terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Na Minha Biblioteca...
“Um livro aberto é um cérebro que fala; fechado, um amigo que espera; esquecido, uma alma que perdoa; destruído, um coração que chora”. (RabindranathTagore).
Escuto da janela cair essa chuva abençoada pela qual tanto esperamos depois de uma estiagem histórica e tão longa. Escuto ao mesmo tempo em que me lembro de uma notícia que vi ontem em um jornal na televisão. Dizia que choveu tanto no Rio Grande do Sul que, em uma escola, várias salas ficaram alagadas, inclusive a biblioteca. Olhando, minha avó contava que os livros das prateleiras inferiores literalmente boiavam, desamparados. (desamparados é por minha conta). Essa imagem me lembrou uma outra, que me acompanha desde que me mudei da casa onde morava, da qual acho que só vou conseguir dar conta depois que me sentar e fizer exatamente o que estou fazendo agora: escrever.
Tive uma infância, em certa medida, solitária. Cresci rodeada de adultos. Brinquedos? Eu os tinha de todos os tipos, mas passei meio que à margem da etapa do esconde-esconde, do pega-pega, da queimada, de pular corda e subir em árvore, coisas que as crianças da minha idade ainda faziam. Isso tudo só periodicamente, quando meu irmão vinha me ver com os meus pais. As crianças da rua, conheci pouco. Me fizeram companhia desde cedo a música e os livros. Desde que me conheço por gente, estou cantando ou tocando alguma coisa.
Quando voltava da escola, terminava os deveres e não queria mais as bonecas ou a música, eu ia ler. Na época, a única maneira como um cego podia ler era o método Braille. Os livros gravados em fitas e cds, os eletrônicos baixados no computador, os livros digitais vieram todos bem depois do momento em que essa história começa. Por isso, eu tinha que reler muitas coisas, pois um livro novo em Braille era coisa rara. No início, eu só tinha aqueles que minha avó mesma havia datilografado em Braille, da escola. Alguns anos depois passei a adquirir, bem devagar, em instituições especializadas, clássicos da literatura em Braille, que eu devorava imediatamente e guardava na estante correndo. Me lembro de reclamar para minha avó que todo mundo podia ir à livraria ou à biblioteca, escolher o que quisesse; eu não, e mesmo assim as pessoas da minha idade não queriam saber de ler. Ela tentava apaziguar, mas sabia que aquilo me deixava uma fera! Minha bisavó, que estudou só até a chamada quarta série, costumava dizer que eu jamais arrancasse uma página de um livro, porque se eu fizesse isso, ele iria chorar. Guardei esse conselho comigo toda a vida, porque para mim, todo livro novo que chega é um novo ente que vai me acompanhar, a partir do momento em que somos apresentados, ao longo da caminhada.
Quando eu tinha uns quinze anos, me lembro de ter visto os primeiros livros gravados em fitas cassete. Eu emprestava os livros da biblioteca e lia que lia; depois vieram os cds e eu lia que lia... Aos dezoito fiz meu primeiro trabalho da faculdade no computador. Um novo mundo, o da tecnologia, me abria de vez as portas. A universidade demandava títulos muito específicos da área das letras, que eu não encontrava em Braille nem gravados em lugar nenhum. Então, pessoas do meu convívio, amigos, parentes, liam os livros impressos em tinta que eu comprava e gravavam, e eu escutava. E junta que junta livro... E assim foi durante muitos anos, minha biblioteca ia crescendo. E ainda mais cresceu depois dos livros eletrônicos e digitais.
Até que chegou um dia ainda não muito distante, em que minha vida sofreu uma grande reviravolta; eu precisava me mudar para um apartamento. Não haveria espaço para guardar os livros em Braille e as fitas; o piano, também, eu precisaria vender; e vendi, para alguém que eu sabia que cuidaria bem dele. Os livros foram dispensados em todos os lugares onde tentei doá-los, inclusive em uma escola para cegos. Aproximava-se o dia da mudança e eu tinha que dar um destino a tudo aquilo que havia juntado... Depois de relutar muito, aceitei de má vontade a ideia de que os meus livros se tornariam alguma coisa reciclada... Coloquei tudo na garagem e pedi que me dispensassem dos momentos finais; eu não queria vê-los indo para a caminhonete. Fui atendida, subi para o meu quarto. Eu me lembrava de tudo o que minha avó datilografou para mim, de todas as fitas que tinham sido gravadas, dos rostos conhecidos que tinham feito as leituras, de todo o tempo que tinham dedicado, de todos os livros impressos em Braille que eu tinha lido e guardado em casa, caso tivesse vontade de ler de novo. Me lembrava dos meus amigos cegos que hoje não querem mais ler Braille por causa dos computadores; me lembrava da grande quantidade que conheço de professores que trabalham com o ensino de cegos e já me disseram com todas as letras que o ensino do Braille não é mais importante, isso aqui mesmo, em Limeira. Me sentia como aquelas mães desesperadas, que têm os bebês às escondidas, enrolam em um pano e colocam no lixo... E ainda hoje, quando penso nos livros que tive que abandonar às próprias más-sortes, na chuva, no sol, na sujeira pelas quais devem ter passado, é assim que me sinto. Aquele dia foi um dos de maior impotência que já vivi.
Conservei os cds, os livros impressos em tinta. Hoje compro muito menos, mas é só assim, com esses dois formatos de livros, a passos lentíssimos, que minha biblioteca ainda cresce. Só aqui entre nós: de vez em quando vou à estante, pego um livro que sei que não vou poder ler agora, e sinto o cheirinho de papel... Mudei-me para o apartamento. O piano agora é digital. Os livros da infância, da adolescência e da juventude ficaram na lembrança. Já me peguei várias vezes pedindo a Deus para conseguir preservar a qualquer custo os livros que restaram e o piano, seja lá para onde eu novamente tenha que ir... Não sei como seria se eu tivesse que passar por isso de novo.
E ontem me deparo com aqueles livros todos na tv, nadando na chuva... Senti que finalmente era hora de escrever, de me libertar; que eu finalmente teria forças e saberia o que dizer... E que finalmente, talvez, depois de tanto tempo passado, os meus entes-livros poderiam me perdoar...
sábado, 13 de dezembro de 2014
Uma Folha Verde
“Sim, eu quero saber. Saber para melhor sentir. Sentir para melhor saber”. (Paul Cézanne).
(Já que a reencontrei há poucas semanas, dedico estes escritos à tia Cleidi, que fez parte desse momento sem jamais saber a importância que ele tinha ou teria. Os dedico também à Mariana, para quem esta história, um dia, foi quase tão importante quanto o foi para mim).
Essa história foi uma memória durante muito tempo. Hoje, elaborada, contada informalmente algumas poucas vezes, está pronta para ser escrita. Ou seria sua protagonista quem está pronta para contá-la?... Não importa. De qualquer maneira, foi assim:
Um dia de escola de criança, aparentemente como qualquer outro. Tão comum que a garotinha não sabia que, dentro de poucos minutos, sucederia algo, não necessariamente ruim, mas que mudaria para sempre o entendimento que ela tinha de si mesma. A melhor amiga, em pé, lhe ofereceu a mão, que ela aceitou como em todos os dias, e se foram as duas para o parquinho, aproveitar a melhor parte do dia quando a gente tem seis anos: o recreio. Se comeu? Deve ter comido, ela não se lembrava. Permaneceu registrado daquele dia apenas um único acontecimento.
Sentaram-se na areia todas as crianças juntas em algazarra, com os baldinhos e aqueles rastelos todos, pás, conchas... Como sempre, a amiga diligentemente postada ao seu lado direito. Embora tivessem a mesma idade, ela estava sempre alerta para o que a outra precisasse. Precisava ir a algum lugar na escola: vamos. Precisava encontrar a escova de dentes no meio das outras: aqui. Precisava pegar o lápis da cor certa no estojo para fazer a atividade como a professora pedia: é esse, ó... E o lápis certo estava ali, ao alcance da sua mão esquerda.
E, assim, a tarde transcorria com tranquilidade. De repente, a garotinha teve a atenção atraída por um diálogo vindo de crianças ali perto:
- Olha, uma folha...
- Nossa! Que bonita!
- Que grande!
- É, olha só, que verde legal!!!
Largou o baldinho e as ferramentas e levantou a cabeça intrigada, monologando consigo mesma: grande, ta bom. Bonita, tudo bem. Mas, verde legal?! O que seria isso, um verde legal?
Pediu para ver a folha, que veio passando de mão em mão até chegar à sua. Tocou cada pedacinho; não viu nada de diferente, nada de textura de verde. Cheirou; nada; cheiro de areia, cheiro de folha, mas nada de cheiro de verde. Pôs perto do ouvido e tudo continuava igual, vai ver que o verde não tinha som. Devolveu a folha a alguém e fez em voz alta a pergunta que mobilizava seus pensamentos às crianças que se assentavam ali perto:
- Que que é isso, verde legal?
- Verde... Bom... Ah, assim... É legal, sabe? Bonito... Ah, verde... Oras, Yara, verde é verde, e pronto, ué...
Claro; que verde era verde e pronto ela já sabia. Como percebeu que daquele mato não sairia mais coelho, resolveu deixar pra lá, perguntar a uma pessoa que soubesse... Uma pessoa grande. Voltou para a areia e o baldinho até terminar o intervalo.
