quinta-feira, 12 de março de 2015

Esmeralda

“Caminos

De la ciudad moruna/tras las murallas viejas,/yo contemplo la tarde silenciosa/a solas con mi sombra y con mi pena./El río va corriendo/entre sombrías huertas/y grises olivares,/por los alegres campos de Baeza./Tienen la vides pámpanos dorados/sobre las rojas cepas./Guadalquivir, como un alfanje roto/y disperso,/reluce y espejea./Lejos, los montes duermen/envueltos en la niebla,/niebla de otoño, maternal; descansan las rudas moles de su ser de piedra/en ésta tibia tarde de Noviembre,/tarde piadosa, cárdena y violenta/El viento ha sacudido/los mustios olmos de la carretera,/levantando en rosados torbellinos/el polvo de la tierra./La luna está subiendo/amoratada, jadeante y llena./Los caminitos blancos/se cruzan y se alejan,/buscando los dispersos caseríos/del valle de la sierra./Caminos de los campos.../¡Ay, ya no puedo caminar con ella”! (Antonio Machado).


Desde bem pequena me lembro muito claramente de uma bonequinha trajada à espanhola, que meu avô havia trazido de viagem de algum lugar para minha mãe muitos anos antes e que sobrevivera até chegar às minhas mãos. Ela sempre me chamava a atenção: usava um vestido longo, de tecido grosso – mas não grosseiro -, pregueado, que era diferente dos vestidos de noiva, os únicos vestidos longos que eu conhecia então. Aquele era um vestido rodado e longo, com babados, mas cuja cor eu não saberia dizer, um detalhe para mim desimportante. A cabeça coberta pelo véu, brincos de pérolas nas orelhas, clássicos e ocidentais e, em contraste, uns olhos de cílios grandes que se moviam para cima e para baixo, conforme a boneca era manejada; provavelmente escuros. Só bem mais tarde descobri que aqueles olhos de cílios grandes eram os famosos olhos mouros, mouriscos ou árabes, de profunda perspicácia e mistério por trás dos tantos lenços e véus advindos do Oriente... E um rostinho delicado, perfeito, simétrico. Uma boneca em tudo distinta das tantas outras que eu tinha. Os sapatos, porém, se haviam perdido no tempo; já me lembro dela assim, descalça. Eu a tateava incansavelmente, mesmo sabendo que já conhecia cada detalhe. A cada dia de brincadeira aproveitava para revisitá-la um pouquinho; quem sabe não haveria ainda algo no traje da espanhola que eu não tinha notado antes... Quando perguntei o porquê de todo aquele estilo, digamos, exótico, minha bisavó respondeu simplesmente:

- É uma espanhola, fia!

Essa resposta não me aclarou nada, porém guardei-a. Foi o primeiro contato que me lembro de ter tido com a Espanha e os espanhóis. Aquela boneca, ostentando com arrojo e graça o vestido longo e rodado, as pérolas, os cílios grandes, o véu nos cabelos, tinha toda minha reverência; sempre pressenti um mundo diferente escondido por detrás dela. Eu a colocava em pé e as saias e babados tomavam o espaço diante de mim, majestosamente. Eu a movia e o vestido serpenteava no rastro dela. “Gosto disso”, eu pensava sonhadora... Curiosamente, nunca lhe dei um nome e não tenho notícia de que minha mãe tenha feito isso antes de mim.

O tempo passou e a espanholita ficou mais na memória do que no cotidiano, embora existisse ainda em algum armário. Mais ou menos aos treze anos eu já era uma leitora voraz. E foi assim, por meio dos livros, que a Espanha voltou à minha vida de maneira mais incisiva. Certo dia eu lia Ana Terra, um dos capítulos de O Tempo E O Vento, história em que o genial Érico Veríssimo conta a saga das famílias Terra e Cambará, dos séculos XVII ao XX e, com ela, como pano de fundo e determinante dos rumos das personagens, também a história do Brasil e principalmente da região que é hoje o nosso estado do Rio Grande do Sul. Entregue à fascinante vida da jovem, forte e bela Ana Terra, ambientada na região que futuramente seria o Rio Grande do Sul, mas no século XVII, de tantas disputas e guerras com os castelhanos, subitamente li o seguinte:

“ - Donde están los otros?
Ana mal reconheceu a voz do irmão quando ele respondeu, meio engasgado:
- Dentro de casa.
- Que salgan! Bamos!
- Vosmecê pode me dizer. . - começou Antônio.
- Perro súcio!
Ouviu-se um estampido lá fora. E em seguida Maneco disparou o mosquete. Pelo vão da porta o escravo atirou também. Ana rojou-se ao chão, de todo o comprimento, colou-se à terra, enquanto outros estrondos fendiam o ar e as balas esburacavam as paredes do rancho. De olhos fechados, Ana ouvia os gritos e os tiros, sentia cair-lhe poeira sobre o corpo, enterrava com desespero as unhas no chão. Santa Maria Mãe de Deus - pensava ela - rogai por nós pecadores... Da boca entreaberta saía-lhe com a respiração uma baba visguenta. De repente ela viu, mais com os ouvidos que com os olhos, que a parede da frente vinha abaixo. Um dos bandidos entrava no rancho a cavalo, distribuindo golpes de espada a torto e a direito. Ana sentiu tão perto o resfolegar do animal que escondeu a cabeça nas mãos e esperou agoniada que patas lhe esmagassem o crânio ou que espadas lhe varassem o corpo.
A gritaria continuava. Mãos fortes agarraram Ana Terra no ar, e puseram-na de pé. A mulher abriu os olhos: cresceram para ela faces tostadas, barbudas, lavadas em suor.
- Mira que guapa!
Um dos homens apertou-lhe os seios. E depois Ana viu uma cara de beiços carnudos, com dentes grandes e amarelados - e esses beiços, que cheiravam a cachaça e sarro de cigarro, se colaram brutalmente aos seus num beijo que foi quase uma mordida. Ana cuspiu com nojo e os homens desataram a rir.
Um suor gelado escorria-lhe pela testa, entrava-lhe nos olhos, fazendo-os arder e aumentando-lhe a confusão do que via: o pai e o irmão ensangüentados, caídos no chão, e aqueles bandidos que gritavam, entravam no rancho, quebravam móveis, arrastavam a arca, remexiam nas roupas, derrubavam a pontapés e golpes de facão as paredes que ainda estavam de pé. Mas não lhe deram tempo para olhar melhor. Começaram a sacudi-la e a perguntar:
- Donde está la plata?
La plata... la plata... la plata... Ana estava estonteada. Alguém lhe perguntava alguma coisa. Dois olhos sujos e riscados de sangue se aproximaram dos dela. Mãos lhe apertavam os braços. Donde está? Donde está? La plata, la plata... Ela sacudia a cabeça freneticamente, e a cabeça lhe doía, latejava, doía... La plata...” [...]

Paro de reproduzir aqui o trecho que por muitos meses permaneceu em minha mente, mesmo que eu me tenha dedicado a outros livros depois. Certamente o leitor imagina o que aconteceu onde havia uma mulher sozinha e vários homens cheios de más intenções praticadas e declaradas, exatamente o que ocorre, seja na realidade, seja nos livros. Furto-me, assim, a reproduzir o fim do capítulo, que, como mulher, me aflige. A mim, contudo, uma adolescente caseira que tinha em ler uma de suas maiores e melhores diversões, a Espanha agora trazia medo; tornava-se difícil enxergar que existisse lá algum homem diferente dos castelhanos que violaram Ana Terra, destruíram sua família, sua casinha e dilapidaram seus poucos bens. Sempre tive facilidade para aprender e identificar sonoramente idiomas, tanto quanto música. Sempre concebi as línguas estrangeiras como músicas perfeitamente distintas umas das outras, pelo menos aos meus ouvidos. Assim, depois da leitura de Ana Terra, ao ouvir a mais mínima palavra em espanhol, um arrepio gelado e desagradável me percorria o corpo todo em uma fração de segundo, era uma musicalidade de que comecei a não gostar.

