidos que, liderados respectivamente por Rivera e Oribe – seus fundadores -, bipolarizariam a política do país a partir de então: o Partido Colorado (liberal) e o Partido Blanco (conservador). Esse bipartidarismo só seria rompido depois da ditadura militar uruguaia, já no século XXI, com a eleição de Tabaré Vasquez, da coalisão denominada Frente Ampla, autorizada a existir legalmente com a redemocratização do país. Por isso Rivera e Oribe me parecem ter importância até os dias atuais na história política do Uruguai, visto que os partidos que fundaram ainda existem, com determinadas modificações.
Bom, e os gaúchos? O presidente Rivera (pró-Brasil), no poder novamente no Uruguai enquanto se desenrolava a Revolução Farroupilha, opta por auxiliar Bento Gonçalves, presidente da República Rio-Grandense e seu antigo inimigo político. Esse auxílio dura até 1843, Quando a chamada Guerra Grande, já em curso há quatro anos, é definitivamente transferida a Montevidéu, sitiando-se a cidade e acirrando-se de vez os enfrentamentos entre blancos e colorados, que só terminariam em 1851, com a vitória dos colorados e a ruína econômica completa do país.
O presidente Oribe (pró-Argentina)se rende às tropas brasileiras em 1851, com o fim da Guerra Grande – transformada em conflito internacional e só encerrada após muitas intervenções externas -, abandonando a vida política no ano seguinte, depois de tantos intensos combates com os colorados. Informações oficiosas me deram conta de que Manuel Oribe era bonitão e se parecia bastante com o nosso imperador Dom Pedro I, embora não tivesse o mesmo “olhar 43” do brasileiro. Hahahhaa Divertido...
Após visitar todos os outros presidentes uruguaios, deixamos o museu com a cabeça fervilhando de tanta história em um período tão curto de tempo. E quando estávamos na calçada fronteira ao Teatro Solis, o vento gelado de Montevidéu veio nos receber no auge de sua força. Lendo assim parece um exagero, mas a câmera fotográfica em punho, que mirava o teatro, teve de esperar. A força do vento exigia concentração e cuidado, para podermos permanecer nos mesmos lugares onde estávamos. A chuva caía ainda e o vento fustigava com ímpeto. Me preocupei, claro, mas ao mesmo tempo pensei que, presente de última hora, eu não deixaria Montevidéu sem conhecer a chuva e o vento tão afamados. Meu cabelo solto e comprido de brasileira desprevenida me espanava com força o rosto, voando descontrolado em todas as direções. Pensei: “Ah, depois eu enxugo, desembaraço, faço o que tiver de fazer; a cada momento o seu momento”.
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
Recuerdos Del Paisito: Los Uruguayos
A todo povo sempre são atribuídas algumas características, ora positivas ora negativas, que vão “desenhando” a imagem com a qual os estrangeiros acabam ficando sobre esse povo. Aos brasileiros, por exemplo, no lado positivo, graças a Deus, são atribuídas alegria, cordialidade, musicalidade... Quanto às nossas características negativas, como diria uma personagem de uma série de comédia da televisão, “Prefiro não comentar”. Não por falta do que dizer, mas porque este não seja o momento apropriado. Vamos deixar isso pra lá. Estou escrevendo esta crônica para falar, e bem, dos uruguaios; então, vamos a eles.
Logo que entramos neste ano, ganhei lááá de cima um presente. Um presente-pessoa a quem eu já conhecia, ainda que pouco, há bastante tempo, mas que entrou definitivamente na minha vida como professora de espanhol (uruguaia, vamos dizer para ir costurando direitinho as coisas aqui neste texto). Contudo, hoje, quando revisito este presente a cada semana, é a amiga a quem eu primeiro vejo. Depois, bem devagar, é que vou me lembrando que bem junto da amiga está a professora de espanhol. Antes de conhecer seu país, eu pensava que determinadas características que a faziam admirável aos meus olhos eram dela. Bom, é claro que são, mas depois de ter ido ao Uruguai, percebi que essas características que estreitaram os nossos laços de amizade são dela, porque já a acompanham há muito tempo, vindas de seu próprio povo. o que vou dizer, então, dos uruguaios, a partir daqui, se aplica a ela, inerentemente, porque estar no Uruguai é estar diante dela e vice-versa, numa harmonia perfeita.
Zelo atento – Estávamos lá, três turistas despreocupadas na Praça Cagancha, pleno centro de Montevidéu, tirando fotos; anoitecia. Uma moça perguntou se queríamos que ela tirasse uma foto das três; queríamos, claro. Ela fez a foto enquanto, com o outro olho, observava um rapaz que parecia estar sob o efeito de alguma droga. Nos devolveu as câmeras, olhou para o rapaz, olhou de volta para nós e aconselhou: “Guardem-nas bem; vocês sabem como são as drogas”. Quando terminamos de guardá-las ela se foi. Um uruguaio sairá de onde estiver, parará o que estiver fazendo para vir ao seu encontro se achar que há alguma boa orientação que ele possa lhe dar. Vivenciamos isso algumas vezes.