Chegou de novo à classe, sentou-se, esperou pacientemente que a professora passasse as atividades. Quando recebeu a sua e percebeu que todos já começavam a trabalhar, enquanto pegava o papel das mãos da professora, criou coragem e foi dizendo meio reticente:
- Ô tia... Eu queria perguntar uma coisa...
- O quê? – respondeu a professora, a um só tempo terminando de distribuir os papéis às crianças ali da mesma mesinha e virando-se um pouco para olhar a meninazinha que falava com ela, como quem tem um olho no gato e outro no peixe. – Pode perguntar.
- Ah, não - respondeu a garotinha. – Vem aqui perto, por favor, eu queria perguntar uma coisa séria.
- Ta bom, então espera um pouquinho só que a tia já volta.
Ah, essa história de esperar um pouquinho só ela já conhecia, mas tudo bem; sempre acabava dando certo mesmo; E deu.
- Pronto – veio dizendo a professora enquanto se aproximava veloz – To aqui, só pra saber a coisa séria que você queria perguntar... Pode falar.
E como criança dificilmente faz rodeios, a garotinha virou a cabeça para a esquerda, de onde vinha o som da voz da professora, levantou-a um pouquinho como fazia quando queria falar com ela e disparou de uma vez só:
- Tia, o que que é verde???
- O quê? – perguntou a professora como quem se esforça para sintonizar uma frequência certa.
- É isso mesmo que eu quero saber, o que que é verde??? – repetiu a garotinha com vivacidade determinada – É isso, pronto, o que que é verde?
Para surpresa da menina instalada na cadeirinha baixa, a professora, jovem e antes jovial como sempre, apoiou uma mão na mesa e veio baixando o corpo, séria, até sentar-se no chão ao seu lado; tudo isso muito devagar... Para ganhar tempo, quem sabe. Primeiro a calça jeans roçava a sua pele; depois o cabelo da professora, grosso, longo, crespo, forte, veio chegando perto... Mais perto... Passando pelo seu próprio cabelo, depois pelo seu rosto, e, de repente, pronto, a professora estava sentada, ali, pequenininha, igual a ela.
- Yarinha... Bom... O verde... Olha... Sabe, a tia acha melhor você perguntar isso pra vó quando chegar em casa hoje... Tudo bem?
- Ah, ta bom... Tudo bem... Você não sabe responder, né? Eu sei... A Lu também não sabia... Mas eu achei que você sabia... Sabe, tem um monte de gente aqui que não sabe o que que é verde...
A professora levantou-se desconsertada, talvez pela pergunta que ouvira, ou quem sabe pela resposta assustadoramente compreensiva que depois recebera da criança, e, caminhando atabalhoadamente, foi sentar-se à sua mesa, vindo de vez em quando para verificar o andamento das atividades dos alunos e sempre demorando-se um pouco mais ao lado da garotinha que tão decididamente a interpelara; talvez procurando alguma palavra que não surgiu em nenhum momento naquele dia.
A menina, por seu turno, queria chegar logo à casa, afinal, não era qualquer pessoa grande que servia para responder sua pergunta: tinha que ser a vó, que para ela era mãe e sempre seria; tinha que ser a vó, que sempre sabia tudo. Se a professora tinha dito para perguntar para a vó, então tinha mesmo que ser ela, não tinha jeito.
Finalmente lhe disseram que a avó tinha chegado e que ela podia ir. Chegou à casa, jantou, conversou, esperou. Quando conseguiu ficar sozinha com a avó, procurou as palavras para fazer a pergunta que queria e que já por duas vezes tinha ficado sem resposta, mas acabou usando as mesmas anteriormente tentadas naquele dia:
- Mãe, o que que é verde?
A avó-mãe, que nunca lhe tinha escondido nada, começou, devagar, mas resolutamente:
- Verde?... Bom, filha, senta aqui. Olha, o verde é uma cor bem bonita, das folhas, das matas... Algumas horas o mar também é verde. Mas acontece que você não vai conseguir ver o verde como as pessoas fazem, porque elas fazem isso com os olhos e os seus não funcionam. Lembra que eu te contei aquela história que o médico te deixou muito tempo no bercinho? Então, quando você saiu de lá, os seus olhos já não estavam mais funcionando. Eles estão aí, sabe, mas não funcionam. Como quando você quebra um brinquedo, ele continua aí, mas não funciona mais.
A menina fez um sinal de positivo com a cabeça – Entendi.
- Mas olha – continuou a avó – agora que você já sabe que os seus olhos não funcionam, que já entende o que eu quero dizer quando conto isso, vai me prometer que não vai ficar triste e que vai responder todas as perguntas que te fizerem, como você sempre tem feito, porque assim você aprende com as perguntas das pessoas e elas aprendem com as suas respostas. Não deixa nunca de responder, ta bom? O que você não souber, depois me pergunta, mas não deixa nunca de responder.
A menina concordou que assim estava bem e saiu. Continuou sem saber o que era o tal do verde legal, e agora já tinha entendido que não iria mesmo saber. Se a avó não tinha palavras para lhe explicar o que perguntava, ninguém mais as teria. Entendeu que se não saberia o verde, também não saberia o amarelo, o azul nem nenhuma das outras cores. Cresceu e continua sem saber, mas não desistiu ainda de perguntar. Porém, agora, cada tentativa de resposta de alguém é um pouquinho mais de cor que ela consegue juntar. Agora, de cada cor já tem uma ideia; Agora é como se cada tentativa de cada pessoa deixasse cada cor um pouco mais colorida. Agora ela já sabe que nunca vai chegar ao fim da busca, mas sabe também que, até o último dia, vai continuar tentando.
(Já que a reencontrei há poucas semanas, dedico estes escritos à tia Cleidi, que fez parte desse momento sem jamais saber a importância que ele tinha ou teria. Os dedico também à Mariana, para quem esta história, um dia, foi quase tão importante quanto o foi para mim).
Essa história foi uma memória durante muito tempo. Hoje, elaborada, contada informalmente algumas poucas vezes, está pronta para ser escrita. Ou seria sua protagonista quem está pronta para contá-la?... Não importa. De qualquer maneira, foi assim:
Um dia de escola de criança, aparentemente como qualquer outro. Tão comum que a garotinha não sabia que, dentro de poucos minutos, sucederia algo, não necessariamente ruim, mas que mudaria para sempre o entendimento que ela tinha de si mesma. A melhor amiga, em pé, lhe ofereceu a mão, que ela aceitou como em todos os dias, e se foram as duas para o parquinho, aproveitar a melhor parte do dia quando a gente tem seis anos: o recreio. Se comeu? Deve ter comido, ela não se lembrava. Permaneceu registrado daquele dia apenas um único acontecimento.
Sentaram-se na areia todas as crianças juntas em algazarra, com os baldinhos e aqueles rastelos todos, pás, conchas... Como sempre, a amiga diligentemente postada ao seu lado direito. Embora tivessem a mesma idade, ela estava sempre alerta para o que a outra precisasse. Precisava ir a algum lugar na escola: vamos. Precisava encontrar a escova de dentes no meio das outras: aqui. Precisava pegar o lápis da cor certa no estojo para fazer a atividade como a professora pedia: é esse, ó... E o lápis certo estava ali, ao alcance da sua mão esquerda.
E, assim, a tarde transcorria com tranquilidade. De repente, a garotinha teve a atenção atraída por um diálogo vindo de crianças ali perto:
- Olha, uma folha...
- Nossa! Que bonita!
- Que grande!
- É, olha só, que verde legal!!!
Largou o baldinho e as ferramentas e levantou a cabeça intrigada, monologando consigo mesma: grande, ta bom. Bonita, tudo bem. Mas, verde legal?! O que seria isso, um verde legal?
Pediu para ver a folha, que veio passando de mão em mão até chegar à sua. Tocou cada pedacinho; não viu nada de diferente, nada de textura de verde. Cheirou; nada; cheiro de areia, cheiro de folha, mas nada de cheiro de verde. Pôs perto do ouvido e tudo continuava igual, vai ver que o verde não tinha som. Devolveu a folha a alguém e fez em voz alta a pergunta que mobilizava seus pensamentos às crianças que se assentavam ali perto:
- Que que é isso, verde legal?
- Verde... Bom... Ah, assim... É legal, sabe? Bonito... Ah, verde... Oras, Yara, verde é verde, e pronto, ué...
Claro; que verde era verde e pronto ela já sabia. Como percebeu que daquele mato não sairia mais coelho, resolveu deixar pra lá, perguntar a uma pessoa que soubesse... Uma pessoa grande. Voltou para a areia e o baldinho até terminar o intervalo.
Chegou de novo à classe, sentou-se, esperou pacientemente que a professora passasse as atividades. Quando recebeu a sua e percebeu que todos já começavam a trabalhar, enquanto pegava o papel das mãos da professora, criou coragem e foi dizendo meio reticente:
- Ô tia... Eu queria perguntar uma coisa...
- O quê? – respondeu a professora, a um só tempo terminando de distribuir os papéis às crianças ali da mesma mesinha e virando-se um pouco para olhar a meninazinha que falava com ela, como quem tem um olho no gato e outro no peixe. – Pode perguntar.
- Ah, não - respondeu a garotinha. – Vem aqui perto, por favor, eu queria perguntar uma coisa séria.
- Ta bom, então espera um pouquinho só que a tia já volta.
Ah, essa história de esperar um pouquinho só ela já conhecia, mas tudo bem; sempre acabava dando certo mesmo; E deu.
- Pronto – veio dizendo a professora enquanto se aproximava veloz – To aqui, só pra saber a coisa séria que você queria perguntar... Pode falar.