Mas, graças a Deus, nem sempre as primeiras impressões, ou as até então mais marcantes são as que ficam. Um tempinho depois precisei ler o Dom Quixote, de Cervantes. Mesmo sabendo que o Quixote não era bonito, que já era mais velho e só fazia trapalhadas, embora sempre bem-intencionado, conforme eu lia, sentia vontade de ser a Dulcineia que ele jamais conseguira encontrar, de sair por aí galopando na garupa do cavaleiro da triste figura por toda a Espanha, ainda que o potente Rocinante não passasse de um magro e fraco pangaré.

Nessa época também eu já me virava bem no teclado. Meu avô-pai sempre teve uma relação estreita com os países de fala hispânica. Neto de espanhola e montando máquinas pela América Latina, falava espanhol fluentemente, guarani também, e acho que herdei dele o meu ouvido musical. Ele escolhia as músicas que queria que eu tocasse, muitas vezes de países que falam espanhol, e eu que me virasse pra tocar.

- Eu sei que você consegue, toca aí, vai! É tão bonito... - e assobiava a tal música que queria.

Escolhia músicas e mais músicas, sempre antigas. Ele cantarolava e eu tinha que executar. Verdade seja dita, eu sempre conseguia e ele ficava satisfeito, pensando, viajando, lembrando sabe Deus que tantas coisas... cantava, assobiava, estalava os dedos... Chegava mesmo a dar uns passinhos pela sala, fazendo tilintar o antigo relógio de metal no braço esquerdo e bater os chinelos...: Malagueña Salerosa, La Barca, El Reloj, Perfidia, Bésame Mucho, India, Adelita, La Chalana, tangos de Gardel - principalmente Por Una Cabeza e La Cumparsita... Dentre tantas outras que eu poderia enumerar. Eu ouvia também um cd de boleros que uma vez peguei em umas coisas do meu pai... Peguei e não devolvi mais; ele disse que não precisava. Hoje estou certa de que essa minha procura pelos sons, pelas harmonias, pelos ritmos para contentar meu avô ajudou definitivamente a desenvolver o ouvido musical que eu tinha. Tomei gosto pela coisa e comecei a tocar o que eu mesma achava bonito, caminhando em paralelo com os professores de música popular que tive ao longo da vida e ampliando sempre o repertório, inclusive o de música hispânica, já sem que ele pedisse. Tenho certeza de que isso me proporciona hoje poder dedicar-me às músicas clássicas que mais me agradam no piano, oferecendo-me uma maior segurança para me desenvolver naquilo que pedem as interpretações. A música e a musicalidade foram, portanto, o melhor e maior bem que meu avô me deixou e poderia ter deixado.

Mas foi na universidade que percebi que o espanhol e a Espanha se entranhavam de vez em mim. Estudando literatura cheguei a Eurico, O Presbítero, de Alexandre Herculano. Lá descobri Toledo – um dos últimos redutos mouros na Península Ibérica -, os sarracenos e a influência que tiveram naquela que um dia seria a Espanha, por 700 anos. Era dessa suceção de eventos, então, que vinham aquelas letras “l” tão bem pronunciadas, rigorosamente nítidas do espanhol, assim como algunas otras cositas... Soube, então, que era isso o que eu gostava na Espanha, esse ponto de intercecção entre o Ocidente e o Oriente, esse meio do caminho geográfico e cultural, essa melancolia árabe e muçulmana, semita, que cresceu e se desenvolveu forte, lado a lado com o que a Espanha tem robustamente de ocidental e cristão. A partir dali eu sentia que não podia mais escapar a isso, que sempre alguma coisinha espanhola faria parte de mim.

No último ano da faculdade uma amiga, Mônica, fez uma viagem ao Peru e Bolívia, me trouxe dois cds de música andina e uma samponha, toda enfeitadinha, artesanal, linda... E, surpresa das surpresas, uns três anos depois comecei a estudar espanhol com um professor chileno, vizinho da minha mãe, Alejandro; ainda não sei como comecei, quando percebi já tinha ido, estava lá. Meu avô me levava a cada semana, todo satisfeito; estava escrito no rosto dele como ficava contente em me levar às aulas de espanhol. Venci minhas últimas resistências íntimas e comecei a ouvir minha própria voz em espanhol, com aquela cadência nova, a um só tempo terna e forte, saída de recantos que nem eu mesma conhecia, sensação diferente... E definitivamente agradável, música que começava a se tornar familiar aos meus ouvidos. Aquele foi um ano intenso. Gramática, ortografia, muito cuidado com a escrita, apuro na fala e Alejandro me pegou pelo ponto fraco, literatura: aprendi muito com A Ciganinha, de Cervantes, El Cid, O Zorro, e outros livros menos conhecidos, todos lidos em espanhol. E essa minha aproximação com o idioma durou um ano. Até que chegou um dia em que meu avô foi falar espanhol, guarani e cantar moda de viola no céu... Tive um bloqueio fortíssimo. Tinha, então, um piano, mas não conseguia mais tocar; sentava-me diante dele e parecia que mutuamente nos repelíamos; minha mão pairava a dois, três centímetros das teclas sem coragem de tocar nelas; só a angústia havia. Vendi o piano. Passei cinco anos sem fazer soar uma nota sequer, o espanhol me visitava às vezes; lia, de vez em quando, uma coisa ou outra. Mas a Espanha continuava presente. Eu soube disso quando toquei, uma vez, uma estátua de um touro, subjugado, com o toureiro sobre seu dorso... Fiquei pensando: “Se esse bicho suspeitasse a força que tem”... Permaneci ali um tempo, alisando o touro de bronze, e alguma coisa despertou dentro de mim. Na mesma época assisti, ao vivo, a uma apresentação de flamenco, com bailarinos e músicos espanhóis... Impressiona a sincronia das pontas e calcanhares dos sapatos dos casais de bailarinos no assoalho com a energia das palmas, o violão, as castanholas, os tambores e as vozes vibrantes e cheias de fôlego para as vogais longas e lamentosas, tão típicas da música cigana e árabe, mais ou menos como os chamados para as orações que ecoam nas mesquitas ao redor do mundo, e refletidas com graça melancólica naquilo que a música espanhola tem de ocidental... Aliás, essa transição musical da Espanha entre os tons maiores e menores na mesma canção, às vezes na mesma frase musical é fascinante! Quando as bailarinas tocam castanholas e dançam, a impressão que se tem é a de que as castanholas conversam, perguntam e respondem, retrucam e treplicam. Havia uma das bailarinas, pareceu-me ser a mais experiente do grupo, que sempre gritava palavras de incentivo às outras: “¡Vamos”! “¡Dale”! etc., com voz sonora, palavras claras, rosto sorridente durante as invocações. Tudo isso somado à melancolia intensa e, a sua forma, alegre, da música cigana e às bem definidas expressões faciais para cada momento. O entrosamento de músicos e dançarinos é indescritível. Sem contar que não é preciso ver com os olhos para entender; encantador! Basta agora ouvir o som de castanholas para que o meu rosto se transfigure.