Sensibilidade - Quando estava na Casa Pueblo, em Punta Ballena, eu quis escolher um azulejo decorado com uma obra de Carlos Páez Vilaró. (Falo mais detidamente sobre a Casa Pueblo e sobre Vilaró outro dia). A vendedora dos azulejos notou minha indecisão, aproximou-se mais, eu percebia que me olhava com interesse genuíno. Hesitou um segundo, procurando palavras como quem vai fazer uma revelação, e disse, com cuidado: “Sabe, a lua está bonita; muito bonita, e é uma das figuras mais representativas na obra de Vilaró. Recorda um período muito intenso em que sua vida e sua produção artística se mesclaram profundamente”. Claro, ela se referia ao acidente em que o artista quase perdeu o filho nos Andes mas nunca deixou de procurá-lo, pois sentia que estava vivo, apesar do descrédito das autoridades que já se anunciava; acidente e procura que viraram livro de sua autoria: Entre Meu Filho E Eu, A Lua. Ela me deixou livre para escolher, mas havia me convencido e a lua de Vilaró veio morar no Brasil. Aliás, muitos vendedores brasileiros deveriam aprender com os uruguaios que as coisas não se empurram para os clientes; as coisas são vendidas, mas quem escolhe sempre precisa ser quem compra. Sempre fomos deixadas à vontade; recebíamos sugestões, detalhes, mas também sempre dávamos a palavra final, e essa palavra era respeitada em todas as ocasiões, fosse ela “sim” ou “não”.
Mas tive depois uma prova literalmente bonita de como são esse zelo atento e essa sensibilidade dos uruguaios. Me refiro a uma cena marcante que presenciei na feira a que fomos no Parque Rodó. Logo que chegamos tivemos a atenção atraída por um senhor que vendia artesanato em madeira. Nos detivemos diante de alguns porta-chaves: havia peixes, sóis, desenhos mais abstratos. Ele pegava cuidadosamente cada uma das peças, limpava-as detidamente com uma escovinha, retirando cada grão de poeira, como se estivesse acariciando delicadamente a alguém muito amado e a colocava no lugar correspondente, para passar à seguinte. Achei tão lindo aquele agir que o artesão tinha para com as suas peças... Perguntei se podia tocá-las e a resposta foi positiva, sorridente e imediata. Enquanto eu ia tocando ele me explicava, com naturalidade absoluta, que “recortava” todos os pedacinhos da madeira da maneira como queria e depois “armava” os desenhos. As explicações, calmas e nas quais tinha evidente prazer, eram as mesmas que daria a qualquer passante. O vendedor das peças de madeira me olhava sem aqueles enormes olhos interrogadores e perplexos que de tempos em tempos me acompanham aqui. Será possível perceber que muitas das experiências descritas neste texto se passaram por causa de um dedinho de prosa. Para os uruguaios, tranquilos como costumam ser, sempre há tempo para conversar, seja entre si, seja com os estrangeiros.
Aliás, no Uruguai ninguém me interrogou nada perplexamente com os olhos; eles apenas me olharam, constataram e seguiram em frente. Um dia, deixamos minha avó, cansada, no hotel e fomos procurar o jantar; procurar o jantar numa casa de chá. Eu queria saber o tamanho de um doce para levar para ela. A moça à minha frente imediatamente juntou os dedos das duas mãos, com total desembaraço, fez o desenho. Colocou-o debaixo das minhas mãos para que eu o tocasse, acompanhando-o com uma descrição do exterior, do recheio, da receita, de tudo, detalhes que eu nem precisei pedir. Levei o doce, claro, impressionada com a espontaneidade e prontidão dela.
Afetividade cálida – no hotel onde ficamos havia um recepcionista muito simpático: ele cumprimentava, abria a porta do elevador e assim a mantinha até que todas entrássemos, respondia as perguntas sempre com alguma informação complementar, não hesitava em ir pessoalmente ver o que acontecia se necessário, falava portunhol, comigo falava espanhol e não economizava no vocabulário, gostava de me testar; fazia o que podia por todos os hóspedes. Ele realmente se desdobrava; era notório que apreciava muito aquilo que fazia. Assim, sempre que chegávamos ou saíamos, a torcida era para encontrar o Edimundo no balcão.