E como criança dificilmente faz rodeios, a garotinha virou a cabeça para a esquerda, de onde vinha o som da voz da professora, levantou-a um pouquinho como fazia quando queria falar com ela e disparou de uma vez só:
- Tia, o que que é verde???
- O quê? – perguntou a professora como quem se esforça para sintonizar uma frequência certa.
- É isso mesmo que eu quero saber, o que que é verde??? – repetiu a garotinha com vivacidade determinada – É isso, pronto, o que que é verde?
Para surpresa da menina instalada na cadeirinha baixa, a professora, jovem e antes jovial como sempre, apoiou uma mão na mesa e veio baixando o corpo, séria, até sentar-se no chão ao seu lado; tudo isso muito devagar... Para ganhar tempo, quem sabe. Primeiro a calça jeans roçava a sua pele; depois o cabelo da professora, grosso, longo, crespo, forte, veio chegando perto... Mais perto... Passando pelo seu próprio cabelo, depois pelo seu rosto, e, de repente, pronto, a professora estava sentada, ali, pequenininha, igual a ela.
- Yarinha... Bom... O verde... Olha... Sabe, a tia acha melhor você perguntar isso pra vó quando chegar em casa hoje... Tudo bem?
- Ah, ta bom... Tudo bem... Você não sabe responder, né? Eu sei... A Lu também não sabia... Mas eu achei que você sabia... Sabe, tem um monte de gente aqui que não sabe o que que é verde...
A professora levantou-se desconsertada, talvez pela pergunta que ouvira, ou quem sabe pela resposta assustadoramente compreensiva que depois recebera da criança, e, caminhando atabalhoadamente, foi sentar-se à sua mesa, vindo de vez em quando para verificar o andamento das atividades dos alunos e sempre demorando-se um pouco mais ao lado da garotinha que tão decididamente a interpelara; talvez procurando alguma palavra que não surgiu em nenhum momento naquele dia.
A menina, por seu turno, queria chegar logo à casa, afinal, não era qualquer pessoa grande que servia para responder sua pergunta: tinha que ser a vó, que para ela era mãe e sempre seria; tinha que ser a vó, que sempre sabia tudo. Se a professora tinha dito para perguntar para a vó, então tinha mesmo que ser ela, não tinha jeito.
Finalmente lhe disseram que a avó tinha chegado e que ela podia ir. Chegou à casa, jantou, conversou, esperou. Quando conseguiu ficar sozinha com a avó, procurou as palavras para fazer a pergunta que queria e que já por duas vezes tinha ficado sem resposta, mas acabou usando as mesmas anteriormente tentadas naquele dia:
- Mãe, o que que é verde?
A avó-mãe, que nunca lhe tinha escondido nada, começou, devagar, mas resolutamente:
- Verde?... Bom, filha, senta aqui. Olha, o verde é uma cor bem bonita, das folhas, das matas... Algumas horas o mar também é verde. Mas acontece que você não vai conseguir ver o verde como as pessoas fazem, porque elas fazem isso com os olhos e os seus não funcionam. Lembra que eu te contei aquela história que o médico te deixou muito tempo no bercinho? Então, quando você saiu de lá, os seus olhos já não estavam mais funcionando. Eles estão aí, sabe, mas não funcionam. Como quando você quebra um brinquedo, ele continua aí, mas não funciona mais.
A menina fez um sinal de positivo com a cabeça – Entendi.
- Mas olha – continuou a avó – agora que você já sabe que os seus olhos não funcionam, que já entende o que eu quero dizer quando conto isso, vai me prometer que não vai ficar triste e que vai responder todas as perguntas que te fizerem, como você sempre tem feito, porque assim você aprende com as perguntas das pessoas e elas aprendem com as suas respostas. Não deixa nunca de responder, ta bom? O que você não souber, depois me pergunta, mas não deixa nunca de responder.
A menina concordou que assim estava bem e saiu. Continuou sem saber o que era o tal do verde legal, e agora já tinha entendido que não iria mesmo saber. Se a avó não tinha palavras para lhe explicar o que perguntava, ninguém mais as teria. Entendeu que se não saberia o verde, também não saberia o amarelo, o azul nem nenhuma das outras cores. Cresceu e continua sem saber, mas não desistiu ainda de perguntar. Porém, agora, cada tentativa de resposta de alguém é um pouquinho mais de cor que ela consegue juntar. Agora, de cada cor já tem uma ideia; Agora é como se cada tentativa de cada pessoa deixasse cada cor um pouco mais colorida. Agora ela já sabe que nunca vai chegar ao fim da busca, mas sabe também que, até o último dia, vai continuar tentando.
terça-feira, 18 de novembro de 2014
Recuerdos Del Paisito: ¿Qué Uruguay Tiene De Brasil?
Bem, ao que parece, esta é a última das últimas crônicas sobre o Uruguai. Começo a escrever, recordo o vivido e o relatado e constato que os dias no paisito já vão mesmo ficando longe... Só consegui mantê-los por perto até agora por causa das crônicas, sei disso. Mas chegada a hora da última delas, não há como não notar a passagem implacável do tempo. Consulto o caderninho de anotações; vejo que tudo, rigorosamente tudo foi contado.
Assim, para me despedir dos intrépidos brasileiros e uruguaios leitores desta série despretensiosa de crônicas, dedico-me a mostrar, afinal de contas, que traços o Uruguai guarda do Brasil; ao menos alguns deles, os que pude notar ao longo de uma semana. Porque há, sim, em muitas ocasiões, elementos que trazem de volta o Brasil aos brasileiros que passeiam ou mesmo moram no Uruguai.
Para começar, não é nada difícil ouvir o som do português brasileiro no Uruguai. Quase em todo lugar onde se chega, em muitas das esquinas que se dobra, se um brasileiro apurar o ouvido, muito certamente ouvirá o acento familiar de sua terra, principalmente nas áreas mais turísticas do país, agora que os brasileiros vêm cada vez mais descobrindo as belezas do Uruguai e a hospitalidade tranquila, cortês, discreta e sempre atenta dos uruguaios. Os ônibus de turismo, por exemplo, têm mais brasileiros do que qualquer outra coisa... Prova disso é que saí daqui de Limeira e, fazendo o citytour de Montevidéu, no segundo dia da viagem, conheci um casal de Brasileiros de Sampa, Alessandra e José Eduardo (acompanhados pela mãe dela, Ana). E tinha que ser naquele dia, naquela hora, porque depois do almoço partiram para Punta Del Este, tomando nossas viagens rumos bem diferentes, e não mais os vi. Contudo, apesar do pouco tempo, trocamos ideias, contatos e sempre estamos nos falando... Mundo pequeno...
Mas, como eu dizia, quando a gente diz que é brasileiro no Uruguai, na grande maioria das vezes, o interlocutor abre um sorriso e se abre por inteiro; conta o que conhece do Brasil; diz que já está acostumado à alegria ruidosa dos brasileiros; faz perguntas, quer saber, faz o máximo possível para aproximar-se do português se percebe que não é entendido em espanhol. Isso quando os uruguaios não falam o português mesmo, principalmente os gaúchos da fronteira ou aqueles que por alguma razão têm uma ligação estreita com o Brasil.
Outro traço brasileiro sempre presente no Uruguai é a música: da sertaneja à mpb, passando pelo chorinho e outros gêneros mais, o português brasileiro cantado está sempre saindo dos auto-falantes, assim como os ritmos quebradinhos e as melodias dissonantes tão típicas do Brasil. Inclusive, não poucas vezes ouvi uruguaios cantando em português. E isso tudo lá, bem longe do Norte, bem distante da fronteira com o Brasil. Cheguei mesmo a ouvir no rádio um anúncio de um show da Gal Costa que aconteceria em Montevidéu em poucos dias, cujos ingressos estavam sendo vendidos.
E como não poderia deixar de ser, a presença das novelas brasileiras se faz sentir fortemente no Uruguai. Dubladas em espanhol, claro, como fazemos com as mexicanas aqui, mas sempre há uma oportunidade para um brasileiro encontrar uma de suas novelas para assistir, se tiver um tempinho de passar pelos canais. E, claro, temas brasileiros também andam pelos noticiários. No meu caso, ouvi sobre a eleição presidencial, quando a candidata Marina Silva estava no auge de sua campanha e de sua popularidade.
Enfim, para todos os brasileiros com os quais cruzei no Uruguai por alguma razão, de passagem, a palavra que mais frequentemente resumia o país e o povo era satisfação. Quanto a mim, penso que a palavra que melhor os resume seja afetividade; palavra não, expressão. Afetividade cálida é a expressão que melhor os resume. E levada por essa afetividade, um dia, eu volto... Quem sabe?! Assim, para encurtar a despedida que não aprecio, termino a crônica e a série simplesmente com um “até breve”!
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
Recuerdos Del Paisito: Uruguay, Un Poco De Sociopolítica
Uma das coisas que notei com simpatia ao passar uma semana entre os uruguaios foi a maneira genuína como falam de seu país, como prezam seu chão, seu lugar no mundo. É claro que escrevo como uma observadora estrangeira, turista, que teve pouco tempo para poder ficar ao par das coisas, mas penso que não se trata nem do patriotismo exacerbado que muitas vezes parece caracterizar os estadunidenses, nem da falta de patriotismo que infelizmente acomete o Brasil, característica que só se modifica aqui quase que exclusivamente durante as copas do mundo. Esse papo de que o gigante acordou é balela; ele está, novamente e por tempo indefinido, no mesmo estado letárgico do qual saiu momentaneamente no ano passado. Recentemente li um artigo que definia o Uruguai como um país de grandeza discreta, e é asssim, discretamente, que os uruguaios descrevem as conquistas de seu país; discreta porém alegremente, com reconhecimento. Valorizam o que conseguiram, satisfeitos pela caminhada, mas sempre de olhos postos no futuro, criticamente, com a humildade que lhes é tão característica, sabendo que é preciso agir firmemente para que as recompensas venham e para que a maior quantidade possível de problemas possa ser evitada, no curto, médio e longo prazo.