E como Deus sempre nos envia anjos da guarda sobre a terra, certo dia, em um passeio com Evandro, um amigo professor de piano erudito, e Wânia, que também o piano me trouxe, sua aluna e que depois veio a tornar-se uma amiga muito querida, fui interpelada pelos dois insistentemente para voltar a tocar, que eu ficaria feliz, que meu avô, onde estivesse, gostaria de ouvir, que eu me sentiria mais leve, mais alegre....

- Volta – me dizia Wânia vezes sem conta com aquela expressão calma e serelepe tão sua – A gente toca junto... Seria tão legal...

- É isso, emendava Evandro com cara de negociante que sabe que a operação vai ser bem-sucedida – volta, Ser! (um apelido carinhoso). – A gente troca piano com inglês, eu vou na sua casa, vamos, vai amarelar? – disparou de uma feita, provocante.

Não, não amarelei, voltei, graças a Deus voltei. Pedi para tocar música espanhola e fui atendida prontamente:

- Agora que você voltou, escolhe, toca o estilo que quiser – Evandro Garantia com um sorriso triunfante de orelha a orelha.

Promessa feita, promessa atendida. No segundo mês de aula comecei uma malagueña do espanhol Isaac Albéniz, que depois soube que era para alunos do sexto ano, mas então eu já a estava quase terminando de ler, celando minha reaproximação com o piano e, de alguma forma, com o idioma castelhano... e agora já tenho um tango também dele... E Evandro me permitiu realizar um sonho antigo: tocar vestida, completamente, de espanhola; me apresentou até a costureira que transformaria tudo isso em camadas e camadas farfalhantes de preto e vermelho... Fui atrevida o suficiente para pedir e ele, sem pestanejar, novamente, me atendeu. Minha avó-mãe Adalgisa afirma categoricamente que esse foi o encontro de dois malucos. Isso sem contar os amigos novos que ganhei. Tantos presentes o espanhol me trouxe... Desde então os arabescos andaluzes vêm se desenhando dia a dia em minha existência, proliferam-se a Espanha e o espanhol em cada acontecimento, em cada coisa. Sinto que esse universo se torna cada vez mais parte de mim, me constitui como uma identidade, como uma marca de cuja força, não sei por que obscuro motivo, eu ainda não me havia dado conta. Adotei de vez em quando a mantilha, lenços, o batom vermelho... Tudo pela arte, para ir entrando no clima... Pela arte e por mim mesma.

E como a vida não para de dar voltas, ano passado voltei a estudar espanhol. Desta vez com uma professora uruguaia, Alicia, ou simplesmente Ali, alguém que conheci casualmente num dia já distante e que vim encontrando e reencontrando ao longo dos anos em distintos lugares, por essas artimanhas ocultas das antigas parcas gregas que tecem e retecem o destino, até que nos reencontramos definitiva e imutavelmente, como professora e aluna. Hoje, no entanto, quando penso no rol dos meus amigos mais próximos, o nome e a figura de Ali logo aparecem, outro presente que ganhei aceitando o espanhol de volta de uma vez por todas. Agora, com uma delicadeza até então insuspeitada na forte língua espanhola, tornei-me, por escolha dela, carinhosamente, Yarita, como até hoje permaneço e tenho gosto em ser; um apelido que “pegou”, nas aulas de espanhol e fora delas. Em vários outros lugares e círculos por onde transito eu já sou Yarita. Diferentemente de quando me defrontei com Ana Terra, agora tenho até um apelido genuinamente espanhol e ele me soa bem nos ouvidos. Hoje, de uma vez por todas, a musicalidade do espanhol me é agradável e ninguém mais, na ficção ou na realidade, pode arrancá-la desse patamar. Já penso cada vez menos para usá-la dia a dia.

Uma tarde conversávamos despreocupadamente no facebook (sempre em espanhol) sobre como era bom tocar música espanhola e falar espanhol e eu comentava com Ali que gostaria de encontrar um nome para essa presença espanhola que me habitava em forma de música desde que voltei a tocar piano, um nome que definisse espiritualmente como me sinto quando toco, que preenchesse um pouco essa vontade íntima que passei a ter de ser espanhola de uns anos para cá; uma espécie de estado de espírito com nome espanhol. Ela quis saber se eu já havia pensado em algum. Respondi que Isabel, mas poderia ser confundido com um nome português; Carmen, mas já havia muitas Carmens, tanto na ficção quanto na realidade; Soledad, mas que esse nome me parecia muito triste; que então eu pensava chamar Esmeralda a essa força que me enchia de disposição e propósito, depois de tanto tempo sem tocar. Seria esse, para os amigos, despretenciosamente, o meu pseudônimo musical; Esmeralda.

- Esmeralda, nombre de piedra preciosa – me respondeu – ¡Me queda grande!

Para os que me conhecem e apreciam piano, que sabem dessa minha cruzada para poder voltar a tocar e da alegria que sinto por ter conseguido, sou agora, muitas vezes, com carinho, Esmeralda, com o “L” bem longo. No coral em que canto também já sou Esmerallllda desde que me viram tocar. E assim Esmeralda, no piano, vai desabrochando para o mundo e Yara, Yarita, também vai ficando contente por tabela. Me acompanham sempre, para ouvir, Paco de Lucia, Buena Vista Social Club, Gypse Kings...

Mais recentemente a história de Esmeralda ganhou um capítulo novo; novo e difícil. Minha avó fez comigo uma viagem e ficou seriamente enferma. Internada na unidade de cuidados intensivos, eu não podia entrar para vê-la. Impotente em um país longínquo e estranho, resolvi, assim, sair com o grupo para passear, para desanuviar os pensamentos, tentar esquecer o quanto fosse possível. Tínhamos uma guia espanhola, Reyes, e uma portuguesa, Helena, que fazia naquele momento a visita guiada do nosso grupo de brasileiros. Assim, foi permitido que Reyes estivesse comigo o tempo todo: me levou para tocar os monumentos, descrevia tudo com rigor de detalhes, me conduzia com cuidado, avisando de cada obstáculo, fez fotos e mais fotos minhas nos lugares em que eu as solicitava, me sugeria poses que pensava ficariam bonitas – e ficaram mesmo – tudo com muita prontidão, carinho, desvelo e em língua espanhola. Pratiquei o idioma, me distraí de minha impotência, consegui passar bem por aquele dia tenebroso e ganhei uma nova amiga. Uma vez mais, lá estava o espanhol me acalentando a alma naquele momento tão difícil, um dos mais difíceis de toda minha vida... E mais uma vez a face suave do forte idioma espanhol se mostrava a mim.

E hoje estou eu aqui diante do teclado do computador, com todas essas letras inquisitivas me olhando, rendida às lembranças, aos fatos, aos fragmentos, aos sentimentos todos que se acumularam ao longo dos anos; estive metamorfoseada por minha própria vontade em Esmeralda, tendo tocado música do Sul da Espanha ao piano há poucos dias, completamente trajada como a bonequinha espanhola de minha infância, com exceção dos cílios grandes. Batom e esmalte vermelhos, sapatos de flamenco, pente como os da Espanha nos cabelos, bem como a flor vermelha, o véu, claro, o véu... Tudo como imagino que deva ser, e a música espanhola saltando de mim para o piano antes inerte, em rajadas de plenitude. Pelos epítetos que recebi, creio que consegui o que queria, ser espanhola por um dia: “Frida Calo”; “Periguete de Albéniz”; “A própria Carmen”; “Rainha de Alhambra”. Imagino que meu avô gostaria de me ter visto daqui debaixo (porque de lá de cima aposto que viu). Como foi bom ser Esmeralda, ser espanhola por aquele tempo em que toquei Albéniz... Quanto arrebatamento, quanto êxtase! Que sensação boa de que tudo está no seu devido lugar... De que consegui finalmente “atar as duas pontas da vida”, a Yara de ontem e a Yarita de hoje, como almejou um dia Dom Casmurro...