Amabilidade solícita – Quando chegávamos a algum lugar e precisávamos descer do ônibus, Elisa, a guia turística, ou Luiz, o motorista, estavam sempre à porta para me estender a mão, indicando o fim dos degraus e a direção a ser tomada. Tudo feito como se fosse parte do cotidiano deles todos os dias. Na maior parte das vezes, quem estava era Elisa, que adicionalmente me conduzia à calçada com hagilidade e ficava comigo esperando até que minha avó e Carol chegassem. No segundo dia de viagem, quando chegamos, ela havia tido a delicadeza de nos guardar os acentos da frente. Percebi também que, no dia anterior, havia dois falantes de inglês, que ela pôs na fileira contígua à sua. Algumas vezes a notei olhando-os com atenção, como a certificar-se de que não tinham dúvidas e de que ela podia prosseguir.
Gentileza a toda prova – Sempre que fazíamos algum pedido, qualquer que fosse, as respostas recorrentes eram: “Sim”, “claro”, “por favor”... E quando agradecíamos por algo, a resposta mais recorrente não era “de nada”; era “não, por favor”!, como a salientar que não havia necessidade nenhuma de agradecer.
Sobriedade alegre – Na feira comprei uma echarpe. Bonita, mas mesclava tons de preto, cinza, marrom, para mim pouco habituais. Foi o único dia em que saí sem aquele acessório indispensável no ventinho frio da cidade. O vendedor a pôs sobre minha blusa rosa e disse que ficava muito bem; se mostrou encantado com o meu espanhol. Parecia que redobrava sua alegria por estar falando com uma brasileira em espanhol. “Os brasileiros estão acostumados a usar muitas cores. Gostamos disso, embora o comum para nós sejam as cores mais clássicas. Com esse seu rosa vai ficar muito bom”! E ficou mesmo.
E as crianças uruguaias, como são? Bom, essas são todas iguais, existem as quietinhas e as espoletas em qualquer lugar do mundo. Sentada no parque, eu ouvia de uma mãe que passava: “para, você já me falou isso duzentas vezes”! De outra eu escutava: “Dá a mão”! E uma terceira trouxe aos meus ouvidos um “Vem aqui”! exasperado. Aí, quando você começa a entender as broncas que as mães dão nos filhos, passa também a acreditar, mesmo, que o seu desempenho na língua estrangeira está ficando realmente bom!
Enfim, voltei, e não só eu, agradavelmente impressionada e de certa maneira marcada pela suavidade alegre dos uruguaios.
Logo que entramos neste ano, ganhei lááá de cima um presente. Um presente-pessoa a quem eu já conhecia, ainda que pouco, há bastante tempo, mas que entrou definitivamente na minha vida como professora de espanhol (uruguaia, vamos dizer para ir costurando direitinho as coisas aqui neste texto). Contudo, hoje, quando revisito este presente a cada semana, é a amiga a quem eu primeiro vejo. Depois, bem devagar, é que vou me lembrando que bem junto da amiga está a professora de espanhol. Antes de conhecer seu país, eu pensava que determinadas características que a faziam admirável aos meus olhos eram dela. Bom, é claro que são, mas depois de ter ido ao Uruguai, percebi que essas características que estreitaram os nossos laços de amizade são dela, porque já a acompanham há muito tempo, vindas de seu próprio povo. o que vou dizer, então, dos uruguaios, a partir daqui, se aplica a ela, inerentemente, porque estar no Uruguai é estar diante dela e vice-versa, numa harmonia perfeita.
Zelo atento – Estávamos lá, três turistas despreocupadas na Praça Cagancha, pleno centro de Montevidéu, tirando fotos; anoitecia. Uma moça perguntou se queríamos que ela tirasse uma foto das três; queríamos, claro. Ela fez a foto enquanto, com o outro olho, observava um rapaz que parecia estar sob o efeito de alguma droga. Nos devolveu as câmeras, olhou para o rapaz, olhou de volta para nós e aconselhou: “Guardem-nas bem; vocês sabem como são as drogas”. Quando terminamos de guardá-las ela se foi. Um uruguaio sairá de onde estiver, parará o que estiver fazendo para vir ao seu encontro se achar que há alguma boa orientação que ele possa lhe dar. Vivenciamos isso algumas vezes.