Na crônica anterior a esta, em que abri alas ao general Artigas, foi possível perceber, examinando mais detidamente sua figura, como o Uruguai, desde seu início, caracterizou-se ou tentou caracterizar-se por uma postura integracionista de nação. Basta, para isso, recordar que artigas tinha seguidores de diversas proscedências, que muitas vezes professavam sua fé de maneira distinta uns dos outros e provinham de diferentes estratos sociais. Não estou aqui dizendo que isso tenha dado certo sempre, nada dá sempre certo, até por essa ser uma questão de pontos de vista. Mas a postura integracionista foi a opção escolhida pelos uruguaios várias vezes ao longo do caminho e parece ter sido exitosa em muitas ocasiões, como deve ter sido possível notar àqueles que me acompanharam até aqui.
Essa postura integracionista de nação pode ser constatada e confirmada por outros indícios além da figura do prócer da pátria uruguaia. Vejamos: o Uruguai é um país que não tem religião oficial prevista em constituição, embora uma parcela significativa de sua população remeta à tradição católica. Esses modos laicizantes proporcionam que a igreja não interfira decisivamente nas iniciativas civis do país. Disso resulta um debate democraticamente saudável, que trata a religião como uma das facetas a ser analisada nas situações, mas não de maneira predominante. Tal debate só está arraigado e definido tão fortemente na política uruguaia porque aparece já na vida cotidiana do país. Essa tendência pode ser percebida, por exemplo, quando em um romance como A Trégua, o consagrado escritor uruguaio Mario Benedetti mescla a suas reflexões políticas e/ou cotidianas um debate entre os dois protagonistas – namorados e com uma diferença grande de idade. Ambos, sentados na praia vazia, olham as ondas escuras e dialogam sobre a possibilidade ou não da existência de Deus: ele, racionalmente, defendendo que Deus não existe. Ela, sem precisar de comprovações para sua fé, sustentando que sim, ele existe e está em tudo e em cada coisa. Esse é um lance no relacionamento dos dois, mas trata-se de uma diferença que, embora exista dentro do casal e da obra literária em si, não é decisiva para o desfecho da trama. O livro se nos apresenta como uma microrrepresentação do próprio país.
Quanto à educação, no Uruguai ela é laica, além de obrigatória e gratuita, do ensino elementar ao superior, praticamente inexistindo o analfabetismo no país. E quando digo educação não me refiro a esse arremedo estatístico de escolarização global que temos, em que uma porcentagem imensa dos alunos é posta na escola graças a pífias recompensas monetárias governamentais e uma grandessíssima parte deles a frequenta sem aprender o que deve, nem da maneira como deve. O uruguaio é um povo politizado, consciente de seus deveres e direitos, crítico, desde o motorista ao empresário, e isso só se consegue com educação de qualidade.
Essa mentalidade crítica formada desde cedo e de maneira ampla e irrestrita entre a população do país deu lugar, desde logo na história, a posturas legais distintas que fazem do Uruguai um país de vanguarda. Em 1907, torna-se o primeiro país latino-americano a legalizar o divórcio, permitindo, ainda, que essa fosse uma iniciativa feminina já em 1913. Em 1932, passa a ser o segundo país a reconhecer o direito ao sufrágio feminino. No entanto, a aprovação e vigor de leis vanguardistas não significam que essas leis recebam 100% da aprovação dos uruguaios; aliás, em nome de uma real democracia, é muito bom que assim seja. Em 2013, torna-se o terceiro país latino-americano a permitir o aborto nas doze primeiras semanas de gravidez, apenas uma das medidas polêmicas aprovadas durante o governo do atual presidente, José Mujica, que lhe trouxeram críticas severas por parte de setores mais conservadores da sociedade. Também em 2013 o Uruguai se coloca como o segundo país sul-americano a aprovar o casamento igualitário, permitindo ainda o ingresso de homossexuais nas forças armadas. Retrocedendo um pouco na história, no princípio do século XX regula o consumo e venda do álcool, revertendo seus lucros à saúde pública, e em 2013 passa a ser o primeiro país do mundo a legalizar a produção, venda e distribuição da maconha sob o controle do Estado, medida que tem suscitado discussões calorosas no país.
O presidente Mujica goza de uma popularidade alta. Permite que pessoas socialmente menos favorecidas habitem o palácio onde deveria viver; usa apenas uma parte mínima de seu salário; vive em uma casa modesta e dirige um fusca azul. É conhecido por seu estilo austero de vida. Embora admirado por grande parte daqueles que governa, também há uruguaios que se perguntam por que seu mandatário adota esse estilo em que aos mais humildes é dado apenas o básico do básico; por que não se pode estender a eles também outras comodidades que, em nossos dias,são necessárias a um mínimo de conforto.
O fato é que, ao que tudo indica, José Mujica, que não pode reeleger-se, pois não existe esse mecanismo eleitoral nas leis uruguaias, conseguirá ajudar a eleger o candidato de seu partido – a coalisão de esquerda Frente Ampla. Trata-se do ex-presidente Tabaré Vázquez que, de acordo com as pesquisas, deverá voltar a governar seu país. Cabe salientar que, embora do mesmo partido, há diferenças visíveis entre os modos de governar de Mujica e Vázquez, o que, a se confirmar aquilo que predizem as pesquisas, deve preconizar mudanças em determinados rumos do país. No exato dia em que tivemos o segundo turno de nossas eleições presidenciais, os uruguaios votaram em primeiro turno para começar a decidir quem os governará pelos próximos cinco anos. Porém, as semelhanças param por aí. Enquanto aqui temos mais de trinta partidos políticos que parecem não atender a nenhuma outra ideologia que não seja a dos interesses próprios de cada candidato, estabelecendo coligações absurdas e alianças ideologicamente impensáveis às pessoas de algum senso, no Uruguai os partidos políticos são três, ideologicamente bem distintos, fenômeno que deveria verificar-se em qualquer país com intenções políticas realmente sérias. Lá, quando um candidato troca de partido, ele tem apenas duas opções: começar um novo partido do zero ou aposentar-se definitivamente da política. Evita-se, assim, esse troca-troca promíscuo de partidos que ocorre em certos lugares que nos são de alguma forma familiares.
Como em todos os países do mundo, governados pelos mais diferentes regimes, há pontos que os uruguaios gostariam de melhorar, de modificar, porque sempre vão haver e têm que haver; porque a estagnação é daninha em qualquer campo da vida. O que realmente me impressiona é saber que logo aqui, pertinho, há um lugar politicamente tão distinto, porque a vontade política é quase tudo quando se trata do bom governo de um país.
Bem à moda de Platão, termino este texto esboçando apenas um breve e despretensioso panorama, até porque a unanimidade dificilmente existe além do próprio vocábulo que a define. No entanto, dialogando platonicamente com os possíveis leitores desta crônica, deixo no ar uma pergunta: como um país pequeno, com pouca diversidade de fontes de renda, consegue fazer tanto, por exemplo, no que diz respeito à educação, isso para não mencionar outras áreas, enquanto que nós, um país de duzentos e poucos milhões de habitantes, farto em espaço e recursos capazes de fazer a economia girar, estatisticamente fazemos tanto e continuamos fazendo essencialmente tão pouco? A resposta pode ser dada mentalmente mesmo, pelos leitores aí do outro lado da telinha; um belo caso para se pensar... Eu, por minha parte, já tenho uma teoria; já vislumbro uma resposta.
Na crônica anterior a esta, em que abri alas ao general Artigas, foi possível perceber, examinando mais detidamente sua figura, como o Uruguai, desde seu início, caracterizou-se ou tentou caracterizar-se por uma postura integracionista de nação. Basta, para isso, recordar que artigas tinha seguidores de diversas proscedências, que muitas vezes professavam sua fé de maneira distinta uns dos outros e provinham de diferentes estratos sociais. Não estou aqui dizendo que isso tenha dado certo sempre, nada dá sempre certo, até por essa ser uma questão de pontos de vista. Mas a postura integracionista foi a opção escolhida pelos uruguaios várias vezes ao longo do caminho e parece ter sido exitosa em muitas ocasiões, como deve ter sido possível notar àqueles que me acompanharam até aqui.
Essa postura integracionista de nação pode ser constatada e confirmada por outros indícios além da figura do prócer da pátria uruguaia. Vejamos: o Uruguai é um país que não tem religião oficial prevista em constituição, embora uma parcela significativa de sua população remeta à tradição católica. Esses modos laicizantes proporcionam que a igreja não interfira decisivamente nas iniciativas civis do país. Disso resulta um debate democraticamente saudável, que trata a religião como uma das facetas a ser analisada nas situações, mas não de maneira predominante. Tal debate só está arraigado e definido tão fortemente na política uruguaia porque aparece já na vida cotidiana do país. Essa tendência pode ser percebida, por exemplo, quando em um romance como A Trégua, o consagrado escritor uruguaio Mario Benedetti mescla a suas reflexões políticas e/ou cotidianas um debate entre os dois protagonistas – namorados e com uma diferença grande de idade. Ambos, sentados na praia vazia, olham as ondas escuras e dialogam sobre a possibilidade ou não da existência de Deus: ele, racionalmente, defendendo que Deus não existe. Ela, sem precisar de comprovações para sua fé, sustentando que sim, ele existe e está em tudo e em cada coisa. Esse é um lance no relacionamento dos dois, mas trata-se de uma diferença que, embora exista dentro do casal e da obra literária em si, não é decisiva para o desfecho da trama. O livro se nos apresenta como uma microrrepresentação do próprio país.