E foi assim que, quase miraculosamente, os eventos se vieram construindo em minha vida, para que eu pudesse, de alguma forma, ter esse encontro com aquelas que sei que são as minhas raízes. Agora, só resta despedir-me dos leitores que me acompanharam nessa viagem geográfica e cronológica. E àqueles que nelas acreditam, que Nossa Senhora do Pilar e Santa Teresa Dávila os protejam e guardem... Amém!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Uma Dádiva

Recentemente eu conversava com uma amiga muito querida, dessas com as quais a gente pode se dar ao raríssimo luxo de sentar para falar sobre as pequenas grandes coisas da vida, aquelas que têm tanto valor e às quais dificilmente alguém presta atenção. Conversávamos sobre as respostas de Deus, sobre como ele nos envia os sinais certos nos momentos em que precisamos saber qual o caminho a seguir. Comentei, então, sobre a história que segue, algo que realmente me aconteceu e que, certa vez, publiquei na forma da seguinte crônica, no blog de uns amigos onde eu costumava escrever. Levada por essa conversa e rememorando tal acontecimento, a um só tempo tão singelo e tão sublime, republico agora a crônica aqui neste espaço e a compartilho novamente com vocês. Aos que por acaso já a leram, espero que curtam reler. Aos que ainda não a leram, saibam e lembrem-se que Deus sempre tem uma resposta, e essa sempre é a resposta certa. Vou me lembrar disso também...

Dádiva: segundo o dicionário, palavra advinda da milenar e melodiosa língua latina, é aquilo que se dá espontaneamente a alguém, aquilo que se doa por livre vontade, sem que se espere algo em troca do presente. Pois bem, hoje pela manhã (9 de fevereiro) recebi um presente desses, e não foi de ninguém aqui da Terra não; foi mesmo de lá de cima... Eu explico.

Por causa desse calor intenso que estamos tendo, têm aparecido alguns insetos aqui em casa, que vão entrando pelas janelas abertas e se instalando pela casa toda, como acontece todos os anos por essa época e temperaturas por aqui. Dessa forma nos apareceu uma borboleta amarelo-acinzentada, de tamanho mediano, que ficou esvoaçando uns três dias por todos os lugares, quando menos se esperava, pousando nos livros, nos móveis, nas paredes, nas pessoas.

Observando-a pelos sons que emitia durante o vôo e conversando com minha avó, comentei que desejaria muito ver / tocar uma borboleta de verdade – não apenas uma reprodução em algum tipo de relevo -, já que nunca pude fazê-lo, contentando-me com contornos e descrições subjetivas, mas que, para que isso se realizasse, essa borboleta precisaria estar morta, uma vez que minha fobia por bichos e minha aflição pelo ruído daquelas asas não me permitiriam pegá-la, até mesmo sob risco de esfacelá-la com o mais mínimo movimento. Então, cogitamos que a saída para mim seria encontrar uma borboleta conservada, por exemplo, em algum museu; plano para um futuro talvez nem tão próximo. Assim pensando, intimamente pedi a Deus que um dia, se fosse possível e de seu agrado, me defrontasse com um desses insetos tão presentes no nosso imaginário; pedi, mesmo considerando a aparente insignificância e falta de nexo do pedido. Se era mesmo verdade que ele tudo via, tudo podia e tudo sabia, estando em todos os lugares, certamente iria me entender.

Com esses pensamentos, fui dar aulas ontem à tarde; tenho um espaço aqui em casa para isso. E de repente, durante a aula, eis que surge a famigerada borboleta – presença já de alguns dias -, e pousa no chão, ao lado da mesa. Não perto, mas ao lado. Terminei uma aula, comecei outra, terminei e me esqueci da borboleta, da conversa anterior com minha avó, de tudo enfim.

Hoje logo pela manhã, encontro minha avó na sala das aulas, sentada, bordando. Entro e ela me diz que a borboleta morrera, que estava lá, na mesma posição, desde ontem. Lamentei pelo fim da vida dela como sempre lamento pelo fim de qualquer vida, mas quase imediatamente pensei em pegá-la e comuniquei que o faria; eu não podia deixar essa oportunidade passar!... Nunca tivera uma igual, talvez jamais tivesse outra.

Me abaixei e toquei a borboleta. Fiquei surpresa ao primeiro contato. Ela estava ali: fina como uma folha do mais frágil papel, imóvel, delicada, com os pares de asas fechados. Tomei fôlego e coragem, coloquei-a cuidadosamente na palma da mão direita e me levantei, pousando-a sobre a mesa e abrindo suas asas com extrema cautela e a ajuda da minha avó, que logo confessou, também interessada, que nunca em sua vida havia visto uma borboleta assim de tão perto. O som era de uma folha seca, e também aquelas nervuras do corpo da borboleta me faziam lembrar uma grande folha dessas que caem das árvores e estalam quando a gente passa. Mas as asas abertas, para mim, lembravam uma flor recém-desabrochada, mesmo sabendo que, em verdade, a criatura já estava definitivamente morta. Asas abertas, minha avó me mostrou a borboleta em posição de vôo, o corpo estreito e comprido, as antenas... E assim eu a tinha, na palma da mão, a borboleta que, até o dia anterior, era só um singelo sonho distante mas que, no entanto, agora vinha ao meu encontro, em um dos locais mais meus em toda a casa.

Por isso hoje considero que recebi uma dádiva daquele que, de fato, pode, sabe, vê e se faz presente, conhecendo aquilo que temos, sentimos e somos de mais íntimo e nos atendendo na medida certa dos nossos merecimentos. Só me desgosta que a borboleta tenha precisado morrer para que eu tivesse um momento de revelação, de epifania, de vida que foi mais do que a própria vida. Porém, o mistério recebe este nome justamente porque não nos cabe compreendê-lo, mas tão-somente aceitá-lo. Sendo assim, aceito, agradeço e espero apenas, um dia, poder, de algum modo, oferecer a alguém uma dádiva semelhante a esta que hoje recebo.


Quinta, 10 de fevereiro de 2011

(Texto publicado originalmente em WWW.jornalistas.blog.br).

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

La Garganta Del Diablo

As referências de alguém que não está pautado nem orientado pelo sentido da visão são e estão em seu próprio corpo; começam a partir do corpo e terminam também nele. Assim, como explicar e como entender algo de proporções tão grandes e literalmente intocáveis, no sentido tátil, quanto as Cataratas do Iguaçu quando não se vê? Essa foi uma lacuna que se me defrontou uma vez, mas, contrariamente ao esperado, foi também brilhante e singelamente resolvida.

Todos a minha volta admiravam as quedas d’água e exclamavam coisas como: “Nossa, olha só”! “Que lindo”! “Quanta água”! Eu, por minha parte, ouvia aquele rugido colossal que parecia projetar-se das profundezas da terra e tentava imaginar um cenário que correspondesse às tantas exclamações que escutava. Até que o grupo separou-se e veio a proposta da Elizete, que eu já conhecia de outros carnavais:

- Quer que eu te leve lá na passarela? Assim, mesmo você não vendo as cachoeiras, vai sentir a água, aí vai imaginando...