Sensibilidade - Quando estava na Casa Pueblo, em Punta Ballena, eu quis escolher um azulejo decorado com uma obra de Carlos Páez Vilaró. (Falo mais detidamente sobre a Casa Pueblo e sobre Vilaró outro dia). A vendedora dos azulejos notou minha indecisão, aproximou-se mais, eu percebia que me olhava com interesse genuíno. Hesitou um segundo, procurando palavras como quem vai fazer uma revelação, e disse, com cuidado: “Sabe, a lua está bonita; muito bonita, e é uma das figuras mais representativas na obra de Vilaró. Recorda um período muito intenso em que sua vida e sua produção artística se mesclaram profundamente”. Claro, ela se referia ao acidente em que o artista quase perdeu o filho nos Andes mas nunca deixou de procurá-lo, pois sentia que estava vivo, apesar do descrédito das autoridades que já se anunciava; acidente e procura que viraram livro de sua autoria: Entre Meu Filho E Eu, A Lua. Ela me deixou livre para escolher, mas havia me convencido e a lua de Vilaró veio morar no Brasil. Aliás, muitos vendedores brasileiros deveriam aprender com os uruguaios que as coisas não se empurram para os clientes; as coisas são vendidas, mas quem escolhe sempre precisa ser quem compra. Sempre fomos deixadas à vontade; recebíamos sugestões, detalhes, mas também sempre dávamos a palavra final, e essa palavra era respeitada em todas as ocasiões, fosse ela “sim” ou “não”.
Mas tive depois uma prova literalmente bonita de como são esse zelo atento e essa sensibilidade dos uruguaios. Me refiro a uma cena marcante que presenciei na feira a que fomos no Parque Rodó. Logo que chegamos tivemos a atenção atraída por um senhor que vendia artesanato em madeira. Nos detivemos diante de alguns porta-chaves: havia peixes, sóis, desenhos mais abstratos. Ele pegava cuidadosamente cada uma das peças, limpava-as detidamente com uma escovinha, retirando cada grão de poeira, como se estivesse acariciando delicadamente a alguém muito amado e a colocava no lugar correspondente, para passar à seguinte. Achei tão lindo aquele agir que o artesão tinha para com as suas peças... Perguntei se podia tocá-las e a resposta foi positiva, sorridente e imediata. Enquanto eu ia tocando ele me explicava, com naturalidade absoluta, que “recortava” todos os pedacinhos da madeira da maneira como queria e depois “armava” os desenhos. As explicações, calmas e nas quais tinha evidente prazer, eram as mesmas que daria a qualquer passante. O vendedor das peças de madeira me olhava sem aqueles enormes olhos interrogadores e perplexos que de tempos em tempos me acompanham aqui. Será possível perceber que muitas das experiências descritas neste texto se passaram por causa de um dedinho de prosa. Para os uruguaios, tranquilos como costumam ser, sempre há tempo para conversar, seja entre si, seja com os estrangeiros.
Aliás, no Uruguai ninguém me interrogou nada perplexamente com os olhos; eles apenas me olharam, constataram e seguiram em frente. Um dia, deixamos minha avó, cansada, no hotel e fomos procurar o jantar; procurar o jantar numa casa de chá. Eu queria saber o tamanho de um doce para levar para ela. A moça à minha frente imediatamente juntou os dedos das duas mãos, com total desembaraço, fez o desenho. Colocou-o debaixo das minhas mãos para que eu o tocasse, acompanhando-o com uma descrição do exterior, do recheio, da receita, de tudo, detalhes que eu nem precisei pedir. Levei o doce, claro, impressionada com a espontaneidade e prontidão dela.
Afetividade cálida – no hotel onde ficamos havia um recepcionista muito simpático: ele cumprimentava, abria a porta do elevador e assim a mantinha até que todas entrássemos, respondia as perguntas sempre com alguma informação complementar, não hesitava em ir pessoalmente ver o que acontecia se necessário, falava portunhol, comigo falava espanhol e não economizava no vocabulário, gostava de me testar; fazia o que podia por todos os hóspedes. Ele realmente se desdobrava; era notório que apreciava muito aquilo que fazia. Assim, sempre que chegávamos ou saíamos, a torcida era para encontrar o Edimundo no balcão.
Amabilidade solícita – Quando chegávamos a algum lugar e precisávamos descer do ônibus, Elisa, a guia turística, ou Luiz, o motorista, estavam sempre à porta para me estender a mão, indicando o fim dos degraus e a direção a ser tomada. Tudo feito como se fosse parte do cotidiano deles todos os dias. Na maior parte das vezes, quem estava era Elisa, que adicionalmente me conduzia à calçada com hagilidade e ficava comigo esperando até que minha avó e Carol chegassem. No segundo dia de viagem, quando chegamos, ela havia tido a delicadeza de nos guardar os acentos da frente. Percebi também que, no dia anterior, havia dois falantes de inglês, que ela pôs na fileira contígua à sua. Algumas vezes a notei olhando-os com atenção, como a certificar-se de que não tinham dúvidas e de que ela podia prosseguir.
Gentileza a toda prova – Sempre que fazíamos algum pedido, qualquer que fosse, as respostas recorrentes eram: “Sim”, “claro”, “por favor”... E quando agradecíamos por algo, a resposta mais recorrente não era “de nada”; era “não, por favor”!, como a salientar que não havia necessidade nenhuma de agradecer.