Quanto à educação, no Uruguai ela é laica, além de obrigatória e gratuita, do ensino elementar ao superior, praticamente inexistindo o analfabetismo no país. E quando digo educação não me refiro a esse arremedo estatístico de escolarização global que temos, em que uma porcentagem imensa dos alunos é posta na escola graças a pífias recompensas monetárias governamentais e uma grandessíssima parte deles a frequenta sem aprender o que deve, nem da maneira como deve. O uruguaio é um povo politizado, consciente de seus deveres e direitos, crítico, desde o motorista ao empresário, e isso só se consegue com educação de qualidade.
Essa mentalidade crítica formada desde cedo e de maneira ampla e irrestrita entre a população do país deu lugar, desde logo na história, a posturas legais distintas que fazem do Uruguai um país de vanguarda. Em 1907, torna-se o primeiro país latino-americano a legalizar o divórcio, permitindo, ainda, que essa fosse uma iniciativa feminina já em 1913. Em 1932, passa a ser o segundo país a reconhecer o direito ao sufrágio feminino. No entanto, a aprovação e vigor de leis vanguardistas não significam que essas leis recebam 100% da aprovação dos uruguaios; aliás, em nome de uma real democracia, é muito bom que assim seja. Em 2013, torna-se o terceiro país latino-americano a permitir o aborto nas doze primeiras semanas de gravidez, apenas uma das medidas polêmicas aprovadas durante o governo do atual presidente, José Mujica, que lhe trouxeram críticas severas por parte de setores mais conservadores da sociedade. Também em 2013 o Uruguai se coloca como o segundo país sul-americano a aprovar o casamento igualitário, permitindo ainda o ingresso de homossexuais nas forças armadas. Retrocedendo um pouco na história, no princípio do século XX regula o consumo e venda do álcool, revertendo seus lucros à saúde pública, e em 2013 passa a ser o primeiro país do mundo a legalizar a produção, venda e distribuição da maconha sob o controle do Estado, medida que tem suscitado discussões calorosas no país.
O presidente Mujica goza de uma popularidade alta. Permite que pessoas socialmente menos favorecidas habitem o palácio onde deveria viver; usa apenas uma parte mínima de seu salário; vive em uma casa modesta e dirige um fusca azul. É conhecido por seu estilo austero de vida. Embora admirado por grande parte daqueles que governa, também há uruguaios que se perguntam por que seu mandatário adota esse estilo em que aos mais humildes é dado apenas o básico do básico; por que não se pode estender a eles também outras comodidades que, em nossos dias,são necessárias a um mínimo de conforto.
O fato é que, ao que tudo indica, José Mujica, que não pode reeleger-se, pois não existe esse mecanismo eleitoral nas leis uruguaias, conseguirá ajudar a eleger o candidato de seu partido – a coalisão de esquerda Frente Ampla. Trata-se do ex-presidente Tabaré Vázquez que, de acordo com as pesquisas, deverá voltar a governar seu país. Cabe salientar que, embora do mesmo partido, há diferenças visíveis entre os modos de governar de Mujica e Vázquez, o que, a se confirmar aquilo que predizem as pesquisas, deve preconizar mudanças em determinados rumos do país. No exato dia em que tivemos o segundo turno de nossas eleições presidenciais, os uruguaios votaram em primeiro turno para começar a decidir quem os governará pelos próximos cinco anos. Porém, as semelhanças param por aí. Enquanto aqui temos mais de trinta partidos políticos que parecem não atender a nenhuma outra ideologia que não seja a dos interesses próprios de cada candidato, estabelecendo coligações absurdas e alianças ideologicamente impensáveis às pessoas de algum senso, no Uruguai os partidos políticos são três, ideologicamente bem distintos, fenômeno que deveria verificar-se em qualquer país com intenções políticas realmente sérias. Lá, quando um candidato troca de partido, ele tem apenas duas opções: começar um novo partido do zero ou aposentar-se definitivamente da política. Evita-se, assim, esse troca-troca promíscuo de partidos que ocorre em certos lugares que nos são de alguma forma familiares.
Como em todos os países do mundo, governados pelos mais diferentes regimes, há pontos que os uruguaios gostariam de melhorar, de modificar, porque sempre vão haver e têm que haver; porque a estagnação é daninha em qualquer campo da vida. O que realmente me impressiona é saber que logo aqui, pertinho, há um lugar politicamente tão distinto, porque a vontade política é quase tudo quando se trata do bom governo de um país.
Bem à moda de Platão, termino este texto esboçando apenas um breve e despretensioso panorama, até porque a unanimidade dificilmente existe além do próprio vocábulo que a define. No entanto, dialogando platonicamente com os possíveis leitores desta crônica, deixo no ar uma pergunta: como um país pequeno, com pouca diversidade de fontes de renda, consegue fazer tanto, por exemplo, no que diz respeito à educação, isso para não mencionar outras áreas, enquanto que nós, um país de duzentos e poucos milhões de habitantes, farto em espaço e recursos capazes de fazer a economia girar, estatisticamente fazemos tanto e continuamos fazendo essencialmente tão pouco? A resposta pode ser dada mentalmente mesmo, pelos leitores aí do outro lado da telinha; um belo caso para se pensar... Eu, por minha parte, já tenho uma teoria; já vislumbro uma resposta.
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
Recuerdos Del Paisito: El General Artigas
Tendo chegado ao fim a viagem propriamente dita, com os lugares, paisagens, peculiaridades, pessoas que conheci no Uruguai, quase tudo já devidamente descrito e bem-guardado, devo começar a me despedir. No entanto, esta não será uma despedida breve. Minhas últimas três crônicas serão bastante pessoais: duas sobre como se originou e vem desenvolvendo esse pequeno e aprazível país e a última sobre aquilo que percebi que o Uruguai tem de Brasil, porque é muito provável e possível, quase inevitável, que um brasileiro que vá até lá se sinta em casa.
Iniciando então o fechamento desta série sobre o “Paisito”, me cabe falar a respeito de um personagem tratado no Uruguai com solenidade a um só tempo terna e reverente, cuja história é um mosaico mesclado de Europa e Banda Oriental: o general Artigas, prócer da pátria. O Uruguai laico, liberal e vanguardista de hoje, em certa medida, deve muito às ideias, por que não dizer, revolucionárias de seu herói nacional.
José Gervasio Artigas nasceu em Montevidéu, em 1764, proveniente de uma fidalga família espanhola. Nesse tempo, as terras a Leste do Rio Uruguai – Banda Oriental -, eram disputadas pelos impérios espanhol e português, por conta dos imensos rebanhos de gado e cavalos selvagens existentes no pampa. Ao redor de Montevidéu alargava-se a vasta campanha plana e verdejante. Conta-se que, lá pelos catorze anos, Artigas deixou sua casa na cidadela, reaparecendo anos depois, liderando índios charruas, minuanos e guaranis, bem como desertores espanhóis e portugueses e escravos fugidos. Todos esses eram os seguidores multiétnicos com os quais passou a conviver, chamados, em espanhol, de gauchos, e de gaúchos em português.
Aos trinta e três anos entrou para o serviço da Coroa Espanhola. Naquele país, em 1808, consolidando seu plano de tomar posse da Europa, Napoleão Bonaparte invade a Espanha, depõe o rei Carlos IV e entrega o trono usurpado a seu irmão José Bonaparte, enquanto a família real portuguesa se instala no Brasil, fugindo a destino similar.O caos instaurado na Espanha abre brecha às lutas de independência de suas colônias na América. Os atuais Paraguai, Peru, Chile, Argentina, Uruguai e fatias do que hoje é o Rio Grande do Sul declaram independência em 1810, formando a Junta de Buenos Aires. O governo de Montevidéu declara lealdade à Espanha.
Em 1811 Artigas deserta do exército espanhol e se une aos revolucionários com seu próprio exército gaucho. De seu cavalo, o general reunia combatentes por onde passava. Combatentes e suas famílias. Aquela nação nômade que se formava seguia seu líder por onde quer que ele fosse. Trajando endumentária gaucha, o general de olhos esverdeados, expressão sisuda e rosto bronzeado de sol pregava a liberdade civil e religiosa e a cessão de terras aos índios. As formações espanholas, estabelecidas de maneira lenta e disciplinada, eram sorrateiramente atacadas e debeladas graças à ligeireza das montarias das tropas artiguistas. Ainda naquele ano Montevidéu fica prestes a ruir na batalha de Las Piedras.