Claro, aceitei imediatamente e fomos indo, ouvindo aquele fungar inominável das águas que, lançadas para cima e trazidas pelo vento, esparziam o meu corpo e cabelos naquela neblina revigorante e fresca... Até que chegamos frente a frente com a Garganta do Diabo. Parei diante dela, encostada à grade, deixando que a água me molhasse, contemplando aquele vazio inquietante e ruidoso lá embaixo... Agora aquelas tantas exclamações das pessoas começavam a fazer algum sentido. Assim ganhei as cataratas de presente pela primeira vez. Mas não foi essa a única representação que tive delas.

Para minha surpresa, Marcelo, o nosso guia lá de Foz do Iguaçu, sentando-se ao meu lado em um parque, perguntou, assim, de chofre:

- Me diz uma coisa... E você? O que ta achando das cataratas?... Na sua imaginação, como é isso?

- Amedrontador – respondi em uma palavra procurada durante algum tempo.

- Sim, de fato, é amedrontador – continuou ele – Mas, além disso, o que mais? Como você imagina, aí nas suas ideias, que sejam as cataratas?

Respondi que não era capaz de imaginar algo assim de proporções tão grandes. Para mmeu contentamento, ganhei as cataratas de presente pela segunda vez em tão curto espaço de tempo. Conto em um minuto como foi isso. Só peço licença para destacar aqui algumas proporções, informações, que permitirão aos demais leitores cegos desta crônica entender o porquê da minha dificuldade em imaginar o que Marcelo me perguntava. Conto como ele me presenteou daqui a pouco.

As Cataratas do Iguaçu demarcam, no rio Iguaçu – do tupi-guarani água grande – a fronteira natural entre o Brasil, em Foz do Iguaçu, no estado brasileiro do Paraná, e Puerto Iguazú, na província argentina de Misiones. São cerca de 275 quedas de água, sendo a mais impressionante delas a chamada Garganta do Diabo, exatamente na fronteira mencionada entre Brasil e Argentina, uma cachoeira com mais de 80 metros de altura. Historicamente, o primeiro europeu a avistar as cataratas do Iguaçu foi o conquistador espanhol Álvar Nuñez Cabeza de Vaca, por volta dos anos 1540. Escolhi, para intitular esta crônica, o nome desta queda mais importante, mas em espanhol, que para mim deixa a garganta mais diabólica do que em português... hahaa

Bem, agora posso continuar contando como o Marcelo conseguiu tornar concreta para mim a tão distante e inatingível Garganta do Diabo. Sentado ao meu lado, ele pediu licença e,tomando o meu antebraço esquerdo, posicionou-o na mesa a nossa frente de maneira horizontal, pedindo-me que abrisse os dedos daquela mão espalmada. Tocando a extensão do meu antebraço, começou:

- Imaginariamente, este aqui é o Rio Iguaçu.

Fazendo com os dedos uma massa compacta como quando gostaríamos de mostrar um número 4, continuou, tocando a letra “u” que se formava entre meu polegar e indicador:

- nos seus dedos estão as quedas das cataratas. Aqui no seu polegar estamos do lado brasileiro das cachoeiras. No seu indicador, passamos ao lado argentino. Aqui – disse, tocando a curva do “u” – é a Garganta do Diabo, que a gente vê de frente quando está no lado brasileiro das cataratas e de cima quando está no lado argentino, onde vemos toda essa água despencando sem parar – completou, indo e voltando com os quatro dedos na curva do “u” com rapidez, como a concretizar o fluxo frenético da água jorrante. – E, só para você saber – continuou, posicionando o meu braço direito a uma curta distância, verticalmente – Este aqui é o Rio Paraná.

Ah! Então era isso! As cataratas, claro que em proporção muitíssimo maior, eram assim... Era esse o fenômeno que toda a gente olhava abismada... Foi como se tivesse sido jogado um feixe intenso de luz sobre aquela irriquieta cortina d’água... E foi assim que, como eu disse, em um passe de mágica, ganhei as cataratas do Iguaçu de presente... Duas vezes!

- Obrigada, Elizete! Valeu, Marcelo! Onde havia um gigantesco ponto de interrogação vocês colocaram textura, cor, tamanho... O tipo da coisa que não tem preço.

domingo, 4 de janeiro de 2015

O Paraguai Além da Fronteira


“Sy (Madre)

Ahai nde resa/ha mitãnguéra oma’ẽ./Ahaí nde juru/ha mitãnguéra opuka./Ahai nde réra/ha mitãnguéra oñe’ẽ.
Dibujo tus ojos/y los niños miran./Dibujo tu boca/y los niños sonríen./Dibujo tu nombre/y los niños hablan”. (Cristian David Lopez).


A maior parte das pessoas, quando vai a Ciudad Del Este fazer compras, diz, de boca cheia, que foi ao Paraguai, que conheceu o Paraguai. Realmente, trata-se de território paraguaio, mas do ponto de vista de país e de povo, essa é uma redução em muito equivocada e bastante simplista.

Ao começarmos a atravessar a chamada Ponte da Amizade – primeiro dos sinais concretos dessa relação comercial estreita que inegavelmente existe entre Paraguai e Brasil -, já impressiona o fluxo intenso de pessoas e de tudo aquilo que anda sobre rodas, de grande porte e de porte pequeno. As instruções que se recebe são para permanecer dentro dos shoppings, para evitar as ruas. E, de fato, se dentro dos shoppings está um mundo – luxuoso, de temperatura agradável, espaçoso e calmo -, nas ruas se vê o oposto dele. Motos aos montes, um trânsito infernal, que para recordar o trânsito da Índia só faltam os camelos, elefantes e gado transitando pelas ruas. Todo o cuidado é literalmente pouco. E mais ainda quando não se vê; cruzar as ruas de Ciudad Del Este é verdadeiramente uma odisseia.

Você está concentrado no trânsito, em não ser atropelado por nenhuma das infinitas motos que surgem não sei de onde e vão para tantos lugares, nas calçadas tão difíceis quanto as do Brasil, quando de repente um vendedor ambulante chega te oferecendo cinco meias por não sei quantos reais. Você diz que não, obrigado, ele começa a aumentar as meias: seis, sete, oito, dez, doze... Quanto mais você diz que não, mais ele aumenta. Até que chega um ponto em que, sem exagerar, ele teria um lucro zero, mas não importa, aumenta que aumenta. Você sai andando naquela 25 de Março piorada e o vendedor segue lado a lado, aumenta que aumenta. Desvencilhar-se de um desses ambulantes paraguaios é uma tarefa difícil. E quando você consegue deixar um para trás, em menos de um minuto surge outro, ora criança, ora adulto e assim as coisas vão. Isso foi algo que me deixou com um pouco de medo, acho que já trazido aqui do Brasil, onde toda a desconfiança é pouca quando um estranho começa a andar com você lado a lado insistentemente pelas calçadas. Bem fundamentado ou não, o medo existiu, mas acho que o vender vinha antes de qualquer outra possível pretensão. Considero isso até compreensível. O comércio é o que literalmente dá vida, em todos os sentidos, à Ciudad Del Este. E, prioritariamente, comércio com brasileiros. Ao que parece, comerciar é uma tradição passada de pai para filho por força das circunstâncias; ou você vende ou você vende. (e agora, com o dólar nas alturas, o mais provável é que você não venda). Como turista é uma situação difícil, mas quando se avalia o lado humano das coisas, são atitudes perfeitamente compreensíveis.