Sobriedade alegre – Na feira comprei uma echarpe. Bonita, mas mesclava tons de preto, cinza, marrom, para mim pouco habituais. Foi o único dia em que saí sem aquele acessório indispensável no ventinho frio da cidade. O vendedor a pôs sobre minha blusa rosa e disse que ficava muito bem; se mostrou encantado com o meu espanhol. Parecia que redobrava sua alegria por estar falando com uma brasileira em espanhol. “Os brasileiros estão acostumados a usar muitas cores. Gostamos disso, embora o comum para nós sejam as cores mais clássicas. Com esse seu rosa vai ficar muito bom”! E ficou mesmo.
E as crianças uruguaias, como são? Bom, essas são todas iguais, existem as quietinhas e as espoletas em qualquer lugar do mundo. Sentada no parque, eu ouvia de uma mãe que passava: “para, você já me falou isso duzentas vezes”! De outra eu escutava: “Dá a mão”! E uma terceira trouxe aos meus ouvidos um “Vem aqui”! exasperado. Aí, quando você começa a entender as broncas que as mães dão nos filhos, passa também a acreditar, mesmo, que o seu desempenho na língua estrangeira está ficando realmente bom!
Enfim, voltei, e não só eu, agradavelmente impressionada e de certa maneira marcada pela suavidade alegre dos uruguaios.
sábado, 13 de setembro de 2014
Recuerdos Del Paisito: La Música
Assim que pus os pés no Uruguai pensei que escutaria muita música tradicional do país, mas isso não aconteceu tão imediatamente. Contudo, essa parte da conversa fica para uma crônica posterior. O que posso dizer é que, há uns dois anos mais ou menos, uma amiga pianista me disse: “Você precisa ir ao Uruguai, ouvir a musicalidade de lá e como é linda a predominância do piano em relação aos outros instrumentos, escutando tudo ser executado ali, na sua frente. É algo maravilhoso para nós, que tocamos”. Posteriormente, outros eventos foram se sucedendo e me encaminhando ao Uruguai, até que consegui concretizar isso.
Em busca, então, de conhecer a tão proclamada musicalidade uruguaia, fui a um espetáculo só para isso, em uma casa de shows muito bonita, El Milongón. A noite de música foi dividida em três blocos que, sucedendo-se de maneira bem definida, deram um panorama geral e de certo modo cronológico de como se formou e desenvolveu a musicalidade uruguaia, representados os seus momentos por grupos distintos de músicos e dançarinos, que traziam ao palco o que havia de melhor na manifestação musical específica a que se dedicavam. Vou descrever aqui cada um desses blocos, com um pouco do que ouvi, mas também, como não poderia deixar de ser, com algumas impressões próprias. Só advirto desde já que, para mim, fez falta no show a parte da milonga.
Iniciamos pelo componente folclórico, introduzidos à musicalidade gaúcha. Os gaúchos tocavam tambores, animicamente, recordando algo de influência indígena na musicalidade platina. Tocavam e dançavam, acompanhando com movimentos enérgicos, sincronizados, muito sonoros e bem ritmados de pés e palmas a cadência ancestral e bem marcada dos tambores. As coreografias mostravam, ora, as rivalidades entre os homens, provocando-se mutuamente, Ora ilustravam suas disputas pelas mulheres.
Em um segundo momento, ainda dentro da musicalidade gaúcha, o violão passou a entoar uma melodia melancólica, em tons menores, que para os meus ouvidos era uma guarânia ou algo parecido. Não sei dizer por que, mas desde que me conheço por gente, quando ouço os primeiros acordes lamentosos de alguma guarânia, me vem à mente algo de luar, de noite enluarada... Deve ser alguma lembrança infantil muito vaga, alguma história, um momento qualquer, que jamais vou identificar. A única coisa que sei é que, uma vez mais, essa lembrança veio me visitar, no Milongón.
Sucedendo-se à música gaúcha, foi chamado ao palco, com sua dramaticidade imponente, o señor Tango. Surgido a ambas as margens do Prata,em Rosário, Buenos Aires e Montevidéu, primeiramente foi ritmo restrito às zonas e cabarés, executado pelo violão e instrumentos de sopro. Incorporado o bandulión, de origem alemã, essa música dolente derivada da habanera cubana e do tango espanhol ganhou um toque de glamur, sem perder a sensualidade voluptuosa que primeiro a caracterizou.
Os tangos sempre me acompanharam. Meu avô me trouxe desde cedo essa influência, herdada de suas andanças platinas, quando montava máquinas. Foi emocionante demais ouvir aqueles tangos que ele cantarolava estalando os dedos e batendo os chinelos, cujos movimentos faziam tilintar a pulseira metálica do relógio, os tangos com os quais eu cresci, sendo tocados ali, no palco, a poucos passos de mim; ouvir o bandulión sendo aberto e fechado, enchendo-se e esvaziando-se o fole; ouvir ser libertada do piano aquela torrente de notas melodiosas, brilhantes e luzidias, enquanto os acordes, ora cheios, graves e possantes, ora suaves e discretos, esboçavam marcadamente dramas, saudades, amores, fracassos... E Elisa, a minha amiga pianista do começo desta crônica, tinha razão, em absoluto. O paraíso dos pianistas amantes do tango e da milonga, sem efeitos especiais, ali, na raça, é Montevidéu!