Sem saída, o governo da cidadela busca a ajuda do reino de Portugal, seu antigo inimigo. Carlota Joaquina, princesa dos reinos de Brasil, Portugal e Algarves e filha do deposto rei espanhol Carlos IV, mais do que de pressa faz atender ao apelo do governo de Montevidéu, com a intenção oculta de anexar a Banda Oriental aos territórios portugueses. Artigas foge com cerca de 80% daquela que um dia seria a população uruguaia para a atual província argentina de Entre-Rios, conseguindo tomar Montevidéu em 1814. Encerrado o domínio espanhol na região do Prata, a Junta de Buenos Aires tenta anexar a Banda Oriental à União Argentina, sendo impedida pelo exército de Artigas, que, combatendo seus antigos aliados portenhos, passa a ser novamente caçado por espanhóis e portugueses, além dos argentinos. Esse cerco dura até 1821, quando Artigas exila-se no Paraguai, até sua morte em 1850. O território uruguaio é anexado aos reinos de Portugal, Brasil e Algarves sob o nome de Província Cisplatina e, após a independência do Brasil, torna-se parte desse império.
Porém, o ideal do novo país que teria lugar na antiga Banda Oriental já tinha sido semeado. Em 19 de abril de 1825, um grupo liderado por ex-seguidores de Artigas – já exilado -, dentre eles Fructuoso Rivera, Manuel Oribe e Juan Antonio Lavalleja, e conhecido como os Trinta E Três Orientais, chega à cidade de Florida. Não eram apenas orientais nem apenas trinta e três, mas esse número corresponde ao grau supremo da Maçonaria e é oficialmente aceito no país. Em 25 de agosto do mesmo ano a Assembleia Constituinte se reúne e declara a independência da República Oriental do Uruguai, depositando aos pés daquela que seria mais tarde chamada Virgem Dos Trinta E Três Orientais, além da bandeira tricolor com três listras horizontais: vermelha, azul e branca – cores já disseminadas nos tempos de Artigas -, os rumos do novo país do qual ela seria um dia padroeira. Em 1828 esse ato ganha o devido reconhecimento por parte de brasileiros e argentinos e a história uruguaia ganha novos rumos.
Quando estive detidamente diante do monumento erigido a Artigas, ventava forte e chovia gelado na antiga cidadela que se fez grande. Ainda assim, a atmosfera solene mas não pesada reinava na praça. Do alto de seu cavalo alto, era como se o velho gaucho nos observasse a todos. A água tornava o piso escorregadio e liso, mas ninguém resistiria à oportunidade de chegar um pouquinho mais perto do prócer, até porque a chuva de Montevidéu não devia ser, para ele, nenhuma novidade. Ninguém resistiria e, claro, eu também não resisti.
Iniciando então o fechamento desta série sobre o “Paisito”, me cabe falar a respeito de um personagem tratado no Uruguai com solenidade a um só tempo terna e reverente, cuja história é um mosaico mesclado de Europa e Banda Oriental: o general Artigas, prócer da pátria. O Uruguai laico, liberal e vanguardista de hoje, em certa medida, deve muito às ideias, por que não dizer, revolucionárias de seu herói nacional.
José Gervasio Artigas nasceu em Montevidéu, em 1764, proveniente de uma fidalga família espanhola. Nesse tempo, as terras a Leste do Rio Uruguai – Banda Oriental -, eram disputadas pelos impérios espanhol e português, por conta dos imensos rebanhos de gado e cavalos selvagens existentes no pampa. Ao redor de Montevidéu alargava-se a vasta campanha plana e verdejante. Conta-se que, lá pelos catorze anos, Artigas deixou sua casa na cidadela, reaparecendo anos depois, liderando índios charruas, minuanos e guaranis, bem como desertores espanhóis e portugueses e escravos fugidos. Todos esses eram os seguidores multiétnicos com os quais passou a conviver, chamados, em espanhol, de gauchos, e de gaúchos em português.
Aos trinta e três anos entrou para o serviço da Coroa Espanhola. Naquele país, em 1808, consolidando seu plano de tomar posse da Europa, Napoleão Bonaparte invade a Espanha, depõe o rei Carlos IV e entrega o trono usurpado a seu irmão José Bonaparte, enquanto a família real portuguesa se instala no Brasil, fugindo a destino similar.O caos instaurado na Espanha abre brecha às lutas de independência de suas colônias na América. Os atuais Paraguai, Peru, Chile, Argentina, Uruguai e fatias do que hoje é o Rio Grande do Sul declaram independência em 1810, formando a Junta de Buenos Aires. O governo de Montevidéu declara lealdade à Espanha.
Em 1811 Artigas deserta do exército espanhol e se une aos revolucionários com seu próprio exército gaucho. De seu cavalo, o general reunia combatentes por onde passava. Combatentes e suas famílias. Aquela nação nômade que se formava seguia seu líder por onde quer que ele fosse. Trajando endumentária gaucha, o general de olhos esverdeados, expressão sisuda e rosto bronzeado de sol pregava a liberdade civil e religiosa e a cessão de terras aos índios. As formações espanholas, estabelecidas de maneira lenta e disciplinada, eram sorrateiramente atacadas e debeladas graças à ligeireza das montarias das tropas artiguistas. Ainda naquele ano Montevidéu fica prestes a ruir na batalha de Las Piedras.
Sem saída, o governo da cidadela busca a ajuda do reino de Portugal, seu antigo inimigo. Carlota Joaquina, princesa dos reinos de Brasil, Portugal e Algarves e filha do deposto rei espanhol Carlos IV, mais do que de pressa faz atender ao apelo do governo de Montevidéu, com a intenção oculta de anexar a Banda Oriental aos territórios portugueses. Artigas foge com cerca de 80% daquela que um dia seria a população uruguaia para a atual província argentina de Entre-Rios, conseguindo tomar Montevidéu em 1814. Encerrado o domínio espanhol na região do Prata, a Junta de Buenos Aires tenta anexar a Banda Oriental à União Argentina, sendo impedida pelo exército de Artigas, que, combatendo seus antigos aliados portenhos, passa a ser novamente caçado por espanhóis e portugueses, além dos argentinos. Esse cerco dura até 1821, quando Artigas exila-se no Paraguai, até sua morte em 1850. O território uruguaio é anexado aos reinos de Portugal, Brasil e Algarves sob o nome de Província Cisplatina e, após a independência do Brasil, torna-se parte desse império.
Porém, o ideal do novo país que teria lugar na antiga Banda Oriental já tinha sido semeado. Em 19 de abril de 1825, um grupo liderado por ex-seguidores de Artigas – já exilado -, dentre eles Fructuoso Rivera, Manuel Oribe e Juan Antonio Lavalleja, e conhecido como os Trinta E Três Orientais, chega à cidade de Florida. Não eram apenas orientais nem apenas trinta e três, mas esse número corresponde ao grau supremo da Maçonaria e é oficialmente aceito no país. Em 25 de agosto do mesmo ano a Assembleia Constituinte se reúne e declara a independência da República Oriental do Uruguai, depositando aos pés daquela que seria mais tarde chamada Virgem Dos Trinta E Três Orientais, além da bandeira tricolor com três listras horizontais: vermelha, azul e branca – cores já disseminadas nos tempos de Artigas -, os rumos do novo país do qual ela seria um dia padroeira. Em 1828 esse ato ganha o devido reconhecimento por parte de brasileiros e argentinos e a história uruguaia ganha novos rumos.
Quando estive detidamente diante do monumento erigido a Artigas, ventava forte e chovia gelado na antiga cidadela que se fez grande. Ainda assim, a atmosfera solene mas não pesada reinava na praça. Do alto de seu cavalo alto, era como se o velho gaucho nos observasse a todos. A água tornava o piso escorregadio e liso, mas ninguém resistiria à oportunidade de chegar um pouquinho mais perto do prócer, até porque a chuva de Montevidéu não devia ser, para ele, nenhuma novidade. Ninguém resistiria e, claro, eu também não resisti.
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Recuerdos Del Paisito: Colonia Del Sacramento
Neste estágio da viagem conhecemos lugares bastante distintos dos que havíamos visto até então. Viajando agora pelo Oeste do país se nos apresentou a produção de frutas, verduras, leite, mel... Estão presentes ali os vilarejos e em bem menor número são as árvores, visão oposta à que tivemos quando fomos rumo ao departamento de Maldonado. No entanto, chama a atenção a presença abundante, em determinado trecho do caminho, das palmeiras canarienses.
Trafegando pela estrada plana e serpenteante vamos descobrindo que está presente com grande força nessa região a influência dos Imigrantes. A chamada Guerra Grande (1839-1851), já visitada em uma crônica anterior, teve papel decisivo nessa história. Com o seu fim e o país em falência econômica generalizada, imigrantes europeus (suíços, piamonteses, espanhóis...) chegavam trazendo suas ferramentas e conhecimentos novos sobre a terra e o gado, que fizeram o Uruguai, já livre da guerra civil, começar novamente a prosperar. Era esse, em parte, o cenário que nos aguardava. Porém, a história do departamento de Colonia, onde logo chegamos, bem como de sua capital, a cidadezinha antiga de Colonia Del Sacramento, começa em um período bem mais anterior. E quando digo antiga não me refiro somente ao aspecto arquitetônico antigo do local; digo antiga também para explicitar que, em Colonia Del Sacramento, tudo recende a antiguidade, como se o tempo lá não passasse.