Se olfativamente esse é um ambiente onde se sente de tudo, visualmente, pelo que me contaram, as ruas não são muito diferentes, se vê também de tudo. O tempo que passei lá foi pouco, bem curto, só o de transitar de um shopping a outro, mas cada flash desse cotidiano era um pequeno pedaço de um grande mosaico que ia se desenhando a cada passo.

Tudo isso, porém, é muito pouco para alguém poder dizer: “Estive no Paraguai”! Desculpe, caro leitor, se você um dia, indo somente a Ciudad Del Este, já fez essa afirmação, mas lamento, você, como eu, esteve no Paraguai e ao mesmo tempo lá não esteve. Se esteve apenas em Ciudad Del Este, você ouviu falar de ambulantes, de pirataria, de contrabando, de comércio, de sacoleiros, de multidão, de contas que, com poucos reais, resultam numa quantidade astronômica e confusa de zeros em guaranis, mas raramente algo além disso. Você não deve saber, por exemplo, como agora aprendi – né, Marcelo? -, que o Paraguai, além de vender, tem indústrias e não tem quase impostos. Que, pela parceria com o Brasil na construção da usina binacional de Itaipu, é autossuficiente na produção de energia elétrica. Não deve saber que quando se passa Ciudad Del Esste há todo um mundo completamente desconhecido a quem esteve apenas lá. Não deve saber que a capital, Assunção – ou Asunción para entrarmos mais no clima – é um dos polos culturais da América Latina... Pois é... E é mesmo. Normalmente, aqui no Brasil, poucas pessoas que vão ao Paraguai sabem dessas coisas. Aposto como você não deve ter ouvido nada de espanhol e pouco de guarani – as línguas oficiais do país. O português predomina, com pouco sotaque. Mas isso só lá, em Ciudad Del Este...

Como eu sei? Se já estive em outros lugares do Paraguai? A resposta é não, também não passei de Ciudad Del Este, mas tive um avô que adorava contar histórias aos netos já grandes; histórias reais, principalmente de viagens. E várias dessas viagens dele, montando máquinas, foram para o Paraguai, para Asunción. Assim eu conheci o Lago de Ipacaraí... Conheci a simplicidade das índias em suas casinhas rústicas, cozendo frugalmente e falando guarani, palavras e expressões que meu avô repetia reproduzindo com facilidade os sotaques, ensinava com paciência, a mim, única da família a quem ele contava detalhes dessas histórias. Palavras e expressões cheias de vogais e, por isso, adocicadas de uma doçura que as línguas latinas, com uma consoante ou mais para quase cada vogal, não carregam apesar da melodia. Com as histórias do meu avô conheci a harpa paraguaia, ouvi a mescla de espanhol e guarani nas músicas – em sua maioria lamentosas e muitas vezes em tons menores -, aprendi a diferenciar uma língua da outra, aprendi a gostar da Perla, a paraguaia, não essa aí do funk... Pelamor! Com as histórias do meu avô, quando pisei fora do primeiro shopping de Ciudad Del Este, eu soube que estava sim no Paraguai, mas não no Paraguai sobre o qual ele contava. Eu soube que estava em um Paraguai estereotipado, em uma cidadezinha comerciária de fronteira que é tomada para definir o contexto de todo um país que, embora pequeno, tem muito mais do que Ciudad Del Este para mostrar. Mas antes de mais nada, eu soube que, para conhecer o Paraguai a respeito do qual ele contava com tantos pormenores, a viagem que eu teria de fazer um dia seria completamente outra...

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Na Minha Biblioteca...


“Um livro aberto é um cérebro que fala; fechado, um amigo que espera; esquecido, uma alma que perdoa; destruído, um coração que chora”. (RabindranathTagore).


Escuto da janela cair essa chuva abençoada pela qual tanto esperamos depois de uma estiagem histórica e tão longa. Escuto ao mesmo tempo em que me lembro de uma notícia que vi ontem em um jornal na televisão. Dizia que choveu tanto no Rio Grande do Sul que, em uma escola, várias salas ficaram alagadas, inclusive a biblioteca. Olhando, minha avó contava que os livros das prateleiras inferiores literalmente boiavam, desamparados. (desamparados é por minha conta). Essa imagem me lembrou uma outra, que me acompanha desde que me mudei da casa onde morava, da qual acho que só vou conseguir dar conta depois que me sentar e fizer exatamente o que estou fazendo agora: escrever.

Tive uma infância, em certa medida, solitária. Cresci rodeada de adultos. Brinquedos? Eu os tinha de todos os tipos, mas passei meio que à margem da etapa do esconde-esconde, do pega-pega, da queimada, de pular corda e subir em árvore, coisas que as crianças da minha idade ainda faziam. Isso tudo só periodicamente, quando meu irmão vinha me ver com os meus pais. As crianças da rua, conheci pouco. Me fizeram companhia desde cedo a música e os livros. Desde que me conheço por gente, estou cantando ou tocando alguma coisa.

Quando voltava da escola, terminava os deveres e não queria mais as bonecas ou a música, eu ia ler. Na época, a única maneira como um cego podia ler era o método Braille. Os livros gravados em fitas e cds, os eletrônicos baixados no computador, os livros digitais vieram todos bem depois do momento em que essa história começa. Por isso, eu tinha que reler muitas coisas, pois um livro novo em Braille era coisa rara. No início, eu só tinha aqueles que minha avó mesma havia datilografado em Braille, da escola. Alguns anos depois passei a adquirir, bem devagar, em instituições especializadas, clássicos da literatura em Braille, que eu devorava imediatamente e guardava na estante correndo. Me lembro de reclamar para minha avó que todo mundo podia ir à livraria ou à biblioteca, escolher o que quisesse; eu não, e mesmo assim as pessoas da minha idade não queriam saber de ler. Ela tentava apaziguar, mas sabia que aquilo me deixava uma fera! Minha bisavó, que estudou só até a chamada quarta série, costumava dizer que eu jamais arrancasse uma página de um livro, porque se eu fizesse isso, ele iria chorar. Guardei esse conselho comigo toda a vida, porque para mim, todo livro novo que chega é um novo ente que vai me acompanhar, a partir do momento em que somos apresentados, ao longo da caminhada.

Quando eu tinha uns quinze anos, me lembro de ter visto os primeiros livros gravados em fitas cassete. Eu emprestava os livros da biblioteca e lia que lia; depois vieram os cds e eu lia que lia... Aos dezoito fiz meu primeiro trabalho da faculdade no computador. Um novo mundo, o da tecnologia, me abria de vez as portas. A universidade demandava títulos muito específicos da área das letras, que eu não encontrava em Braille nem gravados em lugar nenhum. Então, pessoas do meu convívio, amigos, parentes, liam os livros impressos em tinta que eu comprava e gravavam, e eu escutava. E junta que junta livro... E assim foi durante muitos anos, minha biblioteca ia crescendo. E ainda mais cresceu depois dos livros eletrônicos e digitais.