Para fechar a noite, uma manifestação musical uruguaia pouco conhecida dos brasileiros, o candombe. Manifestação originada como meio de comunicação, com a chegada dos escravos bantús ao Uruguai (da mesma região africana da qual foram trazidos escravos ao Brasil), o candombe é executado em conjunto por três tambores distintos: tambor chico, tambor repique e tambor piano, cada um com seu timbre particular, cuja junção, agrupadamente, se denomina cuerda. No Milongón assistimos à comparsa campeã do último carnaval uruguaio. O candombero que cantava, acompanhado pelos tamborileros e estimulando-os também a tocar, era parecidíssimo com o nosso Jair Rodrigues, em fisionomia, voz e expressões. As letras que cantava eram de uma jocosidade graciosa. Quando tocavam apenas os tambores, organizados em sua métrica nem sempre constante, recordavam algo dos tambores da Bahia. Quando passavam a ser acompanhados pelos acordes do piano, a musicalidade do candombe ganhava um toque caribenho.
E assim, nesse dia, consegui o que eu primeiro buscava: terminar a viagem me sentindo transbordante de Uruguai!
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Recuerdos Del Paisito: La Culinaria
Para definir em poucas palavras, no que diz respeito ao paladar, o Uruguai é um país onde, inegavelmente, se come bem; muito bem. Em se tratando dos pratos principais, a culinária uruguaia é composta predominantemente por receitas à base de carne de vaca, o que não surpreende, visto que o país tem 3,5 milhões de habitantes e cerca de 12 milhões de cabeças de gado. Contudo, cordeiro, frango e peixe também tèm lugar garantido, já que são por volta de 10 milhões as ovelhas e que o país, a Oeste, é banhado pelo Rio Uruguai, a Sudoeste está o estuário do Rio da Prata e a Sudeste o Oceano Atlântico. As batatas, principalmente fritas, também estão sempre presentes como acompanhamento, assim como as saladas.
O prato mais representativo da culinária do país é a parrillada, uma verdadeira tentação para os carnívoros de plantão: em uma grelha vertical com alguma inclinação, a parrilla, as carnes vão sendo assadas e esse processo pode ser observado. Normalmente estão presentes a carne, claro, o frango, a salsicha, a linguiça, a morcilla e também rins, que recebem o nome de chinchulín. O costume é que se consumam as carnes menos bem-passadas, mas isso pode ser conversado, bem como a troca de um item por um pouco mais de outro. No meu caso, troquei o chinchulín por mais carne; faltou coragem...
Algo que achei muito saboroso foi o chivito, um sanduíche que, em sua versão mais comum, leva pão de hambúrguer, carne, alface, tomate, queijo, ovo e maionese e vem acompanhado por uma porção de batatas fritas. Mas há outras versões com recheios variados. A maciez da carne é uma peculiaridade que poucas vezes vi aqui dessa forma. Me disseram que, pelo fato de o país ser predominantemente plano, o gado não precisa despender tanto esforço físico, estando, assim, mais relaxado, refletindo-se isso na textura da carne. Os brasileiros que me acompanhavam costumavam dizer que a sensação de cortar a carne no Uruguai era muito parecida com a sensação de cortar um pedaço de queijo. Para mim, que não sou carnívora por excelência e comi chivitos clássicos até não poder mais, a explicação faz todo o sentido. O sabor da carne uruguaia também é algo difícil de descrever, na melhor acepção da palavra. Creio que o chivito é um dos pratos dos quais mais vou sentir falta... Hummmm!!!
Ainda na seção sanduíches, o cachorro-quente, pancho no Uruguai, é bom também, embora menor e com menos ingredientes do que os que costumo ver aqui. Simples, mas classifico esse como um daqueles casos em que menos é mais: pão, salsicha, batata-palha, catchup, mostarda, maionese... Para mim, que pertenço à geração sanduíche-coca-cola, era algo impossível de perder.
Outro capítulo na culinária do Uruguai são as massas, sempre muito boas. Dada a grande presença de imigrantes no Uruguai desde o início de sua existência independente como país, creio, olhando os cardápios, que uma das maiores presenças imigrantes lá seja de italianos, porque é grande a quantidade e variedade de receitas de massa. Nem comento muito... Ai ai!!...