A cidade então chamada Colônia Do Santíssimo Sacramento, na época uma possessão portuguesa em meio às terras da coroa espanhola, foi a primeira cidade do país que hoje se denomina República Oriental do Uruguai. Então temos lá a primeira igreja do Uruguai, o primeiro colégio do Uruguai e assim por diante. Fundada em 1680 por Manuel Lobo – governador da Capitania Real do Rio de Janeiro -, a intenção portuguesa com o estabelecimento desta cidade dentro dos domínios espanhóis era, além do componente bélico, minerar e traficar por intermédio do Rio da Prata. Durante quase cem anos Colonia Del Sacramento foi tomada pelas armas pelos espanhóis, recuperada diplomaticamente pelos portugueses, retomada pelas armas pelos espanhóis etc., etc., etc., assim sucessivamente. Em 1777, torna-se definitivamente possessão espanhola, como preconizou o Tratado de Badajoz. Essa alternância luso-espanhola no poder deixou uma herança visível: as casas espanholas, de traços retilíneos como os de um tabuleiro de xadrez, se misturam às portuguesas, que seguem o relevo do lugar. Esse desenho peculiar, aliado às ruas de pedras portuguesas, à semelhança da cidade brasileira de Paraty, ajudam a dar-lhe o ar de tempos antigos.
E novamente em Colonia Del Sacramento, na década de 70 do século XX, o impulso econômico argentino se fez sentir no Uruguai, como já retratado em outras ocasiões aqui mesmo nestas crônicas. Até então, passado o furor da disputa pelo poder entre espanhóis e portugueses e afastadas de vez ambas as metrópoles com a independência do país e das demais colônias luso-espanholas, a cidade, depois da desativação do complexo turístico de Real de San Carlos – com a proibição nacional das touradas em 1912, foi se tornando uma localidade perigosa e desvalorizada, conhecida como el bajo. Situada a apenas 45 quilômetros de Buenos Aires, começou a ser gradualmente recuperada pelos argentinos por meio do turismo. Em 1995 foi declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.
Em Colonia Del Sacramento me aconteceu algo inusitado. Feito o passeio pela cidade, almoçamos. Então eu quis voltar à basílica, rezar com mais tranquilidade e comprar algumas lembranças. A questão era: onde está a igreja mesmo? E anda que anda e nada de igreja. O tempo corria impiedoso, tínhamos quinze minutos antes que o ônibus partisse no horário combinado. Íamos desistir quando ouvi um sino. Estaquei onde estava, apontei a direção com a mão direita e disse à minha amiga: “Aqui”! Sem que ela tivesse certeza visual de que íamos na direção correta, seguimos o som do sino; tínhamos pouco tempo e não muita escolha. E, depois de um pouco de tempo de quase-corrida, efetivamente, lá estava a igreja. Foi uma emoção diferente entrar com os uruguaios celebrando a missa, cantando. Aquelas preces em espanhol me inundaram por completo e entendi que haveria tempo para tudo. Deus havia feito soar o sino na hora exata. Nos permitiu chegar à igreja guiadas pelo som. Ao abrir-se a porta, os uruguaios cantavam em prece e novamente lá estava Deus. Então, sim, haveria tempo para tudo, porque no tempo de Deus há tempo para tudo.
Sempre fui fascinada por cidades que recordam outros tempos a partir do momento em que pela primeira vez nelas se pisa: Rotemburgo, Pompeia, Siena, Toledo, Araxá, Paraty... Colonia Del Sacramento é também uma delas. Não sei, nesses lugares me sinto em casa, como se houvesse algo de mim perdido em um tempo distante. Em cidades que têm tal atmosfera essa certeza sempre me visita e em Colonia Del Sacramento não foi diferente. Saí com a sensação de ter estado mais uma vez, em alma, em casa.
Trafegando pela estrada plana e serpenteante vamos descobrindo que está presente com grande força nessa região a influência dos Imigrantes. A chamada Guerra Grande (1839-1851), já visitada em uma crônica anterior, teve papel decisivo nessa história. Com o seu fim e o país em falência econômica generalizada, imigrantes europeus (suíços, piamonteses, espanhóis...) chegavam trazendo suas ferramentas e conhecimentos novos sobre a terra e o gado, que fizeram o Uruguai, já livre da guerra civil, começar novamente a prosperar. Era esse, em parte, o cenário que nos aguardava. Porém, a história do departamento de Colonia, onde logo chegamos, bem como de sua capital, a cidadezinha antiga de Colonia Del Sacramento, começa em um período bem mais anterior. E quando digo antiga não me refiro somente ao aspecto arquitetônico antigo do local; digo antiga também para explicitar que, em Colonia Del Sacramento, tudo recende a antiguidade, como se o tempo lá não passasse.
A cidade então chamada Colônia Do Santíssimo Sacramento, na época uma possessão portuguesa em meio às terras da coroa espanhola, foi a primeira cidade do país que hoje se denomina República Oriental do Uruguai. Então temos lá a primeira igreja do Uruguai, o primeiro colégio do Uruguai e assim por diante. Fundada em 1680 por Manuel Lobo – governador da Capitania Real do Rio de Janeiro -, a intenção portuguesa com o estabelecimento desta cidade dentro dos domínios espanhóis era, além do componente bélico, minerar e traficar por intermédio do Rio da Prata. Durante quase cem anos Colonia Del Sacramento foi tomada pelas armas pelos espanhóis, recuperada diplomaticamente pelos portugueses, retomada pelas armas pelos espanhóis etc., etc., etc., assim sucessivamente. Em 1777, torna-se definitivamente possessão espanhola, como preconizou o Tratado de Badajoz. Essa alternância luso-espanhola no poder deixou uma herança visível: as casas espanholas, de traços retilíneos como os de um tabuleiro de xadrez, se misturam às portuguesas, que seguem o relevo do lugar. Esse desenho peculiar, aliado às ruas de pedras portuguesas, à semelhança da cidade brasileira de Paraty, ajudam a dar-lhe o ar de tempos antigos.
E novamente em Colonia Del Sacramento, na década de 70 do século XX, o impulso econômico argentino se fez sentir no Uruguai, como já retratado em outras ocasiões aqui mesmo nestas crônicas. Até então, passado o furor da disputa pelo poder entre espanhóis e portugueses e afastadas de vez ambas as metrópoles com a independência do país e das demais colônias luso-espanholas, a cidade, depois da desativação do complexo turístico de Real de San Carlos – com a proibição nacional das touradas em 1912, foi se tornando uma localidade perigosa e desvalorizada, conhecida como el bajo. Situada a apenas 45 quilômetros de Buenos Aires, começou a ser gradualmente recuperada pelos argentinos por meio do turismo. Em 1995 foi declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.
Em Colonia Del Sacramento me aconteceu algo inusitado. Feito o passeio pela cidade, almoçamos. Então eu quis voltar à basílica, rezar com mais tranquilidade e comprar algumas lembranças. A questão era: onde está a igreja mesmo? E anda que anda e nada de igreja. O tempo corria impiedoso, tínhamos quinze minutos antes que o ônibus partisse no horário combinado. Íamos desistir quando ouvi um sino. Estaquei onde estava, apontei a direção com a mão direita e disse à minha amiga: “Aqui”! Sem que ela tivesse certeza visual de que íamos na direção correta, seguimos o som do sino; tínhamos pouco tempo e não muita escolha. E, depois de um pouco de tempo de quase-corrida, efetivamente, lá estava a igreja. Foi uma emoção diferente entrar com os uruguaios celebrando a missa, cantando. Aquelas preces em espanhol me inundaram por completo e entendi que haveria tempo para tudo. Deus havia feito soar o sino na hora exata. Nos permitiu chegar à igreja guiadas pelo som. Ao abrir-se a porta, os uruguaios cantavam em prece e novamente lá estava Deus. Então, sim, haveria tempo para tudo, porque no tempo de Deus há tempo para tudo.
Sempre fui fascinada por cidades que recordam outros tempos a partir do momento em que pela primeira vez nelas se pisa: Rotemburgo, Pompeia, Siena, Toledo, Araxá, Paraty... Colonia Del Sacramento é também uma delas. Não sei, nesses lugares me sinto em casa, como se houvesse algo de mim perdido em um tempo distante. Em cidades que têm tal atmosfera essa certeza sempre me visita e em Colonia Del Sacramento não foi diferente. Saí com a sensação de ter estado mais uma vez, em alma, em casa.
domingo, 12 de outubro de 2014
Recuerdos Del Paisito: Punta Del Este
“Entre agua y aire brilla/el puente curvo/entre verde y azul las curvaturas/de cemento, dos senos y dos simas/con la unidad desnuda/ de una mujer o una fortaleza/sostenida por letras de hormigón/que escribe en las páginas del río”. (Pablo Neruda – 1904-1973). “Entre água e ar brilha/a ponte curva/entre verde e azul as curvaturas/de cimento, dois seios e dois abismos/com a unidade nua/de uma mulher ou uma fortaleza/sustentada por letras de concreto/que escreve nas páginas do rio”. (tradução livre, 11/10/2014).
A cidade uruguaia de Punta del Este, em sua origem, foi uma antiga vila de pescadores chamada Ituzaingó, vocábulo guarani que significa “cascata abundante”. Tratava-se de um porto pesqueiro, sendo também comum a caça aos leões marinhos.
Em momentos anteriores foi possível relatar alguma animosidade envolvendo uruguaios e argentinos, como, de certo modo, é natural entre países vizinhos que protagonizaram disputas historicamente. No entanto, em algumas oportunidades, no que diz respeito a impulsionar a economia por meio do turismo, a participação Argentina foi e é importante no Uruguai, como, por exemplo, no início do século XX, quando se fundou Piriápolis, conforme já narrado. No caso de Punta del Este não foi diferente. Nos anos 40 do século passado, também a presença dos argentinos teve um papel relevante na consolidação desta cidade como importante polo turístico uruguaio.