Até que chegou um dia ainda não muito distante, em que minha vida sofreu uma grande reviravolta; eu precisava me mudar para um apartamento. Não haveria espaço para guardar os livros em Braille e as fitas; o piano, também, eu precisaria vender; e vendi, para alguém que eu sabia que cuidaria bem dele. Os livros foram dispensados em todos os lugares onde tentei doá-los, inclusive em uma escola para cegos. Aproximava-se o dia da mudança e eu tinha que dar um destino a tudo aquilo que havia juntado... Depois de relutar muito, aceitei de má vontade a ideia de que os meus livros se tornariam alguma coisa reciclada... Coloquei tudo na garagem e pedi que me dispensassem dos momentos finais; eu não queria vê-los indo para a caminhonete. Fui atendida, subi para o meu quarto. Eu me lembrava de tudo o que minha avó datilografou para mim, de todas as fitas que tinham sido gravadas, dos rostos conhecidos que tinham feito as leituras, de todo o tempo que tinham dedicado, de todos os livros impressos em Braille que eu tinha lido e guardado em casa, caso tivesse vontade de ler de novo. Me lembrava dos meus amigos cegos que hoje não querem mais ler Braille por causa dos computadores; me lembrava da grande quantidade que conheço de professores que trabalham com o ensino de cegos e já me disseram com todas as letras que o ensino do Braille não é mais importante, isso aqui mesmo, em Limeira. Me sentia como aquelas mães desesperadas, que têm os bebês às escondidas, enrolam em um pano e colocam no lixo... E ainda hoje, quando penso nos livros que tive que abandonar às próprias más-sortes, na chuva, no sol, na sujeira pelas quais devem ter passado, é assim que me sinto. Aquele dia foi um dos de maior impotência que já vivi.

Conservei os cds, os livros impressos em tinta. Hoje compro muito menos, mas é só assim, com esses dois formatos de livros, a passos lentíssimos, que minha biblioteca ainda cresce. Só aqui entre nós: de vez em quando vou à estante, pego um livro que sei que não vou poder ler agora, e sinto o cheirinho de papel... Mudei-me para o apartamento. O piano agora é digital. Os livros da infância, da adolescência e da juventude ficaram na lembrança. Já me peguei várias vezes pedindo a Deus para conseguir preservar a qualquer custo os livros que restaram e o piano, seja lá para onde eu novamente tenha que ir... Não sei como seria se eu tivesse que passar por isso de novo.

E ontem me deparo com aqueles livros todos na tv, nadando na chuva... Senti que finalmente era hora de escrever, de me libertar; que eu finalmente teria forças e saberia o que dizer... E que finalmente, talvez, depois de tanto tempo passado, os meus entes-livros poderiam me perdoar...

sábado, 13 de dezembro de 2014

Uma Folha Verde

“Sim, eu quero saber. Saber para melhor sentir. Sentir para melhor saber”. (Paul Cézanne).

(Já que a reencontrei há poucas semanas, dedico estes escritos à tia Cleidi, que fez parte desse momento sem jamais saber a importância que ele tinha ou teria. Os dedico também à Mariana, para quem esta história, um dia, foi quase tão importante quanto o foi para mim).


Essa história foi uma memória durante muito tempo. Hoje, elaborada, contada informalmente algumas poucas vezes, está pronta para ser escrita. Ou seria sua protagonista quem está pronta para contá-la?... Não importa. De qualquer maneira, foi assim:

Um dia de escola de criança, aparentemente como qualquer outro. Tão comum que a garotinha não sabia que, dentro de poucos minutos, sucederia algo, não necessariamente ruim, mas que mudaria para sempre o entendimento que ela tinha de si mesma. A melhor amiga, em pé, lhe ofereceu a mão, que ela aceitou como em todos os dias, e se foram as duas para o parquinho, aproveitar a melhor parte do dia quando a gente tem seis anos: o recreio. Se comeu? Deve ter comido, ela não se lembrava. Permaneceu registrado daquele dia apenas um único acontecimento.

Sentaram-se na areia todas as crianças juntas em algazarra, com os baldinhos e aqueles rastelos todos, pás, conchas... Como sempre, a amiga diligentemente postada ao seu lado direito. Embora tivessem a mesma idade, ela estava sempre alerta para o que a outra precisasse. Precisava ir a algum lugar na escola: vamos. Precisava encontrar a escova de dentes no meio das outras: aqui. Precisava pegar o lápis da cor certa no estojo para fazer a atividade como a professora pedia: é esse, ó... E o lápis certo estava ali, ao alcance da sua mão esquerda.

E, assim, a tarde transcorria com tranquilidade. De repente, a garotinha teve a atenção atraída por um diálogo vindo de crianças ali perto:

- Olha, uma folha...

- Nossa! Que bonita!

- Que grande!

- É, olha só, que verde legal!!!

Largou o baldinho e as ferramentas e levantou a cabeça intrigada, monologando consigo mesma: grande, ta bom. Bonita, tudo bem. Mas, verde legal?! O que seria isso, um verde legal?

Pediu para ver a folha, que veio passando de mão em mão até chegar à sua. Tocou cada pedacinho; não viu nada de diferente, nada de textura de verde. Cheirou; nada; cheiro de areia, cheiro de folha, mas nada de cheiro de verde. Pôs perto do ouvido e tudo continuava igual, vai ver que o verde não tinha som. Devolveu a folha a alguém e fez em voz alta a pergunta que mobilizava seus pensamentos às crianças que se assentavam ali perto:

- Que que é isso, verde legal?

- Verde... Bom... Ah, assim... É legal, sabe? Bonito... Ah, verde... Oras, Yara, verde é verde, e pronto, ué...

Claro; que verde era verde e pronto ela já sabia. Como percebeu que daquele mato não sairia mais coelho, resolveu deixar pra lá, perguntar a uma pessoa que soubesse... Uma pessoa grande. Voltou para a areia e o baldinho até terminar o intervalo.

Chegou de novo à classe, sentou-se, esperou pacientemente que a professora passasse as atividades. Quando recebeu a sua e percebeu que todos já começavam a trabalhar, enquanto pegava o papel das mãos da professora, criou coragem e foi dizendo meio reticente:

- Ô tia... Eu queria perguntar uma coisa...

- O quê? – respondeu a professora, a um só tempo terminando de distribuir os papéis às crianças ali da mesma mesinha e virando-se um pouco para olhar a meninazinha que falava com ela, como quem tem um olho no gato e outro no peixe. – Pode perguntar.

- Ah, não - respondeu a garotinha. – Vem aqui perto, por favor, eu queria perguntar uma coisa séria.

- Ta bom, então espera um pouquinho só que a tia já volta.

Ah, essa história de esperar um pouquinho só ela já conhecia, mas tudo bem; sempre acabava dando certo mesmo; E deu.

- Pronto – veio dizendo a professora enquanto se aproximava veloz – To aqui, só pra saber a coisa séria que você queria perguntar... Pode falar.

E como criança dificilmente faz rodeios, a garotinha virou a cabeça para a esquerda, de onde vinha o som da voz da professora, levantou-a um pouquinho como fazia quando queria falar com ela e disparou de uma vez só:

- Tia, o que que é verde???

- O quê? – perguntou a professora como quem se esforça para sintonizar uma frequência certa.

- É isso mesmo que eu quero saber, o que que é verde??? – repetiu a garotinha com vivacidade determinada – É isso, pronto, o que que é verde?

Para surpresa da menina instalada na cadeirinha baixa, a professora, jovem e antes jovial como sempre, apoiou uma mão na mesa e veio baixando o corpo, séria, até sentar-se no chão ao seu lado; tudo isso muito devagar... Para ganhar tempo, quem sabe. Primeiro a calça jeans roçava a sua pele; depois o cabelo da professora, grosso, longo, crespo, forte, veio chegando perto... Mais perto... Passando pelo seu próprio cabelo, depois pelo seu rosto, e, de repente, pronto, a professora estava sentada, ali, pequenininha, igual a ela.

- Yarinha... Bom... O verde... Olha... Sabe, a tia acha melhor você perguntar isso pra vó quando chegar em casa hoje... Tudo bem?