Uma curiosidade que segue uma tendência mundial depois das mais recentes descobertas científicas sobre os malefícios do sódio em excessso: está regulamentado por lei o não uso do sal, inclusive com campanhas publicitárias incentivando os uruguaios a diminuir ou cortar seu consumo. No entanto, os saleiros estão sempre à mesa, para suprir a falta que esse condimento faz a algumas pessoas.
Em se falando de bebidas, o mate, bebida por excelência dos gaúchos, ou melhor, dos gauchos, é consumido com a mesma espontaneidade e casualidade com que o cafezinho é consumido no Brasil. Estejam os uruguaios onde estiverem, façam o que fizerem, o mate os acompanha sempre. Nos mercados, é grande a profusão de marcas de erva-mate; muitas são as cuias, as bombas... De repente, você está passando por algum lugar na cidade e vê lá um quiosque onde se pode ferver a água, adquirir erva-mate, cuia, bomba, tudo o que seja necessário para que perdure sempre esse verdadeiro ritual de congraçamento entre o gaúcho e o mate.
E por falar em café... Bom, esse é um tópico difícil. Café no Uruguai é uma questão de sorte. Nos primeiros dias tive pouca; café aguado, fraco para o paladar brasileiro. Então comecei a estar mais atenta e descobri que, para tomar um bom café no Uruguai, é preciso ter o olfato sempre alerta. Se você chegar a um lugar e for recebido pelo aroma de café antes que qualquer pessoa note sua presença, então, vá em frente; satisfação garantida. Outra satisfação garantida naquele friozinho persistente é o chocolate quente; esse, imperdível em todos os lugares.
Uma bebida que merece destaque no Uruguai depois do mate é o vinho. Não sou o que se pode chamar de uma bebedora contumaz, mas assim mesmo creio estar fazendo uma boa indicação, não só pelo fato de que um dos passeios possíveis de ser feito é pela rota uruguaia do vinho, mas também por outro ponto curioso: em qualquer lugar onde houvesse um rádio ligado, um ouvinte atento poderia perceber a presença constante de propagandas de vinhos, de vinículas, de lugares que personalizam vinhos...O vinho que experimentei é o medio y medio, bebida típica uruguaia muito servida para acompanhar as carnes. Não sei como é feita a mistura, mas ela tem 50% de vinho e 50% de champanhe, uma combinação que resulta em um sabor particular, agradável ao paladar; por isso o nome da bebida: meio e meio. Muuuuuito bom!!!
E, por fim, os doces... Ah, os doces!... Difícil escolher qual é melhor do que o outro. Alfajores de todos os tipos: com doce-de-leite, com geleia, recobertos por chocolate ou não, com coco... Enfim, complicado saber qual o melhor. Muito gostosos também os suspiros, que aprendemos a conhecer como merengues, a mesma excelência valendo para o amendoim-doce. E os churros??? Essa é para quem cresceu assistindo ao Chaves: no quiosque, me senti como a turma do Chaves comendo churros: com chocolate (e não esse chocolate extremamente adocicado que temos aqui), com doce-de-leite e, acreditem se quiserem, mais comuns do que se imagina, sem recheio. Fiquei pasmada com a quantidade de pessoas que pedia churros sem recheio.
Deixei por último o croissant ou media luna, pelo fato de ela ser um dos pratos uruguaios presentes tanto entre as comidas salgadas como entre as sobremesas. Recheada com presunto e queijo, coberta por açúcar ou simplesmente sem recheio nem cobertura, era bastante comum ver alguém com uma media luna na mão, inclusive nós.
Ufa! Do que experimentamos, creio que não me esqueci de nada. Para quem estiver lendo, bom apetite!
O prato mais representativo da culinária do país é a parrillada, uma verdadeira tentação para os carnívoros de plantão: em uma grelha vertical com alguma inclinação, a parrilla, as carnes vão sendo assadas e esse processo pode ser observado. Normalmente estão presentes a carne, claro, o frango, a salsicha, a linguiça, a morcilla e também rins, que recebem o nome de chinchulín. O costume é que se consumam as carnes menos bem-passadas, mas isso pode ser conversado, bem como a troca de um item por um pouco mais de outro. No meu caso, troquei o chinchulín por mais carne; faltou coragem...
Algo que achei muito saboroso foi o chivito, um sanduíche que, em sua versão mais comum, leva pão de hambúrguer, carne, alface, tomate, queijo, ovo e maionese e vem acompanhado por uma porção de batatas fritas. Mas há outras versões com recheios variados. A maciez da carne é uma peculiaridade que poucas vezes vi aqui dessa forma. Me disseram que, pelo fato de o país ser predominantemente plano, o gado não precisa despender tanto esforço físico, estando, assim, mais relaxado, refletindo-se isso na textura da carne. Os brasileiros que me acompanhavam costumavam dizer que a sensação de cortar a carne no Uruguai era muito parecida com a sensação de cortar um pedaço de queijo. Para mim, que não sou carnívora por excelência e comi chivitos clássicos até não poder mais, a explicação faz todo o sentido. O sabor da carne uruguaia também é algo difícil de descrever, na melhor acepção da palavra. Creio que o chivito é um dos pratos dos quais mais vou sentir falta... Hummmm!!!