Atualmente Punta del Este, o balneário mais famoso do Uruguai, que figura entre os dez mais luxuosos do mundo e tem praias tanto fluviais - graças ao Rio da Prata - como oceânicas - já que é ali na Punta de Salinas que começa o Oceano Atlântico -, recebe cerca de dois milhões de turistas por ano, sendo este o seguimento econômico mais forte no local, o que faz dela uma cidade cara, onde se pode chegar a gastar, por exemplo, três vezes mais para comer do que normalmente no restante do país, inclusive na capital, Montevidéu. Na maioria das vezes, certamente, os turistas estão preparados para suportar esses gastos e o atendimento os compensa louvavelmente; contudo, trata-se de um aspecto que não pode deixar de ser destacado. A alta temporada na cidade, claro, acontece no verão, mas sempre há alguém curioso para conhecer a Praia Mansa e a Praia Brava. Passeando, além dos altos edifícios na parte central, se podem observar as casas de veraneio, limpas e bem cuidadas por caseiros e outras pessoas responsáveis pelos trabalhos domésticos, o que ajuda a garantir emprego aos moradores locais durante o restante do ano. Essas casas e mansões de veraneio do tamanho de quarteirões têm nomes e a maior parte delas não possui muros ou cercas. Curiosamente, a mais cara pertence a um empresário brasileiro e é hermeticamente fechada, o que não deixa de refletir a preocupação com a segurança, que tanto nos atormenta aqui no Brasil. A construção civil, assim, é também um setor econômico em alta em Punta, além do turismo; um setor que alavanca não apenas essa cidade, mas também suas cidades-satélites, onde os trabalhadores que executam as construções vêm residir.
Um projeto arquitetônico que acabou por tornar-se um frequentado ponto turístico do lugar são as pontes de La Barra, criadas pelo engenheiro civil uruguaio Lionel Viera (1913-1975) e inauguradas em 1965. Seu acentuado formato ondular, descrito no poema que inicia este texto, produz nos passageiros dos veículos uma sensação semelhante à que se tem em um desses brinquedos de parque de diversões. Por uma das pontes ondulares se vai, pela outra, ainda mais ondulada, se volta, com igual sensação, na direção contrária. Me lembrei de meu irmão, Thiago. Quando éramos pequenos e viajávamos de carro com os nossos avós, sempre pedíamos para o vô passar rápido pelas lombadas, pra gente sentir aquele friozinho na barriga... Foi assim, mas um pouco mais intenso, nas pontes de La Barra, em que alguns passageiros do ônibus emitiram gritinhos prazerosos, enquanto outros soltaram exclamações mais assustadas; lembrança doce.
O monumento símbolo de Punta del Este, além, certamente, do farol, que já caiu três vezes mas agora vai bem, obrigada, é uma escultura localizada na Praia Brava e conhecida como “Los Dedos”. Foi uma obra esculpida em apenas seis dias, pelo artista chileno Mario Irarrázabal (1940), que concorria a um concurso e o venceu com essa escultura. Alguns dizem que aquela mão simboliza o homem emergindo para a vida; outros garantem que o monumento retoma a prudência que se deve ter diante do mar. O que é possível afirmar realmente é que não se pode pensar em Punta del Este sem recordar a imagem daquela grande mão esculpida brotando da areia. É uma pena que, infelizmente, como aqui, também haja pichadores no Uruguai, e esses “artistas às avessas” se tenham encarregado de pichar até mesmo a mão que simboliza a cidade... Dizer o quê? Nada; mudar de assunto é melhor.
A maior parte dos turistas ficou maravilhada pela visão do requintado cassino Conrad. Eu, por meu turno, prefiro a emoção de passar pelas pontes ou a mão brotando da areia, que faz a gente se sentir tão pequeno ali, em pé, diante dela, sentindo a dureza firme do concreto, ouvindo o vento e a vastidão do mar. A arte sempre me faz pensar em quanta singularidade cabe nesse nosso “Mundo mundo vasto mundo”, que Drummond há tempos assinalou. Essa é a lembrança mais suave, e ao mesmo tempo forte e imediata, que trago e vou sempre levar de Punta. Toda a opulência restante, deixo para que a admirem aqueles que têm olhos de ver, assim como deixo também um conselho que tem muito a ver com o “carpe diem” dos antigos romanos: “Se podes olhar, vê; se podes ver, repara”. (José Saramago - 1922-2010).
A cidade uruguaia de Punta del Este, em sua origem, foi uma antiga vila de pescadores chamada Ituzaingó, vocábulo guarani que significa “cascata abundante”. Tratava-se de um porto pesqueiro, sendo também comum a caça aos leões marinhos.
Em momentos anteriores foi possível relatar alguma animosidade envolvendo uruguaios e argentinos, como, de certo modo, é natural entre países vizinhos que protagonizaram disputas historicamente. No entanto, em algumas oportunidades, no que diz respeito a impulsionar a economia por meio do turismo, a participação Argentina foi e é importante no Uruguai, como, por exemplo, no início do século XX, quando se fundou Piriápolis, conforme já narrado. No caso de Punta del Este não foi diferente. Nos anos 40 do século passado, também a presença dos argentinos teve um papel relevante na consolidação desta cidade como importante polo turístico uruguaio.
Atualmente Punta del Este, o balneário mais famoso do Uruguai, que figura entre os dez mais luxuosos do mundo e tem praias tanto fluviais - graças ao Rio da Prata - como oceânicas - já que é ali na Punta de Salinas que começa o Oceano Atlântico -, recebe cerca de dois milhões de turistas por ano, sendo este o seguimento econômico mais forte no local, o que faz dela uma cidade cara, onde se pode chegar a gastar, por exemplo, três vezes mais para comer do que normalmente no restante do país, inclusive na capital, Montevidéu. Na maioria das vezes, certamente, os turistas estão preparados para suportar esses gastos e o atendimento os compensa louvavelmente; contudo, trata-se de um aspecto que não pode deixar de ser destacado. A alta temporada na cidade, claro, acontece no verão, mas sempre há alguém curioso para conhecer a Praia Mansa e a Praia Brava. Passeando, além dos altos edifícios na parte central, se podem observar as casas de veraneio, limpas e bem cuidadas por caseiros e outras pessoas responsáveis pelos trabalhos domésticos, o que ajuda a garantir emprego aos moradores locais durante o restante do ano. Essas casas e mansões de veraneio do tamanho de quarteirões têm nomes e a maior parte delas não possui muros ou cercas. Curiosamente, a mais cara pertence a um empresário brasileiro e é hermeticamente fechada, o que não deixa de refletir a preocupação com a segurança, que tanto nos atormenta aqui no Brasil. A construção civil, assim, é também um setor econômico em alta em Punta, além do turismo; um setor que alavanca não apenas essa cidade, mas também suas cidades-satélites, onde os trabalhadores que executam as construções vêm residir.
Um projeto arquitetônico que acabou por tornar-se um frequentado ponto turístico do lugar são as pontes de La Barra, criadas pelo engenheiro civil uruguaio Lionel Viera (1913-1975) e inauguradas em 1965. Seu acentuado formato ondular, descrito no poema que inicia este texto, produz nos passageiros dos veículos uma sensação semelhante à que se tem em um desses brinquedos de parque de diversões. Por uma das pontes ondulares se vai, pela outra, ainda mais ondulada, se volta, com igual sensação, na direção contrária. Me lembrei de meu irmão, Thiago. Quando éramos pequenos e viajávamos de carro com os nossos avós, sempre pedíamos para o vô passar rápido pelas lombadas, pra gente sentir aquele friozinho na barriga... Foi assim, mas um pouco mais intenso, nas pontes de La Barra, em que alguns passageiros do ônibus emitiram gritinhos prazerosos, enquanto outros soltaram exclamações mais assustadas; lembrança doce.
O monumento símbolo de Punta del Este, além, certamente, do farol, que já caiu três vezes mas agora vai bem, obrigada, é uma escultura localizada na Praia Brava e conhecida como “Los Dedos”. Foi uma obra esculpida em apenas seis dias, pelo artista chileno Mario Irarrázabal (1940), que concorria a um concurso e o venceu com essa escultura. Alguns dizem que aquela mão simboliza o homem emergindo para a vida; outros garantem que o monumento retoma a prudência que se deve ter diante do mar. O que é possível afirmar realmente é que não se pode pensar em Punta del Este sem recordar a imagem daquela grande mão esculpida brotando da areia. É uma pena que, infelizmente, como aqui, também haja pichadores no Uruguai, e esses “artistas às avessas” se tenham encarregado de pichar até mesmo a mão que simboliza a cidade... Dizer o quê? Nada; mudar de assunto é melhor.
A maior parte dos turistas ficou maravilhada pela visão do requintado cassino Conrad. Eu, por meu turno, prefiro a emoção de passar pelas pontes ou a mão brotando da areia, que faz a gente se sentir tão pequeno ali, em pé, diante dela, sentindo a dureza firme do concreto, ouvindo o vento e a vastidão do mar. A arte sempre me faz pensar em quanta singularidade cabe nesse nosso “Mundo mundo vasto mundo”, que Drummond há tempos assinalou. Essa é a lembrança mais suave, e ao mesmo tempo forte e imediata, que trago e vou sempre levar de Punta. Toda a opulência restante, deixo para que a admirem aqueles que têm olhos de ver, assim como deixo também um conselho que tem muito a ver com o “carpe diem” dos antigos romanos: “Se podes olhar, vê; se podes ver, repara”. (José Saramago - 1922-2010).
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