- Ah, ta bom... Tudo bem... Você não sabe responder, né? Eu sei... A Lu também não sabia... Mas eu achei que você sabia... Sabe, tem um monte de gente aqui que não sabe o que que é verde...

A professora levantou-se desconsertada, talvez pela pergunta que ouvira, ou quem sabe pela resposta assustadoramente compreensiva que depois recebera da criança, e, caminhando atabalhoadamente, foi sentar-se à sua mesa, vindo de vez em quando para verificar o andamento das atividades dos alunos e sempre demorando-se um pouco mais ao lado da garotinha que tão decididamente a interpelara; talvez procurando alguma palavra que não surgiu em nenhum momento naquele dia.

A menina, por seu turno, queria chegar logo à casa, afinal, não era qualquer pessoa grande que servia para responder sua pergunta: tinha que ser a vó, que para ela era mãe e sempre seria; tinha que ser a vó, que sempre sabia tudo. Se a professora tinha dito para perguntar para a vó, então tinha mesmo que ser ela, não tinha jeito.

Finalmente lhe disseram que a avó tinha chegado e que ela podia ir. Chegou à casa, jantou, conversou, esperou. Quando conseguiu ficar sozinha com a avó, procurou as palavras para fazer a pergunta que queria e que já por duas vezes tinha ficado sem resposta, mas acabou usando as mesmas anteriormente tentadas naquele dia:

- Mãe, o que que é verde?

A avó-mãe, que nunca lhe tinha escondido nada, começou, devagar, mas resolutamente:

- Verde?... Bom, filha, senta aqui. Olha, o verde é uma cor bem bonita, das folhas, das matas... Algumas horas o mar também é verde. Mas acontece que você não vai conseguir ver o verde como as pessoas fazem, porque elas fazem isso com os olhos e os seus não funcionam. Lembra que eu te contei aquela história que o médico te deixou muito tempo no bercinho? Então, quando você saiu de lá, os seus olhos já não estavam mais funcionando. Eles estão aí, sabe, mas não funcionam. Como quando você quebra um brinquedo, ele continua aí, mas não funciona mais.

A menina fez um sinal de positivo com a cabeça – Entendi.

- Mas olha – continuou a avó – agora que você já sabe que os seus olhos não funcionam, que já entende o que eu quero dizer quando conto isso, vai me prometer que não vai ficar triste e que vai responder todas as perguntas que te fizerem, como você sempre tem feito, porque assim você aprende com as perguntas das pessoas e elas aprendem com as suas respostas. Não deixa nunca de responder, ta bom? O que você não souber, depois me pergunta, mas não deixa nunca de responder.

A menina concordou que assim estava bem e saiu. Continuou sem saber o que era o tal do verde legal, e agora já tinha entendido que não iria mesmo saber. Se a avó não tinha palavras para lhe explicar o que perguntava, ninguém mais as teria. Entendeu que se não saberia o verde, também não saberia o amarelo, o azul nem nenhuma das outras cores. Cresceu e continua sem saber, mas não desistiu ainda de perguntar. Porém, agora, cada tentativa de resposta de alguém é um pouquinho mais de cor que ela consegue juntar. Agora, de cada cor já tem uma ideia; Agora é como se cada tentativa de cada pessoa deixasse cada cor um pouco mais colorida. Agora ela já sabe que nunca vai chegar ao fim da busca, mas sabe também que, até o último dia, vai continuar tentando.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Recuerdos Del Paisito: ¿Qué Uruguay Tiene De Brasil?


Bem, ao que parece, esta é a última das últimas crônicas sobre o Uruguai. Começo a escrever, recordo o vivido e o relatado e constato que os dias no paisito já vão mesmo ficando longe... Só consegui mantê-los por perto até agora por causa das crônicas, sei disso. Mas chegada a hora da última delas, não há como não notar a passagem implacável do tempo. Consulto o caderninho de anotações; vejo que tudo, rigorosamente tudo foi contado.

Assim, para me despedir dos intrépidos brasileiros e uruguaios leitores desta série despretensiosa de crônicas, dedico-me a mostrar, afinal de contas, que traços o Uruguai guarda do Brasil; ao menos alguns deles, os que pude notar ao longo de uma semana. Porque há, sim, em muitas ocasiões, elementos que trazem de volta o Brasil aos brasileiros que passeiam ou mesmo moram no Uruguai.

Para começar, não é nada difícil ouvir o som do português brasileiro no Uruguai. Quase em todo lugar onde se chega, em muitas das esquinas que se dobra, se um brasileiro apurar o ouvido, muito certamente ouvirá o acento familiar de sua terra, principalmente nas áreas mais turísticas do país, agora que os brasileiros vêm cada vez mais descobrindo as belezas do Uruguai e a hospitalidade tranquila, cortês, discreta e sempre atenta dos uruguaios. Os ônibus de turismo, por exemplo, têm mais brasileiros do que qualquer outra coisa... Prova disso é que saí daqui de Limeira e, fazendo o citytour de Montevidéu, no segundo dia da viagem, conheci um casal de Brasileiros de Sampa, Alessandra e José Eduardo (acompanhados pela mãe dela, Ana). E tinha que ser naquele dia, naquela hora, porque depois do almoço partiram para Punta Del Este, tomando nossas viagens rumos bem diferentes, e não mais os vi. Contudo, apesar do pouco tempo, trocamos ideias, contatos e sempre estamos nos falando... Mundo pequeno...

Mas, como eu dizia, quando a gente diz que é brasileiro no Uruguai, na grande maioria das vezes, o interlocutor abre um sorriso e se abre por inteiro; conta o que conhece do Brasil; diz que já está acostumado à alegria ruidosa dos brasileiros; faz perguntas, quer saber, faz o máximo possível para aproximar-se do português se percebe que não é entendido em espanhol. Isso quando os uruguaios não falam o português mesmo, principalmente os gaúchos da fronteira ou aqueles que por alguma razão têm uma ligação estreita com o Brasil.

Outro traço brasileiro sempre presente no Uruguai é a música: da sertaneja à mpb, passando pelo chorinho e outros gêneros mais, o português brasileiro cantado está sempre saindo dos auto-falantes, assim como os ritmos quebradinhos e as melodias dissonantes tão típicas do Brasil. Inclusive, não poucas vezes ouvi uruguaios cantando em português. E isso tudo lá, bem longe do Norte, bem distante da fronteira com o Brasil. Cheguei mesmo a ouvir no rádio um anúncio de um show da Gal Costa que aconteceria em Montevidéu em poucos dias, cujos ingressos estavam sendo vendidos.

E como não poderia deixar de ser, a presença das novelas brasileiras se faz sentir fortemente no Uruguai. Dubladas em espanhol, claro, como fazemos com as mexicanas aqui, mas sempre há uma oportunidade para um brasileiro encontrar uma de suas novelas para assistir, se tiver um tempinho de passar pelos canais. E, claro, temas brasileiros também andam pelos noticiários. No meu caso, ouvi sobre a eleição presidencial, quando a candidata Marina Silva estava no auge de sua campanha e de sua popularidade.

Enfim, para todos os brasileiros com os quais cruzei no Uruguai por alguma razão, de passagem, a palavra que mais frequentemente resumia o país e o povo era satisfação. Quanto a mim, penso que a palavra que melhor os resume seja afetividade; palavra não, expressão. Afetividade cálida é a expressão que melhor os resume. E levada por essa afetividade, um dia, eu volto... Quem sabe?! Assim, para encurtar a despedida que não aprecio, termino a crônica e a série simplesmente com um “até breve”!