Ainda na seção sanduíches, o cachorro-quente, pancho no Uruguai, é bom também, embora menor e com menos ingredientes do que os que costumo ver aqui. Simples, mas classifico esse como um daqueles casos em que menos é mais: pão, salsicha, batata-palha, catchup, mostarda, maionese... Para mim, que pertenço à geração sanduíche-coca-cola, era algo impossível de perder.
Outro capítulo na culinária do Uruguai são as massas, sempre muito boas. Dada a grande presença de imigrantes no Uruguai desde o início de sua existência independente como país, creio, olhando os cardápios, que uma das maiores presenças imigrantes lá seja de italianos, porque é grande a quantidade e variedade de receitas de massa. Nem comento muito... Ai ai!!...
Uma curiosidade que segue uma tendência mundial depois das mais recentes descobertas científicas sobre os malefícios do sódio em excessso: está regulamentado por lei o não uso do sal, inclusive com campanhas publicitárias incentivando os uruguaios a diminuir ou cortar seu consumo. No entanto, os saleiros estão sempre à mesa, para suprir a falta que esse condimento faz a algumas pessoas.
Em se falando de bebidas, o mate, bebida por excelência dos gaúchos, ou melhor, dos gauchos, é consumido com a mesma espontaneidade e casualidade com que o cafezinho é consumido no Brasil. Estejam os uruguaios onde estiverem, façam o que fizerem, o mate os acompanha sempre. Nos mercados, é grande a profusão de marcas de erva-mate; muitas são as cuias, as bombas... De repente, você está passando por algum lugar na cidade e vê lá um quiosque onde se pode ferver a água, adquirir erva-mate, cuia, bomba, tudo o que seja necessário para que perdure sempre esse verdadeiro ritual de congraçamento entre o gaúcho e o mate.
E por falar em café... Bom, esse é um tópico difícil. Café no Uruguai é uma questão de sorte. Nos primeiros dias tive pouca; café aguado, fraco para o paladar brasileiro. Então comecei a estar mais atenta e descobri que, para tomar um bom café no Uruguai, é preciso ter o olfato sempre alerta. Se você chegar a um lugar e for recebido pelo aroma de café antes que qualquer pessoa note sua presença, então, vá em frente; satisfação garantida. Outra satisfação garantida naquele friozinho persistente é o chocolate quente; esse, imperdível em todos os lugares.
Uma bebida que merece destaque no Uruguai depois do mate é o vinho. Não sou o que se pode chamar de uma bebedora contumaz, mas assim mesmo creio estar fazendo uma boa indicação, não só pelo fato de que um dos passeios possíveis de ser feito é pela rota uruguaia do vinho, mas também por outro ponto curioso: em qualquer lugar onde houvesse um rádio ligado, um ouvinte atento poderia perceber a presença constante de propagandas de vinhos, de vinículas, de lugares que personalizam vinhos...O vinho que experimentei é o medio y medio, bebida típica uruguaia muito servida para acompanhar as carnes. Não sei como é feita a mistura, mas ela tem 50% de vinho e 50% de champanhe, uma combinação que resulta em um sabor particular, agradável ao paladar; por isso o nome da bebida: meio e meio. Muuuuuito bom!!!
E, por fim, os doces... Ah, os doces!... Difícil escolher qual é melhor do que o outro. Alfajores de todos os tipos: com doce-de-leite, com geleia, recobertos por chocolate ou não, com coco... Enfim, complicado saber qual o melhor. Muito gostosos também os suspiros, que aprendemos a conhecer como merengues, a mesma excelência valendo para o amendoim-doce. E os churros??? Essa é para quem cresceu assistindo ao Chaves: no quiosque, me senti como a turma do Chaves comendo churros: com chocolate (e não esse chocolate extremamente adocicado que temos aqui), com doce-de-leite e, acreditem se quiserem, mais comuns do que se imagina, sem recheio. Fiquei pasmada com a quantidade de pessoas que pedia churros sem recheio.
Deixei por último o croissant ou media luna, pelo fato de ela ser um dos pratos uruguaios presentes tanto entre as comidas salgadas como entre as sobremesas. Recheada com presunto e queijo, coberta por açúcar ou simplesmente sem recheio nem cobertura, era bastante comum ver alguém com uma media luna na mão, inclusive nós.
Ufa! Do que experimentamos, creio que não me esqueci de nada. Para quem estiver lendo, bom apetite!
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